PR defende reforma da ONU e alerta que o tempo das intenções “esgotou-se” na crise climática

PorExpresso das Ilhas, Inforpress,20 jan 2026 10:03

O Presidente da República, José Maria Neves, defendeu, esta segunda-feira, uma “reforma profunda” da arquitectura das Nações Unidas e lançou um aviso sobre a urgência climática, asseverando que o mundo já não tem margem para meras declarações de intenção.

O chefe de Estado o fez estas declarações durante a tradicional apresentação de cumprimentos de Ano Novo ao Corpo Diplomático acreditado em Cabo Verde.

Num discurso marcado pelo contexto geopolítico de 2026, José Maria Neves manifestou profunda preocupação com a “diplomacia da força”, que, conforme sublinhou, tem vindo a substituir o diálogo internacional.

Para Neves, o fortalecimento do multilateralismo não é uma opção, mas uma “necessidade existencial” para os pequenos Estados insulares.

“A Organização das Nações Unidas, em particular o seu Conselho de Segurança, já não reflecte plenamente a realidade geopolítica actual, nem dispõe dos instrumentos necessários para responder com eficácia aos desafios contemporâneos”, afirmou o Presidente, apelando a uma estrutura mais representativa, mais eficaz e mais capaz de cumprir o seu mandato fundamental de manutenção da paz e da segurança internacionais, passados 80 anos da sua fundação.

Por outro lado, na qualidade de Patrono da Década do Oceano, destacou a entrada em vigor, a 17 de Janeiro, do histórico acordo da ONU sobre a biodiversidade marinha (BBNJ), deixando, entretanto, um alerta relativamente aos resultados da COP 30.

“A sobrevivência do planeta exige responsabilidade e cumprimento efectivo dos compromissos. O tempo das declarações de intenção esgotou-se”, reiterou, recordando as “duras provações” vividas em 2025, como a tempestade Erin e as cheias em Santiago Norte, agradecendo, neste particular, a solidariedade internacional que ajudou o país a mitigar os danos humanos e materiais.

“Enquanto Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento e Patrono da Década do Oceano, Cabo Verde não pode permanecer indiferente à degradação acelerada do ambiente e dos oceanos. A resposta da natureza às acções humanas tem sido severa e inequívoca”, observou.

“Todos os esforços orientados para responder à crise climática são essenciais para países como Cabo Verde. A COP 30 trouxe sinais de esperança quanto a uma desejável inflexão nas posturas actuais, mas é imperativo que os compromissos assumidos se traduzam em acções concretas”, comentou.

No plano interno, José Maria Neves congratulou-se com a ascensão de Cabo Verde ao grupo de países de rendimento médio-alto, pelo Grupo Banco Mundial, mas manteve um tom cauteloso, sublinhando que o país continua a ser “extremamente sensível a choques externos” e precisa de erradicar a pobreza.

“Este reconhecimento resulta de políticas consistentes, de instituições resilientes e da confiança crescente da comunidade internacional no percurso que temos vindo a trilhar”, considerou.

José Maria Neves aproveitou ainda a ocasião para felicitar o Senegal pela conquista da Taça das Nações Africanas (CAN 2025), enviando uma mensagem directa ao Presidente Bassirou Diomaye Faye.

Na sua intervenção, lamentou igualmente a instabilidade na sub-região africana e a erosão dos valores democráticos a nível global, referindo que a democracia exige vigilância permanente, transparência e um “compromisso inequívoco” com o Estado de Direito.

Antes de concluir, lembrou que Cabo Verde enfrentará este ano eleições legislativas e presidenciais, apelando a que o processo decorra com o civismo e o respeito pelos resultados que têm caracterizado, conforme sublinhou, as três décadas de democracia do arquipélago.

O evento encerrou com um apelo aos diplomatas para que sejam “intérpretes atentos” das aspirações de Cabo Verde junto dos seus governos e organizações internacionais.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Inforpress,20 jan 2026 10:03

Editado pormaria Fortes  em  21 jan 2026 6:19

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