Numa comunicação dirigida aos cabo-verdianos, o Primeiro-ministro disse falar "como um cabo-verdiano profundamente preocupado" com o momento político do país e considerou que os recentes acontecimentos representam um ataque às instituições democráticas.
Segundo o chefe do Governo, "cada novo ataque político, disfarçado de facto institucional, cada tentativa de transformar processos em espectáculo e cada esforço para lançar suspeitas sobre quem foi escolhido pelo povo representam uma vergonha para Cabo Verde".
Francisco Carvalho defendeu que estas acções não atingem apenas o Governo, mas "uma das democracias mais respeitadas, estáveis e admiráveis em África", sublinhando que Cabo Verde construiu a sua reputação internacional através da estabilidade institucional, da maturidade democrática e da alternância pacífica do poder.
O primeiro-ministro alertou ainda para o impacto que a actual situação poderá ter na imagem externa do país, recordando a projecção internacional alcançada recentemente pela selecção nacional de futebol.
Na sua intervenção, acusou ainda os seus adversários políticos de procurarem alcançar "por outros caminhos aquilo que não conseguiram" nas urnas. "Quem insiste em alimentar a instabilidade, a desconfiança e o conflito permanente presta um mau serviço ao povo cabo-verdiano", afirmou.
Carvalho referiu que, antes das eleições, existia uma estratégia para o impedir de chegar ao poder. "Muitos ouviram deste grupo radical que era preciso parar Francisco Carvalho. O povo respondeu de forma clara nas urnas. Agora, alguns aparecem querendo continuar essa mesma estratégia por outras vias", declarou, garantindo que essa tentativa "não o conseguirá".
O chefe do Executivo recordou igualmente que, desde o período em que presidia à Câmara Municipal da Praia, tem sido alvo de ataques semelhantes, assegurando que sempre respondeu "com serenidade e determinação".
Sobre o processo conduzido pelo Ministério Público, Francisco Carvalho reiterou o seu respeito pelas instituições judiciais e garantiu colaboração. "Tenho absoluto respeito pela justiça e responderei como sempre respondi: com serenidade, transparência e total confiança de que a verdade prevalecerá", afirmou.
Contudo, frisou que continuará a denunciar aquilo que considera serem tentativas de instrumentalização política da situação judicial.
No momento mais duro da sua intervenção, o primeiro-ministro afirmou que "o que estamos a ver é uma tentativa de golpe de Estado disfarçado de oposição".
Apesar das críticas, garantiu que o Governo manterá o foco na governação. "O Governo continuará a fazer aquilo para que foi eleito, que é governar. Trabalhar para reduzir o custo de vida, aproximar as ilhas, melhorar os serviços públicos e cumprir a palavra dada aos cabo-verdianos", declarou.
Francisco Carvalho concluiu afirmando que a resposta do Executivo não será o confronto político, mas sim o trabalho governativo, defendendo que "Cabo Verde merece paz institucional" e uma acção centrada na melhoria das condições de vida da população.
Questionado sobre se o reaparecimento de notícias relacionadas com membros do Executivo corresponde a uma agenda política concreta, Francisco Carvalho evitou comentar directamente os processos, sublinhando que a prioridade é a apresentação do Programa do Governo no Parlamento.
"A partir do dia 17, com o nosso Programa do Governo aprovado e a nossa moção de confiança aprovada, vamos começar a trabalhar de facto e construir aquele Cabo Verde para Todos que prometemos aos cabo-verdianos", afirmou.
Segundo o líder do governo, a acção governativa será centrada na resolução dos principais problemas do país, destacando áreas como educação, saúde e transportes interilhas.
"Os cabo-verdianos continuam com vários sonhos adiados durante vários anos. Temos situações complicadas ao nível da educação, da saúde e das ligações entre as ilhas", disse.
Francisco Carvalho aproveitou ainda para acusar o MpD de tentar fugir às responsabilidades pela governação dos últimos dez anos.
"Neste momento, o que o MpD deveria estar a fazer era prestar contas ao país e esclarecer o retrocesso a que condenou Cabo Verde nos últimos dez anos", declarou.
Como exemplo, referiu um projecto de cadastro financiado em três milhões de dólares, alegando que dois milhões já terão sido gastos sem que tenha sido cadastrada qualquer área.
"Temos várias situações desta natureza e o MpD deveria estar preocupado em justificar esse atraso e essa dilapidação do erário público", afirmou.
Confrontado com perguntas sobre alegadas tentativas de desestabilização política e sobre quem responsabiliza pelo que alguns têm classificado como um "golpe de Estado institucional", Francisco Carvalho respondeu que o seu Governo será "marcado pela verdade" e pelo combate "ao cinismo e à hipocrisia".
Sem apontar directamente responsáveis, lançou, contudo, uma insinuação sobre a origem de uma acusação recentemente tornada pública.
"Há uma pergunta importante: onde é que essa acusação foi redigida? Em que escritório ou gabinete de consultoria jurídica essa acusação foi redigida?", questionou.
Perante o pedido dos jornalistas para esclarecer a afirmação, repetiu que seria importante apurar "onde foi redigida a acusação", defendendo que essa resposta contribuiria para "pôr fim à hipocrisia e ao cinismo que marcaram a governação de Cabo Verde nos últimos dez anos".
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