"As crises devem ser aproveitadas como oportunidade para crescermos" - Arlindo do Rosário

PorJorge Montezinho,22 mar 2020 8:37

Na semana em que o governo restringiu as medidas de protecção tomadas pelo país, o Expresso das Ilhas falou com o Ministro da Saúde e da Segurança Social, Arlindo do Rosário, para saber qual é a capacidade actual de resposta do arquipélago à pandemia que está a fazer tremer o mundo.

Esta entrevista foi gravada antes da confirmação de qualquer caso de infecção por coronavírus em Cabo Verde

Estamos num daqueles momentos em que se aplica a máxima: esperar o melhor, estar preparado para o pior?

Sim. Penso que a tendência da epidemia a nível mundial nos leva a tentar estar preparados para o pior. É evidente que a situação aqui em Cabo Verde é ainda estável, sem nenhum caso confirmado, apesar dos casos suspeitos todos têm dado negativo, mas se nos pusermos no contexto mundial temos de estar preparados, sendo certo que faremos todo o possível para que não aconteça em Cabo Verde.

A sensação com que se fica é que o mundo não estava preparado para uma situação destas. Isso explica a rapidez, ou a falta dela, com que se reagiu?

Primeiro, é normal que o mundo não estivesse preparado. É uma epidemia de um vírus novo, cujas características não estavam bem definidas. Ainda hoje não se sabe exactamente tudo sobre o vírus. Por outro lado, este vírus tem a característica de conseguir transmitir-se numa fase ainda assintomática, o que criou uma situação nova em termos de detecção dos casos. A própria OMS, inicialmente fez uma avaliação que o tempo veio a mostrar que o quadro afinal era muito mais grave do que se pensava.

Não teve a importância devida.

Exactamente. Pensou-se que era algo que podia ser confinado na China sem atingir a proporção de pandemia.

Em Cabo Verde, quais são os principais desafios que se podem antecipar?

Nós desde o início procuramos, pelo menos ao nível da detecção precoce, implementar medidas nos aeroportos, nos portos, tivemos os casos dos estudantes que vieram da China, que não estavam no epicentro da epidemia, a quem fizemos todo o seguimento, não só dos estudantes, mas também de cidadãos chineses que vivem em Cabo Verde. Criámos a linha verde. Enfim, demos os passos que deviam ser dados. Por outro lado, sabíamos da nossa dificuldade e deficiência ao nível do diagnóstico e trabalhámos de forma acelerada, com o apoio da OMS e da Organização Oeste Africana de Saúde, no sentido de criar essas capacidades e, felizmente, desde o dia 15 que temos essa capacidade a funcionar em Cabo Verde. Antes disso, reforçámos a colaboração com o Instituto Ricardo Jorge, de Portugal, que mostrou uma disponibilidade excepcional em fazer os testes diagnósticos.

Em relação ao laboratório, há cerca de um mês, em todo o continente, havia apenas dois laboratórios preparados para diagnosticar o Covid19 – no Senegal e na África do Sul – como é que Cabo Verde conseguiu criar esta estrutura em tão pouco tempo?

Convém dizer que não montámos um laboratório de raiz, o laboratório está montado desde 2014, já vinha realizando testes para o HIV, para o arbovírus – como dengue ou zika – portanto, já tinha know-how, o que fizemos foi adicionar esse elemento que é o coronavírus. No fundo, o que fizemos foi criar, e mesmo assim foi um grande investimento, as condições em termos de reagentes, dos aparelhos e equipamentos específicos, e dar competências aos técnicos para poderem fazer esses exames.

Podem ser feitos 300 exames por dia. É um número satisfatório para Cabo Verde?

Espero que não tenhamos necessidade de atingir sequer esse número, mas estou convencido que com as novas medidas agora tomadas pelo governo – principalmente a suspensão de voos – diminuímos a probabilidade de termos casos suspeitos. A caracterização do que é um caso suspeito é extremamente lato, daí que tenhamos, muitas vezes, de pecar por excesso.

Percebo, porque haverá muitas gripes que serão analisadas por se pensar que poderá ser o coronavírus.

Exactamente.

Em termos de stocks de máscaras, luvas, medicamentos, estes estão assegurados?

Temos de pensar em vários cenários. Podemos ter um cenário em que a epidemia não venha, seria o ideal, e pode haver outros cenários do aparecimento de casos a nível nacional ou em ilhas em que a demanda seja relativamente maior. Há uma certa dificuldade em alguns países, é bom dizer, não em termos de financiamento, mas em ter a capacidade de adquirir esses equipamentos, mas o que posso dizer é que num cenário relativamente moderado temos assegurada a resposta.

E temos canais, havendo oferta, de adquirir mais?

Sim.

Outra questão referida é a dos ventiladores, necessários para os casos mais graves. Quantos ventiladores tem Cabo Verde?

Nós temos ventiladores nos hospitais centrais, e também regionais, que têm sido utilizados sobretudo nos blocos cirúrgicos e nas salas de cuidados intermédios. Logicamente, não estamos a contar com esses, daí que fizemos um investimento onde alocamos uma verba para a compra não só de ventiladores, como de outros equipamentos necessários para as salas de tratamento mais intensivo. Ainda não estão cá, chegarão nos próximos dias, mas até lá podemos utilizar alguns que temos em reserva. Acredito que a percentagem de pacientes que tenham necessidade de fazer esse tratamento intensivo será relativamente baixo. É um cálculo que se faz, levando até em linha de conta o perfil demográfico do país. Como sabemos, em sociedades com uma faixa etária mais elevada o risco é maior, portanto, nesse aspecto estamos a beneficiar do bónus demográfico de termos uma população relativamente jovem.

Em princípio, o que temos é suficiente.

Num cenário moderado, sim. Em função das possibilidades, poderemos adquirir mais.

Nos hospitais, que procedimentos foram alterados?

Primeiro, foram criados espaços de isolamento, não só nos hospitais centrais e regionais como nos centros de saúde. Nos centros de saúde são, essencialmente, espaços de isolamento de curta duração, a tendência é encaminhar os casos mais graves para os hospitais. Reforçámos também as equipas que estão a trabalhar exclusivamente para essa situação, com cerca de cem novos profissionais de saúde, para além da colocação nos próximos tempos de cerca de 179 enfermeiros que já estavam no processo normal de recrutamento. Mudou-se também alguma rotina e criámos equipas vocacionadas para o coronavírus em particular.

Por falar em isolamento, quantas pessoas podem ser atendidas actualmente nos hospitais cabo-verdianos?

A questão do isolamento depende da gravidade, e estamos a falar de isolamento para os casos confirmados de infectados. Em muitos países, os casos ligeiros não estão a ser internados, são acompanhados numa forma de isolamento domiciliário, portanto, em casa. Em Cabo Verde estamos a criar espaços nos hospitais, por exemplo, toda a área onde estavam os quartos particulares em São Vicente foi adequada para o isolamento, no Agostinho Neto temos espaço para receber mais de 14 casos de isolamento, nos hospitais regionais também temos. Não são grandes valores, mas temos esses espaços. De qualquer modo, para um cenário em que tenhamos necessidade de ter áreas maiores de isolamento estamos a criar espaços mesmo fora dos estabelecimentos de saúde para isolamento. E temos esses espaços no Sal e na Boa Vista e haverá em todas as ilhas. Temos é de garantir a segurança também das outras pessoas internadas e dos profissionais de saúde.

Neste momento, usam-se projecções matemáticas nos outros países para acompanhar a progressão da infecção. Já se faz o mesmo em Cabo Verde?

Existem actualmente aplicações com fórmulas que permitem antever o número de casos que podem existir e dentro desses quais poderão ser mais graves. Claro que temos de usar essas aplicações, porque permitem uma estimativa mais próxima daquilo que poderão ser as nossas necessidades, por isso, estamos a trabalhar também nesse aspecto, aproveitando as ferramentas já existentes.

A nível global, está provado que ficar em casa é a melhor forma de prevenção quando o vírus chega a um país. Temos planos para essa forma de quarentena em Cabo Verde, se for necessário?

A quarentena domiciliária resulta fundamentalmente da sensibilização e apropriação da sociedade por essa solução. Na realidade, é uma quarentena voluntária e depende do critério e da vontade das pessoas. Esse trabalho está a ser feito e houve casos, principalmente os que vieram da China, que acompanhámos diariamente. Nós não temos quarentena obrigatória, salvo o internamento obrigatório em situações em que há a confirmação que a pessoa está infectada e põe em causa a saúde pública.

Houve esse debate, se a lei cabo-verdiana permite a internação compulsiva.

A lei da base da saúde permite isso em situações em que claramente está em causa o bem comum, a saúde pública e quando há risco confirmado para a população. Claro que deveremos ter um diálogo de paz, não só os profissionais de saúde, mas envolver também os estudantes, as famílias e todos os cidadãos.

Fiz-lhe essa pergunta pensando no exemplo português, onde as escolas fecharam, as empresas suspenderam a produção, eventos desportivos parados, se Cabo Verde tiver de ampliar as medidas…

(interrompe). Vamos ter novas medidas já a partir de quinta-feira, dentro do quadro de contingência que foi estabelecido, em que caberá inclusive à protecção civil fazer a coordenação de todas as acções, da mesma forma que acontece em Portugal, e há várias medidas de restrição na frequência de certos espaços, em relação aos horários de funcionamento, o número de pessoas que pode juntar-se, etc., tudo isso vai entrar em vigor na sequência das medidas já anunciadas.

Vão fechar-se as escolas, por exemplo?

Até às férias da Páscoa vão continuar a funcionar. A principal medida que tomamos foi restringir os voos. Não tendo casos ainda em Cabo Verde, novas medidas podem ser adicionadas, mas todas devem respeitar o plano de contingência que existe. Ainda não estamos em emergência, logo, as medidas devem ser adaptadas ao que temos.

Ainda não querem limitar demasiado a vida das pessoas, no fundo.

Exactamente, até porque pode ter um efeito contrário ao que pretendemos. Importante é informar, sensibilizar, mos­trar o que tem sido feito e como podemos melhorar. Mas isso não depende apenas de medidas legislativas, depende também de cada um. Se for necessário medidas mais restritivas, também serão aplicadas.

Mas, por exemplo, para os bairros periféricos, onde há uma grande densidade populacional e onde não há infra-estruturas básicas como água e saneamento, há algum plano de contingência específico?

O plano de contingência é nacional e será ajustado em função da realidade. Há organismos que têm o seu próprio plano, adaptado ao nacional logicamente, e determinados bairros e ilhas terão os seus.

Diz isso porque pode haver a necessidade de se isolar uma ilha?

Eventualmente. Temos de ter todas as opções em aberto. Por isso mesmo é que aqui entram questões que muitas vezes estão fora da saúde pública e que são da protecção civil. No conselho nacional da protecção civil estas são questões que terão de ser devidamente equacionadas. Da parte da saúde, daremos a nossa contribuição, mas essas são questões de âmbito mais geral e com soluções que terão de ser multissectoriais.

Outra questão que tem surgido nos países onde já existe contaminação é o que fazer com os hospitais privados, se deve ser avançada uma requisição civil para que ponham as camas que têm ao serviço de toda a população. Esse cenário pode também acontecer em Cabo Verde?

Não fechamos nenhuma possibilidade. Estamos a monitorizar diariamente a situação, não só em Cabo Verde, mas também a nível global, e em função dos sinais e indicações que formos recolhendo poderemos tomar outras medidas. É isso que lhe posso dizer neste momento. Penso que todas as medidas que temos tido até ao momento são de antecipação e não de reacção, nesse aspecto, se houver necessidade de também tomar medidas de antecipação elas serão realizadas.

Como também tem a pasta da segurança social, faço-lhe esta questão: se tivermos uma quarentena, se as pessoas tiverem de ficar em casa, se as empresas fecharem, como serão protegidos os trabalhadores?

Essa é uma boa questão, mas que não cabe apenas à segurança social, tem a ver também com o ministério do trabalho, com o ministério das finanças, e posso garantir-lhe que são preocupações que devem ser debatidas num fórum de concertação social porque todos contam e essas questões, que são muito sérias, têm de ser analisadas e tem de se encontrar soluções no quadro da concertação social.

Como falou em antecipação de cenários, não acha que este fórum de concertação social não devia já ter-se realizado?

Poderia, mas ainda não está fora do tempo. Acredito que o governo dará os passos necessários para encontrar uma solução para isso. Porque há várias questões, a do poder de compra das pessoas, o trabalho à distância, diria que na qualidade de ministro da segurança social terei de dar a minha contribuição, mas mais do que tudo é um assunto abrangente e deve ser resolvido num fórum próprio sem que eu esteja a avançar com medidas que têm de ser colectivas.

Mas, por exemplo, há folga orçamental para garantir subsídio de desemprego se houver empresas a despedir pessoal?

Nós discutiremos tudo o que estiver relacionado com a situação laboral nos fóruns próprios. Porque também temos de discutir a questão das empresas, que medidas fiscais podem ser tomadas para proteger as empresas, que medidas para proteger o trabalhador, digamos que são questões extensas de um pacote que deve ser devidamente debatido e não gostaria de antecipar medidas.

Mas tudo isso deve ser discutido o mais depressa possível.

Sem dúvida.

Quando tudo isto passar, espera que tenha sido fundamentalmente um momento de aprendizagem?

Penso que sim. O mundo já enfrentou várias epidemias que dizimaram milhões de pessoas ao longo dos séculos. Esta epidemia poderá até melhorar o espírito de colaboração entre os diversos países. Mostrou, apesar dos avanços da ciência, a vulnerabilidade que ainda temos em situações como esta. Mostrou também a importância dos países terem sistemas de saúde resilientes e capazes de dar respostas. Há um conjunto de lições que podemos retirar e acredito que o mundo as vai retirar, até no relacionamento interpessoal poderemos aprender a dialogar mais, a colaborar mais, a estar mais próximos.

Tem a visão optmista que as crises fazem vir ao de cima o melhor do ser humano?

Tenho. E penso que as crises devem ser aproveitadas como janelas de oportunidade para crescermos, para sermos mais resilientes e para reflectirmos onde estamos e o que queremos para este mundo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 18 de Março de 2020.  

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Autoria:Jorge Montezinho,22 mar 2020 8:37

Editado pormaria Fortes  em  29 mai 2020 23:21

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