Cabo Verde volta a ter “Chuva Braba”

PorChissana Magalhães,30 dez 2018 10:50

​Regressa às livrarias e bibliotecas do país uma das obras maiores da literatura cabo-verdiana: Chuva Braba. Passadas seis décadas da sua primeira publicação, a Biblioteca Nacional de Cabo Verde reedita este que é um dos títulos mais conhecidos e apreciados de Manuel Lopes.

“Porto Novo não tem montanhas. Ali há vento à solta, mar raso por aí fora franjado de carneirada. Há distância: um azul que navega e naufraga num mundo sem limite. Lá adiante fica S. Vicente, cinzento e roxo, roxo e cinzento, depois é só horizonte. O mar, quando cai a calma sobre o canal, desliza ora para o sul ora para o norte, consoante a direcção da corrente, como as águas dum rio que ora descessem para a foz ora remontassem da foz para a nascente.

As árvores são torcidas e tenazes, têm a riqueza dramática das desgraças hereditárias ou das indomáveis perseveranças. Cheira a marisco que vem das praias de seixos rolados e areia negra. Cheira a poeira das ruas onde há bosta de mistura. Cheira a melaço e aguardente, a fazenda e a coiro dos armazéns. Cheira a maresia no vento que sopra sobre os telhados. Mas há água canalizada da Ribeira da Mesa, um chafariz público onde as alimárias bebem, uma horta exuberante no Peixinho e um jardim emaranhado e virgem à beira mar”.

Assim escrevia Manuel Lopes. Estes são dois dos primeiros parágrafos da segunda parte de Chuva Braba, publicado originalmente em 1956 e hoje denominado clássico da literatura cabo-verdiana e qualificado como um romance – embora o seu autor o caracterizasse como uma novela – fundamental no retrato da identidade cabo-verdiana e, particularmente, da profunda ligação do homem crioulo à terra e suas angústias nascidas da esperança de chuva. No livro, o romance entre o jovem protagonista Mané Quim e Escolástica é pano de fundo para o eterno dilema dos cabo-verdianos: querer partir e ter de ficar, querer ficar e ter de partir, com a seca a impelir à busca de melhores condições de vida, fora das ilhas.

“Em Chuva Braba, Mané Quim, o protagonista adolescente, acorda ao som da chuva e resolve não partir para o Brasil com o padrinho. Por outro lado, José da Cruz, o lavrador e rendeiro de Flagelados do Vento Leste, depois de ter resistido estoicamente na terra ressequida, deixa tudo e toma o rumo da vida. O velho proprietário Nhô Lourencinho intercepta José da Cruz na estrada e repreende-o por ter perdido a sua dignidade ao abandonar a terra sagrada.

Os dois romances são complementares, na medida em que tratam dos efeitos de duas indomáveis e volúveis forças da natureza tão conhecidas dos patrícios, a chuva e a lestada (ou o harmatão)”, escreve o pesquisador e docente universitário, Manuel BritoSemedo, numa breve análise à obra de Manuel Lopes.

O escritor, natural de São Nicolau (1907) é uma das mais proeminentes figuras da literatura nacional, tendo integrado o núcleo fundador do movimento Claridade (1936). Para além das suas obras mais célebres – onde se incluem ao lado de Chuva Braba, “O Galo Cantou na Baía” (contos) e “Os Flagelados do Vento Leste” (romance adaptado ao cinema) – Manuel Lopes tem uma vasta bibliografia onde também desponta a sua veia poética. “Poemas de Quem Ficou” (1949) e “Falucho Ancorado” (1997), são dois dos seus livros de poesia.

Voltando a Chuva Braba, a obra rendeu-lhe o prémio “Fernão Mendes Pinto” da Agência Geral do Ultramar, no ano da sua publicação. Conforme referencia o pesquisador Joaquim Saial (particularmente dedicado à bibliofilia) no seu sítio online Praia de Bote essa primeira edição do livro tem a singularidade de trazer imagem de capa e ilustrações feitas pelo próprio escritor.

Integrado na lista dos livros de leitura recomendada no Ensino Secundário, “Chuva Braba” conheceu várias reedições porém quase todas no exterior, pelo que no mercado nacional estava quase que completamente esgotado.

Entre as edições que foi ganhando ao longo desses 62 anos desde a sua primeira publicação, quase todas com origem em Portugal – contam-se a da editora Ulisseia (de Fevereiro de 1965), a da Edições 70, inserida na colecção Autores de Cabo Verde, a do Clube Português do Livro e do Disco na colecção Romances do Nosso Tempo e, uma mais recente (1997), da Editorial Caminho, na colecção Uma Terra Sem Amos.

Esta reedição pela Biblioteca Nacional (BN) insere-se na estratégia dessa instituição tutelada pelo Ministério da Cultura e das Industrias Criativas de recuperar uma série de títulos assinalados como clássicos da literatura cabo-verdiana. A colecção em que as reedições estão incluídas chama-se precisamente “Os Clássicos”.

O primeiro passo desta iniciativa foi dado em Outubro de 2017 com a recuperação e publicação de uma série de obras de Eugénio Tavares reunidas em um livro. Em Abril de 2018 seria a vez de “Chiquinho”, de Baltasar Lopes da Silva.

“O projecto mínimo é de quatro obras por ano para uma colecção que já está aprovada como os ‘clássicos’, dizia na altura à Inforpress a então curadora da BN. Fátima Fernandes também avançava que a instituição pretendia editar mais duas obras sendo possivelmente “Contar Mar e Vento”, de Teixeira de Sousa, e “Famintos”, de Luís Romano mas ambos viriam a ser publicados pela Academia Cabo-verdiana de Letras.

A apresentação pública desta nova edição de “Chuva Braba” aconteceu na passada sexta-feira, dia 21.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 891 de 24 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,30 dez 2018 10:50

Editado porAntónio Monteiro  em  22 ago 2019 23:22

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