Burro Carga-d’água – "O horizonte não é o fim do mundo"

PorSara Almeida,5 jan 2020 9:39

João Fonseca
João Fonseca

Um ano depois de “As tartarugas também choram”, foi lançado, este Natal, o segundo livro do projecto “Estórias do Meu País Inventado” de João Fonseca. Chama-se “Burro Carga-d’água”, foi ilustrado por João Baptista (“Fico”), artista da comunidade dos Rabelados e é uma homenagem às crianças às quais são vedadas meninez e horizontes.

Era um grupo de crianças, da zona da Ribeira da Principal, no interior de Santiago. Três irmãos. “Um dos irmãos teria uns 7 ou 8 anos. O seguinte, uns 5, e o mais pequeno, no máximo 2 anos. Iam sempre em fila”. A esposa de João Fonseca trabalhava na Calheta, São Miguel, e todos os dias viam passar essa procissão, de crianças, que cedo acordavam para ir buscar água e às 8h da manhã regressavam a casa com o precioso líquido.

“O mais velho levava uma boia de água de 10 litros, o do meio, uma de 5 e o mais pequeno, que tinha aprendido a andar há pouco tempo, uma de 1,5 litros”.

“Esta é a primeira inspir­ação, concreta”, do livro “Burro Carga-d´água”, conta o autor.

Outras crianças. Outra influência. “Dois irmãos também, um com 5, 6 anos, o outro com 7 ou 8, que todos os dias se cruzavam connosco de manhã e ao fim do dia. Iam tratar dos animais, iam com as cabras para os montes, e voltavam ao fim do dia, em regresso à aldeia deles”.

Crianças que cedo começam a ajudar em casa, filhas de uma realidade em que muitas vezes deixam de ir à escola, faltam às aulas e por vezes desistem, para ajudar na lide e na carga-d’água.

Uma outravivência concreta que se junta, para criar o tecido de uma realidade que é transfundida para a estória, vem também do interior de Santiago.

“Conhecemos uma rapariga, tinha entrado para a escola, é nela que tentamos reflectir a personagem feminina do livro”. A única personagem que foi à escola e aprende mundo para além da sua comunidade isolada.

A menina “abordou-me para pedir dinheiro para comprar os livros. Conversamos e eu perguntei pelos pais. Respondeu que a mãe estava em casa, e o pai tinha embarcado há 20 anos. Ela tinha 6 anos”, recorda o autor.

Essa ingenuidade, esse sentimento de pureza foi igualmente “um elemento que quisemos trabalhar”.

Um sentimento que é transposto para os irmãos “carga-d’água” (duas personagem masculinas do livro), mostrado pelo “facto de eles não perceberem que o mundo continua para além do horizonte. É procurar esse sentimento de pureza das pessoas que vivem isoladas, que não conhecem outras realidades”. Uma homenagem a uma certa inocência, que o mundo não corrompeu, mas que carrega em si também a tristeza de “um presente sem futuro”.

“Então esta realidade transportou-nos para uma tentativa que eu tinha de criar um texto com uma identidade verdadeiramente ligada à terra, ao sentimento de quem vive isolado”.

O livro e a escrita

Toda esta realidade que deu origem à estória, se transmutou em palavras ao som do disco ‘Funanight’ de Mário Lúcio. Aliás, são versos do ‘tema de minis (Onti) que abrem o livro. Um álbum em que também toca a temática central do livro: “é sobre o trabalho infantil e sobre o direito à felicidade das crianças”. Realidade, palavra-som, palavra-escrita.

Mas antes de ser um livro infanto-juvenil, “Burro carga d’Água” começou por ser um conto de João Fonseca. Escreveu-o. Colocou-o ‘na gaveta’ a marinar e a depurar-se por um ano. E depois readaptou-o, tornou-o menos triste, mais voltado para um público com o horizonte à sua frente, sobre um enredo necessário.

“Depois volta a ficar na gaveta, e depois, então, é cosido, interligando tudo, porque acho que o processo de escrita tem de ser faseado, se não, não conseguimos limpar os vários problemas que ele tem”.

Voltando, concretamente, a este “Burro carga d’Água”. Retrata então, de forma poética, a dura realidade dos que vêem tolhido o futuro. E fala ainda no sentimento tão cabo-verdiano de querer partir, mas desejando já voltar.

A personagem feminina, a única com estudos, é quem parte nesta estória que fala de três crianças e um burro (carga-d’água). Em busca de um mundo melhor. A partida à procura, que sendo tão cabo-verdiana é também tão universal.

“Todos os livros do projecto têm esta componente. A realidade cabo-verdiana tenta ser o elemento de ligação aos problemas da humanidade e, a acompanhar estes problemas, há sempre uma tentativa, em todos os livros, do sonho, de construir um mundo melhor do que aquele que existe, uma coisa mais bonita”.

Assim, a realidade e cultura cabo-verdiana são pontos de partida, mas que espelham questões universais.

“No primeiro livro [“As tartarugas também choram”] fala-se das diferenças de classe, da desigualdade social, dos problemas ambientais”, partido de Cabo Verde, mas representando esses problemas comuns da humanidade.

Este, fala das crianças sem meninez e de futuro isolado, constrangido.

“O 3º livro vai ser sobre as crianças de rua [centrando-se no Mindelo], e o 4º sobre a violência urbana da cidade da Praia”. O quinto será sobre uma erupção na ilha do Fogo, um ‘fim do mundo’.

Importa que se vão mostrando as estórias que não estão bem no país, os problemas, deixando sempre a tal mensagem de esperança de que é possível fazer melhor.

“Não queremos tomar o lugar de fala de ninguém”, salvaguarda porém o autor. “Estas não são estórias de Cabo Verde, são as minhas histórias, das minhas vivências em Cabo Verde, para a educação dos meus filhos que nasceram e vivem em Cabo Verde”. Mostrar-lhe o país, através do “Estórias do meu país inventado”, assente na realidade do arquipélago.

Três Frases

“Há três partes, para mim, que são muito importantes neste livro. Uma, esta primeira fase em que se percebe que o presente de quem nasce em certas condições ‘é um presente sem futuro’ porque não muda. A outra parte de que eu gosto é a ingenuidade e a perspectiva do sonho, do perceber que ‘o horizonte não é o fim do mundo’. E depois, para mim, a parte final é especial porque - não sei se todas as pessoas têm esta leitura - além da carga filosófica, trabalhamos dois conceitos que chocam: a emigração e, logo a seguir, o burro que regressa pela saudade. Acho que é o sentimento do povo cabo-verdiano, a necessidade de emigrar, mas, ao mesmo tempo, com vontade de voltar assim que possível à terra, porque a identidade é maior do que esse sonho de viver longe. E o livro tem isto, ela [a personagem feminina] emigra e na frase a seguir estamos a lidar com o sentimento da saudade de voltar”, João Fonseca.

Mudar o paradigma do livro infantil

Este segundo livro do “Estórias do meu país inventado” vem trazer uma nova dimensão ao projecto, tanto a nível literário como da ilustração, revela o autor.

Como refere, trata-se de um texto mais complexo e profundo do que o “As tartarugas também Choram”, na senda do contributo que se pretende dar à literatura infanto-juvenil em Cabo Verde.

“Continua-se a pensar que essa literatura são histórias para miúdos, carregadas de moral e despidas de valor literário”, critica João Fonseca, defendendo uma mudança de paradigma.

“É preciso renovar completamente este conceito” trazendo não só esse valor literário como colocando o livro ilustrado, em termos visuais e plásticos ao nível que encontra em outras paragens, onde é “montra de afirmação dos principais artistas plásticos dos países”.

Mas com uma história tão poética e conceptualmente apurada, filosófica até, será este um livro infanto-juvenil ou um livro poético ilustrado, questiona-se.

“Considero este livro, um livro infanto-juvenil. A leitura infanto-juvenil divide-se em duas fases: uma para as crianças que ainda não sabem ler, e que, no entanto, já são leitores, através dos pais, ou outras pessoas” e as que já leem sozinhas. “E acho que o livro tem essa capacidade, até pelas ilustrações, pelas experiências que já fiz”, de uma transversalidade em que a leitura vai mudando consoante a idade.

Apesar de ser, então, no seu entender, infanto-juvenil, este é também um livro para adultos, que certamente terão também a sua leitura, “até pela carga poética” e mesmo filosófica.

Assim, este é um livro para crianças, que é muito mais do que isso. Mas é precisamente essa transversalidade que se pretende ”inaugurar”.

“É fazer perceber que a literatura infanto-juvenil também é literatura e que não apenas histórias nem “coisinhas” para crianças”, considera o autor.

E há em “Cabo Verde ainda um grande espaço para crescer, nesse sentido, principalmente a nível da ilustração”, avalia.

Ao mesmo tempo o projecto, vai promovendo a leitura e a reflexão sobre os problemas que aborda, contando já com várias sessões de contação da estória nas escolas (cerca de 25 sessões, em 2018, abrangendo cerca de 2500 crianças), e de pintura de murais (no âmbito do projecto Xalabas, em Achada Grande Frente).

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Pintando as palavras

“A ilustração é um dos pontos em que nós queremos marcar a diferença”, destaca João Fonseca.

Para o autor é algo incompreensível que num país com tantos artistas plásticos, a tendência na literatura infantil continue a ser a ilustração digital, “muitas das vezes com um padrão europeu ou do super-herói. Temos tantas ‘ferramentas’ do quotidiano para trabalhar e trabalhamos modelos que pertencem mais à cultura ocidental e europeia do que à cultura cabo-verdiana”, lamenta.

As ilustrações dos livros do projecto “Estórias do meu país inventado” são feitas por artistas da comunidade dos Rabelados, cujo traço característico, embora sub-conhecido em Cabo Verde, é já um marco da cultura cabo-verdiana.

Sabino Gomes Horta foi o responsável por pintar o primeiro livro, “As tartarugas também choram”.

“Burro carga d’água” foi pintado por João Baptista, “Fico”, outro artista da comunidade, e que é, de acordo com o autor, o “artista com uma identidade mais marcada na tradição oral”.

“É completamente desligado das coisas materiais, dedica-se na sua maioria do tempo à criação de gado, ao contrário do Sabino que se tenta focar o máximo do tempo e sempre que possível exclusivamente à pintura”, compara.

Curiosamente, há muito da realidade dos Rabelados na realidade que serve de base a “Burro Carga-d’água”.

“É o mesmo sentimento dos artistas da aldeia. São pessoas que vivem num espaço isolado, numa cultura própria”. Cultura essa que entratanto se vai conectando, lentamente, mas cada vez mais com o exterior.

Apesar das naturais diferenças entre artistas, a linguagem plástica comum aos Rabelados, permite uma continuidade e ligação entre os livros. “Pela imagem, quem vê, percebe que é uma colecção, não há uma quebra”.

O mesmo suporte que já havia sido usado no primeiro livro – a tela – manteve-se neste segundo livro uma vez que a ideia é no futuro realizar exposições com as pinturas originais.

Bolsa de criação literária

O ano de 2019 terminou com uma boa nova para o Projecto “Estórias do Meu País Inventado”.

Além do lançamento do segundo livro, o autor foi um dos 12 contemplados (entre 169 candidatos de diferentes géneros literários) com uma bolsa anual de criação literária, promovida pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal.

Assim, em 2020 o autor estará em regime de bolseiro, o que lhe vai permitir dedicar-se exclusivamente à escrita.

A candidatura à Bolsa foi apresentada para a escrita do terceiro livro do projecto.

A Bolsa de criação literária foi reactivada em 2017, após um interregno de 15 anos, como forma de apoio à literatura e promoção da leitura. Trata-se de uma bolsa que já foi atribuída a vários grandes nomes da literatura portuguesa.

A avaliação das candidaturas assenta em quatro critérios: “qualidade literária e estética do projecto” (45%), os “trabalhos de natureza literária já realizados” (25%), “domínio da língua” ( 20%), e “adequação ao tempo da bolsa” (10%).

A primeira vez que João concorreu, ainda não tinha sido editado o primeiro livro, nem havia uma concepção teórica para o projecto. Ficou em 195 em 500 candidatos.

“Agora, já tinha uma mais valia que era o primeiro livro do projecto, para mostrar o trabalho feito e a maquete do segundo – que ainda não estava impresso, e não tenho dúvidas de que o 2º livro foi extremamente importante pa­ra conseguir esta bolsa”, considera.

Tendo em conta que o projecto é realizado em Cabo Verde, embora o regime para a escrita seja de exclusividade, João Fonseca continuará a escrever aqui no arquipélago.

“A prioridade em 2020 é escrever, porque desde que o 1º livro saiu nunca mais escrevi”.

Entre os membros do júri que atribuiu a bolsa estava Luísa Ducla Soares, conhecida autora de livros infantis e que “ficou maravilhada com os livros que estamos a fazer aqui”, congratula-se o autor, de origem portuguesa que há vários anos se mudou, com a esposa, para Cabo Verde. Aqui nasceram os filhos, para quem começou a escrever as “estórias”. Aqui estão a ser criados filhos e livros.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 944 de 01 de Janeiro de 2020. 

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Autoria:Sara Almeida,5 jan 2020 9:39

Editado pormaria Fortes  em  24 fev 2020 23:21

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