Arte de aprender e ensinar

PorAdriana Carvalho,23 abr 2021 10:58

​Cumpre-se, mais uma vez em abril, o ritual de celebrar o Dia do Professor Cabo-verdiano, evocando o seu patrono Baltasar Lopes da Silva.

Numa deambulação pelos lugares da sua formação e exercício profissional, tentei sistematizar o seu estilo de ensinar que se pautava, segundo as suas palavras, pelo lema de Dickens “o que deve ser feito merece ser bem feito”.1

I

OS LUGARES (1907-1940)

A ilha de S. Nicolau

No ano em que nasceu –1907 – a ilha de S. Nicolau recuperava “da má memória do recente drama da fome que se diluía na esperança de boas colheitas e vivia das remessas familiares dos emigrantes nos Estados Unidos e especialmente com as trocas comerciais com a ilha vizinha de S. Vicente.”

Baltasar residia com a família em Caleijão, a escassos trinta minutos a pé da vila da Ribeira Brava, sede de dois poderes: “o autárquico e o eclesiástico que, na época, quase se confundiam pelo importante papel que a Igreja (poder intemporal) e o Seminário-Liceu (poder do saber) detinham na ilha”.

Estudou as primeiras letras na escola primária na vila. Com nove anos (1916) foi matriculado no Seminário-Liceu como aluno externo, numa época particularmente difícil para a instituição religiosa, que seria legalmente extinta em junho de 1917. Apesar da turbulência e indecisões no ensino em S. Nicolau, Baltasar continuou a estudar nas instalações do Seminário2 os três primeiros anos do ensino liceal (1917-1920).

O Liceu em Mindelo

Para prosseguir os estudos, “fez a sua primeira grande viagem de mar para S. Vicente”. No ano letivo 1920/1921, com treze anos, frequenta o quarto e quinto ano no recém-criado Liceu Infante D. Henrique em Mindelo.

Apesar de fascinado com a mudança para a cidade-porto, apercebe-se do desalento que a atravessava, confrontada com uma crise geral tríplice – “crise de trabalho, crise alimentar e um surto de peste”. Em outubro de 1921 regressa à sua ilha natal onde não chegara a epidemia. Estuda sozinho e, em maio de 1922, apresenta-se a exame do 5.º ano do curso geral dos liceus, que concluiu com a classificação de 18 valores.

Na época, o ensino liceal em Cabo Verde era incompleto, ministrando-se apenas o curso geral, o que obrigava os estudantes, que pretendiam concluir o ensino secundário e aspiravam ao superior, a prosseguirem os estudos em Portugal. Assim deveria acontecer com Baltasar. Com essa finalidade, o reitor do Liceu solicitou uma bolsa de estudos para o aluno Baltasar Lopes da Silva, tendo em atenção as qualidades extraordinárias de inteligência e aplicação por ele reveladas. A recusa da bolsa de estudos “por não haver disposição legal aplicável” (documento infra) não obstou o projeto de continuar os estudos na então metrópole.

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Lisboa, Lisboa lírica…

“Baltasar, ainda imberbe, desembarca em Lisboa com um violino que o pai Pedro lhe oferecera, em finais de 22”. A chegada tardia impede-o de se matricular na secção de Ciências, que lhe daria acesso a Medicina, “como era seu projecto e muito alimentado pelo pai”. Com quinze anos matricula-se no Liceu Camões no 6.º ano, secção de Letras e estuda o 7.º ano em simultâneo, terminando o curso complementar do liceu em outubro de 1923.

Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e, por “não estar seguro de querer ser advogado”, frequentou também a Faculdade de Letras da mesma universidade. Obteve o grau de licenciatura em dois cursos superiores, o de Direito (1928) e o de Filologia Românica (1930).

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Nos oito anos que residiu em Lisboa (1922-1930) desenvolveu uma relação afetiva com a cidade. Confidenciou ao jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco3 “Lembro-me até de um dia, passando pela rua da Bela Vista, e impressionado por aquela paz, surpreendi-me com este monólogo interior: Lisboa, Lisboa, lírica… Isto define bem a minha relação à cidade!”.

Em 1930, decidido a regressar a casa, apercebe-se da “ascensão do longo consulado de Salazar no aparelho do Estado” e do crescendo da submissão das colónias com a promulgação do “Acto Colonial”, em 8 de julho de 1930 pelo governo da ditadura militar em Portugal.

II

O PROFESSOR

A arte de aprender

Baltasar chegou a Mindelo em outubro de 1930. No início de dezembro foi nomeado professor interino do Liceu Infante D. Henrique. Lecionava as disciplinas de Português e Francês num liceu dotado de um corpo docente provisório, por imposição da lei (portaria de 27 de julho de 1931), que limitava a 10 o número de professores do quadro e pagava aos professores interinos apenas durante 9 meses. Essa a situação do Professor Baltasar.

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Além do quotidiano na sala de aula, organizava com os estudantes concertos e conferências, a edição de jornais e torneios desportivos. Tinha ainda tempo para exercer gratuitamente a advocacia, escrever o romance Chiquinho e estudar os dialetos crioulos. Foi um dos fundadores da Claridade. Os três primeiros números da revista de arte e letras contêm obras inéditas do romancista, investigador e poeta: excertos do romance Chiquinho (n.º 1, março de 1936, n.º 3, março de 1937), “Notas para a linguagem das ilhas” (n.º 2, agosto de 1936) e poemas assinados com o pseudónimo literário Osvaldo Alcântara (três números).

Em outubro de 1937, ao ser surpreendido com a notícia da extinção do seu Liceu, assumiu que, no caso de se consumar o encerramento, fundaria com um grupo de professores, entre os quais Armando Bonucci Veiga, Vicente Rendall Leite e Marino Barbosa Vicente Júnior, uma escola destinada a habilitar os alunos para o curso dos Liceus (Notícias de Cabo Verde de 1 de novembro de 1937). Apesar do recuo das autoridades coloniais face à indignação coletiva por tão funesta decisão, e da reabertura do Liceu ainda em novembro, o futuro da instituição mantinha-se incerto, como incerto era o seu futuro como professor eventual.

Decide retornar à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para frequentar o Curso de Ciências Pedagógicas e preparar o doutoramento em Letras. No final do verão de 1938 desembarcou em Lisboa, levando na bagagem “o manuscrito de Chiquinho e o romance Mar Morto de Jorge Amado, interdito de circular em Portugal e colónias”.

Em 1939 concluiu o estágio profissional no ensino secundário e foi aprovado no “exame de estado”. Lecionou durante um ano no Liceu de Leiria, tendo depois sido colocado no seu liceu, com a nova identidade de Liceu Gil Eanes. Desistiu de defender a tese de doutoramento e de uma possível carreira universitária.

Em 1940, em Mindelo, retoma a docência com uma renovada autoridade científica e pedagógica. Como professor e reitor (de 1949 a 1960 e de 1965 a 1969) contribuiu para a consolidação do Liceu Gil Eanes como centro de cultura geral, humanista e crioula. Proferiu a sua última lição em 1973.

A arte de ensinar

Conclui-se esta deambulação pelo tempo e lugares onde Baltasar aprendeu e ensinou, com um exercício de decomposição do seu magistério em vários atributos e dimensões, elaborado a partir da análise textual das “Notas de viagem” de Bento Levy que assistiu a “uma aula com Baltasar” 4, de testemunhos dos seus alunos e da sua reflexão no discurso de jubilação5.

Atributos e dimensões de um professor notável

Atributos Referências
vocação Auscultei-me, auscultei-me até que um dia cheguei à conclusão: eu gosto é de ensinar. Ser professor. (Baltasar Lopes em conversa com Fernando Assis Pacheco, 1986).
missão Estou certo de ter cumprido aquilo que se chama espírito de missão, missão porque só nesta perspetiva compreendo e acredito a função de professor. (Baltasar Lopes, última lição, 1973)
motivação Tudo decorre rapidamente, com vida, até com alegria saudável, sem faltar a gargalhada sonora como quando a propósito de «vales empapados de água» um se lembra da cachupa… (Bento Levy, 1955)
estilo peripatético

(aceção aristotélica)

Para mim Baltasar foi o professor que mais me marcou em toda a minha vida escolar, da instrução primária até ao curso superior. Porque ele era um professor que dava aulas sempre de pé, passeando para um lado e para o outro. Fazia aulas interactivas. Enquanto explicava perguntava a opinião deste e daquele outro. (Antigo aluno Henrique Teixeira de Sousa)
ensino convivente Eu sempre fui e sou um estudante e como tal membro da mesma equipa dos mais jovens que estavam confiados ao meu magistério. (Baltasar Lopes, última lição, 1973)
maiêutica O Mestre toma a resposta exata e obriga à investigação da sua causa e razão porque as erradas devem ser postas de lado. E salta a resposta raciocinada, exacta, sem precipitações. O professor não deixa responder à toa. (…) Nada se decora. O aluno fixa por dedução, por comparação. (Bento Levy, 1955)
self-government escolar Ele a dar a lição e ao mesmo tempo a querer ouvir a opinião deste e daquele e a saber se este ou aquele outro entendeu ou não entendeu, qual a comparação com outro assunto já dado anteriormente. Eram aulas muito vivas. (Henrique Teixeira de Sousa)
rigor Em todas as aulas dizia o Dr. Baltasar: É preciso cultivar o sério. Quando estás num exame não procures copiar, vem com os teus próprios meios, estuda porque és capaz, pegas no livro, estudas e dás aquilo que realmente podes dar. (Antigo aluno José Figueira)

Termino com as palavras do seu principal biógrafo, o Doutor Leão Lopes, na obra que tem sido a nossa fonte principal: “Para Baltasar a escola é a garantia do cumprimento do dever de amanhã. E a ela dedicou o melhor da sua vida. Ensinava na rua, tirava dúvidas aos que se inquietavam com qualquer problema do saber, em qualquer momento, na sala de aula, numa esquina qualquer, enquanto se assistia a um desafio de cricket”6

_____________________________________

1 Para a elaboração do presente texto a principal fonte foi o livro de LeãoLopes (2011) intitulado Baltasar Lopes, um homem arquipelágico na linha de todas as batalhas. Ed. Ponto & Vírgula.

Citações: “Introdução”, p. 379. I – “A ilha de S. Nicolau”, pp. 88, 90; quadro cronológico – QC pp. iv-v. “O Liceu em Mindelo”, pp. 157, 158; QC p. v. “Lisboa, Lisboa lírica”, pp. 165-168, 183; QC pp. vii-x. II – “A arte de aprender”, pp. 207, 406; QC, pp. x-xi. “A arte de ensinar”, pp. 374-380.

2 Após a extinção do Seminário-Liceu, o edifício continuou a abrigar o ensino. Em novembro de 1917 foi aí instalada a Escola Primária Superior, com os mesmos professores do Seminário. Baltasar continuou aqui o seu percurso escolar, que lhe deu equivalência ao 3.º ano do novo programa do Liceu instalado em Mindelo.

3 In “Mago Baltasar”. Retratos Falados (1988), ASA, pp. 273-294.

4 Bento Levy, Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação, 1955, pp. 11, 12.

5 Testemunhos de antigos alunos e última aula, in Lopes, 2011, pp. 375, 378, 380.

6 Idem, p. 375.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1012 de 21 de Abril de 2021. 

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Autoria:Adriana Carvalho,23 abr 2021 10:58

Editado porSara Almeida  em  14 mai 2021 13:19

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