Elcia Grancourt: “Quando trabalhamos uma estratégia para o turismo o transporte tem de estar envolvido”

PorAndre Amaral,7 abr 2019 9:22

Elcia Grancourt
Elcia Grancourt

​Demonstrar que turismo e transporte aéreo têm que se desenvolver em conjunto e que a aposta noutro tipo de mercado turístico, para além do all-inclusive, deve ser considerada benéfica para o país porque os turistas “procuram por experiências autênticas, gostam de ver como os cabo-verdianos comem, como apreciam a sua música, por isso eles também vão querer estar lá com eles”.

Elcia Grancourt, Directora do Departamento Regional para África da Organização Mundial do Turismo esteve à conversa com o Expresso das Ilhas durante a Conferência Ministerial sobre Transporte Aéreo e Turismo que decorreu, na semana passada, no Sal.

Que conclusões se podem tirar desta conferência do Sal?

Foi um grande prazer ter este evento num país que é extremamente dependente do turismo. O foco foi o turismo e a conectividade aérea e pela primeira vez fomos capazes de reunir ministros do turismo e ministros de transportes e aviação do continente africano. Começamos com uma reunião de peritos onde estes discutiram e deliberaram em sectores chave relacionados com o desenvolvimento destes dois sectores. Os tópicos que foram discutidos cobrem áreas como as ligações aéreas, qual a forma mais fácil de ligar os países africanos entre si e também com o resto do mundo. Falamos de questões como os vistos, porque percebemos que não pode haver turismo se não houver ligações. Abordamos a questão dos financiamentos e das políticas que sejam capazes de desenvolver tanto o turismo como o transporte aéreo e a conclusão que se tira do primeiro dia de trabalhos é que os participantes perceberam que, no que toca a estratégias eles, por vezes, trabalham de forma isolada, sem comunicação. E esta conferência serviu, por isso, para abrir mentes de pessoas de sectores diferenciados e fazê-las perceber que quando se trabalha numa estratégia para o turismo têm sempre de ter em mente que os outros sectores como os transportes devem estar envolvidos. Isto foi uma ideia chave que todos perceberam e comentaram. Ao mesmo tempo foram feitas reuniões entre os diversos países, foram assinados acordos. Os países, sendo sempre diferentes, podem sempre passar de uns para os outros ideias e experiências para melhorar o que estão a fazer. Cabo Verde é um país pequeno, um arquipélago, e esteve cá o ministro das Seychelles, país com quem Cabo Verde tem muitas semelhanças. Por isso, acredito que esta foi a oportunidade para os países se sentarem e discutirem como podem usar as ideias uns dos outros. O debate ministerial foi a oportunidade para os líderes destes dois sectores discutirem a importância de terem a vontade política, acima de tudo, para avançar. Quanto a Cabo Verde, ficamos muito satisfeitos ao ver que o Presidente da República se quis envolver no evento, assim como o Primeiro-ministro. Depois das discussões foi aprovada a Declaração do Sal sobre o desenvolvimento da aviação e do turismo em África. Acredito que o plano de acção vai envolver todas as entidades que aqui estiveram como a União Africana ou o Banco Mundial. Tivemos aqui stakeholders de relevo para podermos olhar para o futuro destes sectores. O que queremos é que haja mais acessibilidade e maior facilidade para permitir a quem nos quer visitar poder chegar ao seu destino sem quaisquer constrangimentos.

O mais importante agora é pôr o plano adoptado em prática.

Mas por que é tão caro viajar dentro do continente africano?

Bem. A discussão, nos primeiros dois dias, foi sobre os custos elevados e as rotas existentes. Muitas vezes o destino é em África mas é preciso sair do continente para chegar ao destino. Vimos aquilo por que tiveram de passar muitos dos representantes de vários países para chegarem aqui.

Quanto aos custos, há vários factores. Temos as taxas, os combustíveis, há muitos factores envolvidos. E esta reunião serviu para vermos quais as melhores formas de sermos capazes de tornar as viagens em África mais simples e mais fáceis e esperamos – esta é a nossa intenção porque já há decisões, como a Declaração de Yamoussoukro, que são instrumentos que nos vão ajudar a abrir os céus – conseguir, finalmente, reduzir os custos das viagens dentro de África. Mas isso não depende apenas de um dos envolvidos. Requer energia, abordagens concertadas. Mas o facto de, pela primeira vez, termos conseguido juntar os sectores dos transportes aéreos e do turismo é muito importante.

Como pode Cabo Verde tornar-se num destino atraente para os turistas africanos?

Penso que já é. Mas acredito que cada vez mais os africanos se apercebem dos valores que temos. As pessoas estão cada vez mais a dar conta dos nossos produtos e estamos a fazer férias em África. Não temos obrigatoriamente de viajar para fora do nosso continente para ter boas experiências. Cada vez se nota mais esse crescimento e penso que Cabo Verde, pelo plano estratégico que o ministro José Gonçalves partilhou connosco, está a tentar diversificar os mercados e também o produto que é disponibilizado hoje em dia para esses mesmos mercados. O all-inclusive estabeleceu-se e consolidou-se, mas hoje em dia é preciso olhar para os diferentes nichos que há no mundo, porque Cabo Verde tem muito para oferecer. É preciso tempo, porque quando se implementam políticas e estratégias elas têm de ter o suporte adequado e outros recursos para que se produzam resultados. Vai levar tempo mas desde que a intenção e a vontade estejam lá, os passos necessários serão dados para se conseguir esse objectivo.

É o turismo all-inclusive a melhor solução para países como Cabo Verde, ou é apenas uma fase de desenvolvimento?

Infelizmente não sou a pessoa mais indicada para decidir sobre isso, mas o que posso comentar é que há diferentes nichos no mundo. E Cabo Verde, como mencionei, estabeleceu e consolidou o all-inclusive. Mas hoje em dia é importante olhar de outra forma para esses nichos. Porquê? Porque no fim o objectivo maior é que o país beneficie, mas também o seu povo, porque o turismo cria empregos, é um dos sectores de crescimento mais rápido no mundo de hoje. Contribui muito para o PIB dos países e um décimo dos empregos a nível mundial é no sector turístico. Não se podem pôr os ovos todos num só cesto, porque o mercado é muito dinâmico. As pessoas, hoje têm formas diferentes de decidir como chegam a um destino e procuram experiências autênticas, gostam de ver como os cabo-verdianos comem, como apreciam a sua música, por isso eles também vão querer estar lá com eles. Por isso é importante considerar outros modelos que existem lá fora. Não tem de se aplicar sempre o mesmo modelo, porque nem sempre isso funciona. Os líderes deste país sabem da importância que este sector tem. Vimos que a vontade existe e o trabalho que tem sido feito para maximizar o potencial que o turismo pode trazer a Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 905 de 03 de Abril de 2019.

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Autoria:Andre Amaral,7 abr 2019 9:22

Editado pormaria Fortes  em  12 dez 2019 23:21

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