"Hoje o turista só viaja se confiar no sistema de saúde do destino" - Ministro do Turismo

PorJorge Montezinho,28 jun 2020 9:02

Carlos Santos
Carlos Santos(Ministério do Turismo e Transportes)

No Sal, ilha onde está neste momento, o ministro que tutela a pasta do turismo está a supervisionar o programa de segurança sanitária que o governo já tem no terreno. Assumindo que o aumento dos infectados no arquipélago terá efeito junto dos turistas e dos operadores, Carlos Santos apela à responsabilidade colectiva, principal maneira de fazer regressar os visitantes estrangeiros.

Quando será possível reabrir o turismo?

O ministério do turismo e transportes tem estado a fazer um trabalho no sentido de preparar o destino turístico Cabo Verde no que diz respeito à adopção dos principais protocolos, procedimentos e regras em relação à segurança sanitária. Aliás, contratou uma consultoria internacional para preparar o país com estes protocolos, preparar os restaurantes, hotéis, bares, aeroportos, todos os empreendimentos que participam no circuito do turista. Estamos a falar de regras sanitárias para tranquilizar e garantir que o turista que venha tenha segurança, isso tudo com o objectivo que cada um desses empreendimentos tenha um selo de garantia de segurança sanitária. É um trabalho que está em curso, as formações estão a ser desenvolvidas esta semana nas ilhas do Sal, Boa Vista e também Santiago para ter esses empreendimentos preparados. É um trabalho que está a ser feito em coordenação com os hoteleiros, com os grandes grupos que actuam no Sal, na Boa Vista e nas outras ilhas, e, em paralelo, temos um outro conjunto de medidas, em conjunto com o ministério da saúde, para procurar criar nas ilhas do Sal e da Boa Vista dois centros de tratamento Covid, que terão equipamentos, nomeadamente ventiladores, que serão utilizados como centros de primeiro-socorros para reagir rapidamente no caso de haver qualquer incidente. Centros que atenderão tanto turistas como população local. Obviamente, este processo é o trabalho de casa que devemos fazer, à semelhança, do que fazem outros países, como Portugal e Espanha. Por outro lado, temos de olhar para o resto das variáveis. Nas últimas duas semanas, vimos o recrudescimento dos casos em alguns países que entraram em processo de desconfinamento e também a nível nacional tivemos aumento em algumas ilhas que não era de esperar. Perante isto, e perante o parecer técnico do ministério da saúde, o governo decidiu que as ligações internacionais só serão retomadas no início de Agosto. Esta pandemia traz um conjunto de incertezas que temos de estar sempre a avaliar e estas avaliações diárias dão-nos inputs para as decisões. Neste momento, há uma decisão clara que os voos nacionais irão recomeçar a 30 de Junho e os internacionais a partir do início de Agosto.

Reabertura em Agosto, época baixa em Cabo Verde, pode influenciar a procura?

Nós quando falamos em reabertura do turismo não quer dizer que logo no dia seguinte tenhamos uma avalanche de turistas a visitar Cabo Verde. O que vamos assistir, como tem acontecido em outros destinos, é ao aumento gradual de turistas, tendo em conta que o próprio turista tem, actualmente, uma certa insegurança em viajar. Os efeitos da Covid-19 levam a que hoje um turista tenha sempre como variável para a sua viagem a questão sanitária. Por isso, o que vamos fazer é a abertura oficial dos voos internacionais a partir de Agosto, mas a partir daí os operadores começarão a fazer a sua operação de forma gradual.

No fundo, Cabo Verde está a preparar-se para oferecer as garantias que vão fazer com que o país seja uma alternativa enquanto destino turístico.

Sem dúvida. Aliás, não poderemos almejar que os grandes grupos que actuam em Cabo Verde, e outros que começam a demonstrar vontade para entrar, coloquem o país no seu grupo de escolhas, de destinos, se não tivermos garantida a questão da segurança sanitária. Esta questão vai ser uma variável determinante para a escolha dos operadores e dos turistas. O Primeiro-Ministro tem falado nisso, nos próximos tempos, a questão da saúde, a questão da segurança total, é um conceito que vamos ter de abraçar para que o país dê essas garantias e para que possamos traçar um cenário de tranquilidade para que aquele que queira viajar para Cabo Verde venha sem qualquer tipo de preocupação. Mas também para que nós que estamos aqui, os residentes, estejamos tranquilos quando formos confrontados com a chegada de turistas. Ou seja, estas medidas que estamos a tomar, os protocolos e os centros de tratamento, são para garantir a tranquilidade de quem nos visita, mas também a segurança de quem está cá. Penso que estamos no bom caminho, porque estamos a adoptar as mesmas práticas que outros países também estão a adoptar no que respeita à segurança sanitária. Temos também um projecto de preparação de consultores de segurança sanitária para ter este processo massificado a nível nacional, para que todos os hotéis, todos os restaurantes e os bares passem a ter esse conjunto de procedimentos, que já estão numa resolução recentemente publicada e emitida pelo governo, em que é definido o conjunto de regras que esses hotéis, restaurantes, bares, tudo o que seja venda, tem de observar para diminuir a cadeia de contágio.

A TUI anunciou Cabo Verde como um dos destinos que querem começar a operar. Pelas informações que entretanto obtive, foi-me dito que a TUI já tinha falado com o governo e que tinha posto pedido garantias na questão da saúde. A criação desses centros de tratamento já é uma resposta?

Todo o trabalho que estamos a fazer é em coordenação com os grandes, médios e pequenos grupos, não só com a TUI. Nas últimas duas semanas tenho feito contactos com operadores de Espanha, Portugal, Alemanha e Grã-Bretanha. Com a TUI, logicamente, pelo peso que tem temos tido um diálogo semanal, assim como com o grupo RIU e o grupo Oásis, no sentido de irmos construindo uma solução de segurança sanitária não só coordenada, mas para que eles vão apreendendo o que estamos a fazer. A nossa abertura em Agosto vai ao encontro de não só abrir com confiança, com a certeza que todos os procedimentos serão adoptados, mas também porque a própria procura não está ainda a responder. O turismo, como disse, vai começar, mas devagar porque o próprio mercado está assim. As pessoas estão ainda indecisas e não só, estão um pouco inseguras relativamente a toda a situação criada pela Covid. Obviamente, temos de fazer um trabalho a nível nacional, e é esse o apelo que tenho deixado nas minhas intervenções, de preparação dos centros, de formação dos colaboradores dos hotéis e dos restaurantes em termos de procedimentos de segurança, mas também temos de mandar uma mensagem para a nossa população, para ter uma atitude responsável para fazer baixar o número de casos positivos. Porque se não conseguirmos baixar esses números, como é óbvio, a probabilidade de determinados operadores decidirem em colocar Cabo Verde no seu leque de escolhas é cada vez menor. É um contributo que cada cabo-verdiano tem de dar para demonstrar aos operadores que há uma responsabilidade e que a cadeia de contágio está a ser minimizada e combatida em Cabo Verde, tanto na prevenção como no tratamento.

Falámos há cerca de três meses, quando a pandemia estava a começar e as incertezas sobre o seu impacto eram ainda muitas. Hoje, já é possível fazer um balanço?

É muito difícil. Há estimativas feitas pelo ministério das finanças, que dizem que, provavelmente, iremos ter uma quebra de quase 60 por cento do número de visitantes, igual número em termos de receitas do turismo, em relação aos postos de trabalho, fala-se de uma quebra de cerca de 17 mil postos de trabalho, mas são dados que estão em constante actualização. O orçamento rectificativo trará dados mais actualizados, mas de uma maneira geral as perdas serão colossais para o país, para as famílias, para as empresas e para o Estado.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 969 de 24 de Junho de 2020.

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Autoria:Jorge Montezinho,28 jun 2020 9:02

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  22 out 2020 23:21

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