A execução do Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2025 teve um quadro orçamental favorável. As contas públicas registaram um excedente de 1,1% do PIB (tinha sido -1,1%do PIB em 2024), devido essencialmente, ao aumento das receitas públicas. Segundo o relatório do BCV, o superavit global – receitas maiores que as despesas – e a redução das despesas com os juros da dívida refletiram-se no aumento do saldo global primário, que se fixou em 3,2% do PIB (1,3% do PIB no ano anterior). O saldo global primário foi, positivamente, influenciado pelo ciclo económico e pelas medidas temporárias adotadas pelo governo, em 0,1 pontos percentuais do PIB potencial, respetivamente. O saldo primário estrutural, ou seja, o saldo global primário excluindo o impacto do ciclo económico e das medidas temporárias situou-se em 3% do PIB potencial.
As contas externas também evoluíram favoravelmente. A balança corrente registou um superavit de 11.035,7 milhões de escudos (3,7% do PIB) devido ao aumento das receitas provenientes das exportações de serviços de turismo, das remessas dos emigrantes, assim como das outras transferências privadas. A balança financeira teve um desempenho positivo, com as entradas líquidas de financiamento para a economia a aumentarem significativamente, fixando-se em 27.998,6 milhões de escudos, devido, em grande parte, à redução dos activos externos líquidos dos bancos comerciais e ao aumento do investimento directo estrangeiro (IDE). O país registou um ganho em activos de reserva de 333,1 milhões de euros, o que se traduz no aumento do stock das reservas externas líquidas, para 1.064,5 milhões de euros, garantindo 8,8 meses de importações (6,5 meses de importações em 2024).
A dívida pública perdeu peso em 2025, mas encontra-se ainda em níveis elevados, “embora sustentável”, diz o banco central, reflectindo o crescimento económico e um saldo primário positivo. A dívida pública, incluindo os passivos contingentes, ou seja, a dívida das empresas públicas e das autarquias locais, situou-se nos 115,7% do PIB (127,8% do PIB em 2024).
Economia com ritmo mais lento
De acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), citadas pelo BCV, o Produto Interno Bruto (PIB) em volume abrandou, crescendo 6,3% em 2025, (7% em 2024). As razões para esta evolução? O abrandamento do rendimento real das famílias associado ao menor ritmo de crescimento das prestações sociais e das outras transferências correntes líquidas face ao ano anterior e ao aumento da inflação, bem como a moderação da procura externa turística no país. Do lado da oferta, o menor desempenho da actividade económica nacional deveu-se à contracção da actividade do sector de “Comércio e reparação” e às desacelerações registadas na actividade dos sectores de “Alojamento e restauração”, “Agricultura, pecuária e silvicultura” e “Indústria transformadora”. Do lado da procura, o menor contributo das exportações líquidas foi determinante, tendo a procura interna mantido o seu dinamismo.
As receitas públicas aumentaram 28,7% (89.457,5 milhões de escudos em finais de 2025), representando 29,9% do PIB, devido ao aumento das receitas fiscais e das outras receitas. As receitas fiscais – que detêm o maior peso no total das receitas (cerca de 74%), cresceram 17%, situando-se nos 66.136 milhões de escudos (22,1% do PIB), o que indica o crescimento moderado da actividade económica nacional, a introdução da taxa específica sobre o álcool, o agravamento da taxa sobre o tabaco, a cobrança de dívidas negociadas em prestações e o aumento do número de contribuintes. Esta evolução resultou dos aumentos registados na arrecadação dos principais impostos, nomeadamente, dos impostos sobre o rendimento de pessoas singulares e coletivas (22%), sobre o valor acrescentado (16,3%), sobre o consumo, incluindo a taxa de tabaco e a taxa específica sobre o álcool (27,6%) e sobre as transações internacionais (9,9%).
Por outro lado, as despesas públicas cresceram 19%, para os 86.277,3 milhões de escudos (28,8% do PIB) em finais de 2025, traduzindo a evolução das despesas correntes e das despesas com activos não financeiros. As despesas correntes, com maior peso no total das despesas (84,8%), fixaram-se nos 73.175 milhões de escudos, em finais de 2025, registando um crescimento de 11,1%. Este desempenho resultou do aumento dos gastos com: pessoal (12,2%), relacionado com novas contratações; aquisição de bens e serviços (16,5%), incluindo assistência técnica de residentes e não residentes no âmbito de diversos projectos; transferências correntes (30,6%), sobretudo, para os municípios, para fazer face à situação de calamidade em São Vicente, com medidas de emergência e de recuperação de infra-estruturas, bem como para projectos associados a medidas emergenciais no sector da água e saneamento nas ilhas de Santiago, São Vicente e Sal; e subsídios (5,6%), no âmbito do pagamento da indemnização compensatória através do Fundo Autónomo de Desenvolvimento de Transportes Marítimos, como resultado da taxa de ocupação de passageiros nas viagens inter-ilhas.
Houve redução dos pagamentos dos juros da dívida (5,0%) e o abrandamento dos gastos com os benefícios sociais e as outras despesas correntes, que cresceram 2,5% e 8,9%, mas abaixo dos 10,8% e 38,4% do ano anterior.

A necessidade de financiamento do Estado levou a um menor recurso ao endividamento. O endividamento interno líquido (junto dos bancos e outros credores nacionais) foi negativo no montante de 1.515,1 milhões de escudos e o endividamento externo líquido (junto de credores externos) reduziu para os 956,6 milhões de escudos (1.200,3 milhões em 2024). De acordo com dados do Ministério das Finanças, o stock da dívida pública diminuiu 1,8%, situando-se em 302,5 mil milhões de escudos, representando 101,1% do PIB.
A carteira da dívida externa do Estado continuou com elevado grau de concessionalidade, contratada maioritariamente junto a credores externos multilaterais e bilaterais, representando 58,1% do PIB, e com prazos de vencimentos de médio e longo prazo. A dívida interna do Governo central, foi constituída maioritariamente junto dos bancos comerciais, representando 21,8% do PIB, com vencimentos a curto, médio e longo prazo.
O stock total da dívida do sector público administrativo (incluindo a dívida do governo central e os passivos contingentes) a 31 de Dezembro de 2025, registou uma redução de 7,3 mil milhões de escudos, fixando-se em 346,2 mil milhões de escudos, representando 115,7% do PIB (127,8% a 31 de Dezembro de 2024).
Actividade Turística em 2025
O número de dormidas de turistas internacionais no país abrandou, crescendo 8,4% em 2025 (9,7% em 2024), por causa da redução da procura turística da Bélgica e Holanda (em 17,3%) e à desaceleração registada na procura turística do Reino Unido e da França, que apesar de ter crescido 3,6% e 25,8%, ficou abaixo dos números de 2024 – de 13,1% e 37%.
O principal mercado emissor continuou a ser o Reino Unido, 29,3%, seguido de Portugal com 12,1%, Alemanha com 10,5% e França com 10,1%.
Com esta a evolução da procura turística, as receitas brutas também registaram um abrandamento, crescendo menos que no ano anterior, em 9%, fixando-se nos 71.937,1 milhões de escudos (representando 24% do PIB). Boa Vista e Sal continuaram a ser o destino preferido dos turistas estrangeiros e nacionais, com as maiores taxas de ocupação-cama do país, de respetivamente, 106% e 77%. As duas ilhas acolheram cerca de 85% do total de entradas de hóspedes estrangeiros nos hotéis cabo-verdianos.
Em resumo, a actividade turística nacional registou, em 2025, um crescimento mais brando, com a procura internacional, medida pela entrada de hóspedes não residentes nos estabelecimentos hoteleiros do país, evidenciou um abrandamento, crescendo 6,7% (16,1% em 2024), fixando-se nos 1.192.272 turistas internacionais, 75.322 mil turistas a mais que o ano anterior. Ainda assim, o desempenho do sector turístico nacional superou o rendimento mundial do sector.
De acordo com a World Tourism Organization (WTO), estima-se que a actividade turística global tenha desacelerado em 2025. A Europa, a maior região turística do mundo, registou 793 milhões de turistas internacionais em 2025, um aumento de 4% em relação a 2024. As chegadas à Ásia e ao Pacífico (331 milhões) cresceram 6%, mas ficaram 9% abaixo dos níveis de 2019. As Américas (218 milhões) registaram um crescimento de 1%, com resultados mistos entre as sub-regiões. O Médio Oriente registou um crescimento de 3% em 2025. África (81 milhões de turistas) registou um aumento de 8% nas chegadas em 2025, com resultados particularmente expressivos no Norte da África.
Segundo as previsões da WTO, espera-se que o turismo internacional cresça entre 3% e 4% este ano, assumindo que a Ásia e o Pacífico continuem a recuperar, que as condições económicas globais se mantenham favoráveis e que os conflitos geopolíticos não se intensifiquem. O turismo internacional em 2026 será impulsionado pela forte procura, pela melhoria da conectividade aérea e pelo crescimento das viagens internacionais de mercados emergentes.
No entanto, a incerteza resultante das actuais tensões comerciais e conflitos geopolíticos, factores económicos, altos custos de viagem e eventos climáticos extremos são os principais desafios que o turismo internacional poderá enfrentar em 2026.
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Implicações do conflito no Médio Oriente em Cabo Verde
Os dados são do Country Focus Report sobre o arquipélago, publicado pelo Banco Africano de Desenvolvimento. Segundo o relatório, Cabo Verde está altamente exposto ao conflito no Médio Oriente por ser importador de petróleo. A geração de energia é composta por uma matriz composta por 70% de combustíveis fósseis e 30% de energias renováveis, sendo que o preço do petróleo afecta diretamente o custo da energia no país.
Desde o início do conflito, 28 de Fevereiro de 2026, o preço do crude subiu 71,2%, passando de 60,24 dólares a 2 de Janeiro de 2026 para 103,14 dólares a 13 de Março de 2026. Antes do início do conflito, o preço do crude era de 76,16 dólares a 2 de março de 2026.
Cabo Verde importa 100% do seu combustível e 27,8% dos seus alimentos, sendo que apenas 11% do combustível total é importado do Médio Oriente, principalmente da Arábia Saudita (4%), Kuwait (3,2%) e Emirados Árabes Unidos (EAU) (3,8%), enquanto as importações de alimentos provêm principalmente da Europa. As importações de combustível tem origem principalmente de Itália, Togo, Países Baixos, Portugal e Arábia Saudita, enquanto as importações de alimentos provêm principalmente de Portugal, Espanha, Itália, França e Brasil.
O sector turístico está altamente exposto à crise dos combustíveis, enquanto as importações de alimentos enfrentam apenas uma exposição moderada. A dívida do país também poderá aumentar se houver necessidade de aumentar os empréstimos para aliviar a crise no Médio Oriente.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1288 de 05 de Agosto de 2026.
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