PIB de Cabo Verde cresceu 6,3% em 2025

PorJorge Montezinho, André Amaral,18 abr 2026 8:25

O Produto Interno Bruto (PIB) registou um crescimento de 7,1% em termos reais no quarto trimestre de 2025, enquanto a variação acumulada dos quatro trimestres do ano aponta para uma expansão anual de 6,3% em volume, segundo dados das Contas Nacionais Trimestrais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Na óptica da produção, o Valor Acrescentado Bruto (VAB), a preços de base, aumentou 7,0% em termos homólogos no quarto trimestre. Este desempenho foi impulsionado sobretudo pelas indústrias transformadoras, transportes e armazenagem, actividades financeiras e de seguros, administração pública e educação.

Por sectores, a agricultura registou uma quebra acentuada de 24,0%. Em contrapartida, as indústrias transformadoras cresceram 13,1%, ainda que abaixo dos 15,1% do trimestre anterior. A construção voltou a contrair, com uma descida de 7,2%. O comércio apresentou um crescimento moderado de 3,3%. Já os transportes e armazenagem avançaram 10,0% e o alojamento e restauração cresceu 3,5%, ambos em termos homólogos.

Os impostos líquidos de subsídios sobre os produtos aumentaram 7,4%, contribuindo com 1,2 pontos percentuais para a variação total do PIB.

Na óptica da despesa, o crescimento económico foi sobretudo sustentado pelo aumento do consumo público e das exportações de bens e serviços. O consumo final, que inclui despesa privada e pública, cresceu 5,8%, ligeiramente abaixo dos 6,0% registados no trimestre anterior.

O consumo privado desacelerou para 1,7%, face aos 4,8% do terceiro trimestre, enquanto o consumo público disparou 18,8%, superando os 10,1% anteriores. O investimento aumentou 5,0%, embora com uma forte desaceleração face ao crescimento de 42,9% observado no trimestre precedente.

As exportações de bens e serviços cresceram 5,7%, acima dos 3,9% do trimestre anterior, com destaque para os serviços (+6,8%) e os bens (+3,9%).

Já as importações aumentaram 3,8%, mas com dinâmicas opostas: as importações de bens recuaram 0,8%, enquanto as de serviços subiram 22,0%, após uma subida de 17,2% no trimestre anterior.

Guerra no Médio Oriente volta a deixar a economia em perigo

Mais uma vez – já lhe perdemos a conta – a economia global está ameaçada de desestabilização – desta vez, pelo início da guerra no Médio Oriente no final de Fevereiro deste ano. Ao longo do último ano, os obstáculos decorrentes das maiores barreiras comerciais e da elevada incerteza até estavam a ser compensados por factores favoráveis, como investimentos relacionados com a tecnologia; condições financeiras acomodativas, incluindo um dólar norte-americano mais fraco; e apoio das políticas orçamental e monetária. O conflito no Médio Oriente vem representar uma força contrária significativa a estes factores favoráveis, através do seu impacto nos mercados de matérias-primas, nas expectativas de inflação e nas condições financeiras.

De acordo com a previsão de referência do actual Outlook, o crescimento global deverá ser de 3,1% em 2026 e de 3,2% em 2027, mais lento do que o ritmo recente de cerca de 3,4% em 2024-2025, e deverá estabilizar nesse patamar no médio prazo, mais lento do que a média histórica (2000-2019) de 3,7%. A previsão para 2026 foi revista em baixa em 0,2 pontos percentuais e a de 2027 mantém-se inalterada, em comparação com as da actualização de Janeiro de 2026. A inflação global deverá aumentar para 4,4% em 2026 e diminuir para 3,7% em 2027, representando revisões em alta em ambos os anos. (Segundo o FMI, na ausência da guerra, o crescimento global teria sido revisto em alta).

Mas o cenário anterior é o, digamos, cenário bom, isto porque o FMI avisa que num cenário adverso com maiores e mais persistentes aumentos dos preços da energia, o crescimento global abrandaria ainda mais, para 2,5% em 2026, e a inflação atingiria 5,4%. Num cenário mais grave, em que se verifiquem mais danos nas infra-estruturas energéticas na região do conflito, o impacto seria ainda maior: o crescimento global cairia para cerca de 2% em 2026, enquanto a inflação geral ficaria pouco acima dos 6% em 2027. O impacto nas economias emergentes e em desenvolvimento seria quase o dobro do impacto nas economias avançadas.

Perspectiva económica global

Os riscos negativos predominam, mesmo após a concretização de um evento de risco — nomeadamente, uma escalada das tensões geopolíticas — frequentemente sublinhada nos relatórios anteriores das perspectivas economias globais. As tensões geopolíticas podem agravar-se ainda mais — transformando a situação na maior crise energética dos tempos modernos — ou podem surgir tensões políticas internas.

Um desgaste das instituições, incluindo a independência do banco central e a credibilidade da política monetária, pode elevar as expectativas de inflação — especialmente numa altura em que a inflação geral está a aumentar devido a um choque nos preços relevantes. Por outro lado, a actividade económica pode ser ainda mais impulsionada pelos investimentos relacionados com a IA e, eventualmente, transformar-se num crescimento sustentável se uma adopção mais rápida da IA se traduzir em fortes ganhos de produtividade e maior dinamismo empresarial. A actividade pode também ser apoiada por um novo ímpeto para reformas estruturais e por uma redução sustentada das tensões comerciais.

Navegar num cenário económico e geopolítico profundamente em transformação exige políticas robustas para diferentes cenários mundiais. Por exemplo, o aumento das despesas com a defesa, motivado por uma elevação das tensões geopolíticas, pode impulsionar a actividade económica a curto prazo, mas também gerar pressões inflacionistas, enfraquecer a sustentabilidade orçamental e externa e correr o risco de prejudicar as despesas sociais, o que, por sua vez, pode inflamar o descontentamento e a agitação social.

Um pacote de políticas abrangente combinaria medidas que os países devem tomar individualmente e medidas que os países devem implementar pragmaticamente em conjunto para aumentar a resiliência e promover a agilidade e a adaptabilidade. Isso passa, antes de mais, pela preservação da estabilidade de preços e financeira, pela salvaguarda da sustentabilidade orçamental e pela implementação de reformas estruturais sem mais demoras. Segundo o FMI, os bancos centrais devem manter-se vigilantes e estar preparados para agir de forma clara e decisiva, em conformidade com os seus mandatos. Devem proteger-se contra choques de oferta prolongados que desestabilizem as expectativas de inflação. “Os decisores políticos monetários devem reservar-se o direito de ignorar choques de oferta negativos – como o actual – desde que as expectativas de inflação se mantenham bem ancoradas e a política monetária já esteja devidamente calibrada. A comunicação transparente e a forte independência do banco central são cruciais para a credibilidade”, lê-se no relatório.

Os supervisores financeiros devem estar preparados, assegurando uma supervisão prudencial robusta, realizando análises de cenários e mantendo as reservas de capital, liquidez e segurança adequadas. Para repor as reservas para choques futuros, os governos devem — conforme o que for adequado às circunstâncias específicas de cada país — mobilizar receitas, repriorizar as despesas, tornar as despesas mais eficientes e gerir os recursos extraordinários com prudência. Uma segunda prioridade é abordar os desequilíbrios internos, especialmente quando isso também contribui para reduzir os desequilíbrios externos excessivos.

O impacto da guerra na economia global

No fundo, a perspectiva global ficou sombria abruptamente após o início da guerra no Médio Oriente, a 28 de Fevereiro de 2026. O encerramento do Estreito de Ormuz e os graves danos nas instalações de produção críticas numa região central para o fornecimento global de hidrocarbonetos podem causar uma crise energética a uma escala sem precedentes.

A duração e a escala do conflito, bem como o tempo necessário para que a produção e o trânsito de energia normalizem após o fim das hostilidades, determinarão a dimensão final do choque na economia global. O impacto global do choque depende de três factores.

Em primeiro lugar, o efeito directo do aumento dos preços das matérias-primas representa um choque de oferta negativo clássico, elevando o custo de todos os bens e serviços com utilização intensiva de energia — incluindo fertilizantes, produtos químicos, alimentos, transportes e aquecimento — interrompendo as cadeias de abastecimento, alimentando a inflação geral e reduzindo o poder de compra.

Este choque directo pode ser amplificado através de efeitos secundários, à medida que os trabalhadores e as empresas tentam recuperar as perdas de rendimento esperadas através de salários e preços mais elevados. O risco de tais espirais de salários e preços será maior para os países onde as expectativas de inflação já estão mal ancoradas, exigindo um aperto mais enérgico da política monetária, a um custo mais elevado para a economia.

A reação dos mercados financeiros é o terceiro canal. Pode ocorrer um episódio clássico de aversão ao risco, desencadeado pelas perspetivas de instabilidade macroeconómica, prejudicando as avaliações dos activos, aumentando os prémios de risco, provocando fugas de capitais e valorização do dólar com a procura de segurança e reduzindo a procura agregada.

Tal como aconteceu com os aumentos anteriores dos preços das matérias-primas, os importadores de energia estão altamente expostos, sendo que os países em desenvolvimento de baixo rendimento — particularmente aqueles com vulnerabilidades macroeconómicas preexistentes e reservas limitadas — serão provavelmente os mais afectados. É provável que os exportadores de energia da região do Golfo também sofram, reflectindo os danos relacionados com o conflito e as paragens da produção, as restrições às exportações e a menor actividade turística e comercial, enquanto os países que fornecem trabalhadores migrantes podem enfrentar perdas de remessas.

Lições da Crise Energética de 2022

Pode comparar.se o choque actual com a subida dos preços das matérias-primas em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Nessa altura, a inflação global subiu para níveis que não se viam desde a década de 1970, desencadeando um aperto monetário amplo e sincronizado. A subsequente desinflação sem recessão é amplamente vista como um grande sucesso político.

Devemos esperar um cenário semelhante desta vez? Pra o FMI, há razões para duvidar, tanto boas como más. Do lado positivo, as pressões inflacionistas em 2022 antecederam o choque energético da guerra na Ucrânia, impulsionadas por desequilíbrios entre a oferta e a procura pós-pandemia, mercados de trabalho aquecidos e liquidez abundante das famílias e das empresas. Hoje, os mercados de trabalho estão significativamente mais fracos, os balanços do sector privado normalizaram e as pressões inflacionistas pré-choque estão mais moderadas — embora ainda acima da meta em alguns países, incluindo nomeadamente os Estados Unidos. Desde que o próprio choque se mantenha modesto, isto sugere um impacto inflacionista possivelmente mais moderado, consistente com o nosso cenário de referência.

Mas o episódio anterior deixou cicatrizes. Com os níveis de preços permanentemente mais elevados, as preocupações com o custo de vida continuam vivas na mente das pessoas, aumentando a sensibilidade das expectativas de inflação à evolução dos preços, especialmente onde a credibilidade do banco central é vista como abalada. O episódio inflacionário de 2022 foi também o resultado de uma curva da oferta agregada excecionalmente acentuada, devido a estrangulamentos na oferta. Para os bancos centrais que tentam conter a inflação, uma curva de oferta acentuada significa que é possível reduzir significativamente a inflação dos preços sem uma grande desaceleração. Infelizmente, a curva da oferta parece agora muito mais plana: a desinflação desta vez pode revelar-se mais cara.

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Queda histórica na ajuda externa

A ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD) concedida pelos membros e associados do Comité de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) totalizou 174,3 mil milhões de dólares em 2025, uma queda de 23,1% em relação a 2024. Trata-se da maior contração anual já registada e do segundo ano consecutivo de declínio.

Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França (classificados por volume de AOD) foram responsáveis por 95,7% da queda total na AOD. Os Estados Unidos, sozinhos, foram responsáveis por três quartos dessa queda, com uma redução de 56,9% da sua AOD em comparação com 2024. A maior redução de volume já registada por qualquer provedor num único ano.

As projeções indicam uma queda adicional de 5,8% na AOD do CAD em 2026, isto sem ainda considerar a pressão adicional decorrente da actual crise no Oriente Médio.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272 de 15 de Abril de 2026.

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Autoria:Jorge Montezinho, André Amaral,18 abr 2026 8:25

Editado porDulcina Mendes  em  18 abr 2026 17:19

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