A economia cabo-verdiana deverá crescer 4,8% em 2026, segundo o FMI, uma projecção que se mantém inalterada face às previsões de Outubro do ano passado e que confirma um abrandamento do ritmo de crescimento (5,5% em 2025). Para 2027, o Fundo antecipa uma ligeira aceleração, fixando-se em 5,0%.
O país continua a crescer acima da média da África Subsaariana, para a qual o FMI projecta um crescimento de 4,3% em 2026. Para 2027, a previsão de crescimento situa-se nos 4,4%. Estas são as contas das Previsões Económicas Regionais de Primavera, divulgadas na última semana, em Washington.
Para António David, subchefe da Divisão de Estudos Regionais do Departamento Africano do Fundo Monetário Internacional, as projecções indicam “uma resiliência bastante importante no caso de Cabo Verde e um certo dinamismo económico também”.
A África Subsaariana entrou em 2026 a colher os benefícios dos ganhos de estabilização conquistados em 2025, diz o Fundo. A actividade económica acelerou de forma generalizada e a inflação manteve-se a níveis moderados até ao final de 2025. A situação orçamental da região também melhorou.
Contudo, o FMI reconhece que a guerra no Médio Oriente alterou o cenário optimista e tornou as contas mais difíceis. Os preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes, bem como os custos de transporte, aumentaram de forma acentuada nos últimos meses. Além disso, no plano regional, o choque perturbou o comércio com parceiros do Golfo, reduziu a chegada de turistas e deverá afectar negativamente as remessas para alguns países.
Os países importadores de petróleo enfrentam um agravamento da balança comercial e um aumento do custo de vida, enquanto os exportadores de petróleo beneficiarão de maiores receitas externas, mas não deixarão de estar sujeitos à volatilidade da actual conjuntura. Os riscos negativos são significativos, assume o FMI.
No caso de Cabo Verde, enquanto país importador, o impacto é inevitável, estando o alcance dependente da duração das tensões no Golfo Pérsico.
“[O crescimento do PIB] vai ser apoiado pelo sector do turismo, pelo consumo privado e também pelo investimento. Mas é verdade, os riscos são descendentes. O facto de ser um país importador, o aumento dos custos da energia, o aumento dos custos do petróleo. Com certeza, principalmente caso a guerra se prolongue, isso vai impactar as perspectivas”, refere António David.
O subchefe da Divisão de Estudos Regionais do Departamento Africano recomenda a continuação das reformas ao nível das empresas públicas, a par da diversificação económica.
“O país já começa a adoptar políticas nesse sentido, mas deve continuar. A primeira questão é a ligada às empresas públicas. Aumentar a transparência e a eficiência dessas empresas públicas, para reduzir eventuais riscos de passivos contingentes ou riscos orçamentais e fiscais associados. Inclusive, para melhorar a prestação de serviços públicos assegurados por essas empresas. Isso seria uma área fundamental”, declara.
“A outra área seria a diversificação económica, mesmo dentro do sector do turismo. Há espaço para diversificação, tanto no sentido dos mercados de origem dos turistas que chegam a Cabo Verde, quanto dos destinos dentro do próprio país, dos operadores, das modalidades de turismo (…). Uma maneira de fomentar essa diversificação seria melhorar os transportes entre as diferentes ilhas do arquipélago”, acrescenta.
Outra linha definidora do actual momento económico na África Subsaariana é a contracção da ajuda externa, iniciada em 2025 e impulsionada pelos doadores. Estimam-se cortes entre 16% e 28% na ajuda bilateral. Os países de baixo rendimento e os Estados frágeis e afectados por conflitos são dos mais expostos. O impacto dos cortes é amplificado pela importância central e transversal que a ajuda assume, tanto nos orçamentos como nos fluxos financeiros e na prestação de serviços.
Cabo Verde surge entre as excepções, com o FMI a colocar o arquipélago na lista restrita de países que não deverão ser afectados por cortes significativos.
“É uma grande vantagem para Cabo Verde. Isso vai permitir que se protejam as despesas prioritárias, sem que haja uma deterioração do défice fiscal, das contas externas e das condições de financiamento. Realmente, com relação a outros países em desenvolvimento da região, é uma vantagem imensa”, comenta António David.
Para o futuro da África Subsaariana, o Fundo Monetário Internacional considera que a integração regional poderá impulsionar o crescimento e reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento. Por outro lado, o aprofundamento dos mercados financeiros domésticos tenderá a facilitar um maior financiamento em moeda local. Finalmente, as Previsões Económicas Regionais lembram que a utilização da inteligência artificial, para aumentar a produtividade, exigirá a expansão do acesso à electricidade fiável e investimentos em infra-estruturas digitais, competências, cibersegurança e governação de dados.
Foto: Depositphotos.com
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1273 de 22 de Abril de 2026.
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