Acrescentou que neste novo mundo de incertezas há que ter estratégias robustas, boa base financeira e agilidade mas também procurar estar pronto para enfrentar choques diversos que em geral são imprevisíveis. Aconselha ainda que em tal ambiente é fundamental fazer as perguntas certas, preparar as respostas e agir em conformidade, não perdendo tempo a lamentar forças exteriores. É melhor focar no que se tem sob controlo.
De facto, a situação actual que já estava complicada, agravou-se extraordinariamente com a guerra no Médio Oriente, na sequência dos ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irão. As consequências já se fazem sentir com o aumento dos preços do petróleo e da energia, em geral derivado das graves perturbações na produção e distribuição dos combustíveis. Em se prolongando o conflito, é de se considerar o impacto que terá na inflação, no crescimento da economia mundial, no comércio internacional e nas movimentações de capitais. Não é de se excluir também os efeitos de arrastamento noutros pontos de tensão geopolítica, designadamente, na guerra na Ucrânia devido, entre outras razões, ao já conhecido envolvimento das partes na contenda, de um lado, com informações sobre alvos militares e, do outro, com armas anti-drone.
Entretanto, o mundo vive em quase sobressalto na expectativa do que a tecnologia da inteligência artificial (IA) poderá representar para a competitividade e para a produtividade dos países que primeiro a dominarem e aplicarem à sua estrutura produtiva. Já se antecipa que IA poderá representar um salto tecnológico como nunca antes visto com aplicações em todos os domínios económicos, mas também científicos, militares e de análise de dados. Estar-se-á a inaugurar uma nova forma de desigualdade que poderá acelerar o processo já em curso de substituir a ordem liberal, construída nos últimos oitenta anos na base de regras e procedimentos e com respeito pelo direito internacional, pela lei dos mais fortes.
A par disso, já há alguma evidência a surgir nas estatísticas mensais de empregos criados nos Estados Unidos que a introdução do IA tende a dissociar o crescimento da economia do aumento de postos de trabalho. Previsões de vários estudiosos apontam para a perda de milhares de empregos, à medida que se generaliza o uso do IA, em ocupações geralmente pouco afectadas pelos ciclos económicos. O que a globalização representou para a destruição de milhares de empregos industriais atingindo uma certa camada da população, com custos humanos elevadíssimos, a IA poderá vir a ser para uma outra camada, a da classe média, que até agora se viu livre desse tipo de desastre. Como da primeira vez, a maior vítima desse fenómeno poderá ser a democracia assim apanhada pela crise de confiança nas instituições e o ressentimento pelo não cumprimento do contrato social que promete oportunidade para todos.
Um outro factor a ter presente é a dinâmica demográfica que, com taxas tendencialmente baixas de natalidade à medida que aumenta o rendimento per capita, a prazo pode vir a pôr em causa a sustentabilidade da segurança social. No presente, entretanto, a pressão demográfica é condicionada, seja pela emigração, facilitada pelos novos meios de transporte, por políticas de mobilidade e pela procura dos países mais ricos, seja ainda pela imigração alimentada por fluxos vindos de países com menos rendimentos. Tanto num caso como noutro há consequências sociais complicadas. Tratando-se da emigração há que mitigar o prejuízo com a perda de mão-de-obra especializada e mesmo de fuga de cérebros. Sé é da imigração, há que fazer o esforço da integração, evitar choques culturais e renovar a identidade nacional numa sociedade a tornar-se multicultural.
Junta-se a isso tudo a possibilidade de choques provocados por fenómenos naturais incluindo secas, chuvas torrenciais, furacões e temperaturas extremas. As alterações climáticas em curso aumentaram a probabilidade de surgimento de fenómenos extremos. No ano passado, em Agosto, uma tempestade tropical nunca dantes vista causou uma catástrofe em S Vicente e três meses depois chuvas torrenciais semearam destruição na região Norte de Santiago. Neste ano de 2026, com o anúncio do surgimento do fenómeno de El Niño pelas autoridades meteorológicas internacionais que se traduz num maior aquecimento dos mares, prevêem-se altas temperaturas em 2026 e 2027 e, em consequência, maior actividade dos furacões do Atlânticoe maior risco para as ilhas. .
Para Cabo Verde, que não obstante as secas periódicas, tem felizmente escapado aos efeitos catastróficos das tempestades tropicais que emergem na sub-região africana, a verdade é que claramente fica mais exposta a esse tipo de fenómenos. E como se viu em S. Vicente, e em Santiago, o país não está suficientemente preparado, entre outras coisas, pela ausência de uma m planificação urbana adequada, por falta de um sistema de escoamento de águas eficaz e pela insuficiência de meios de protecção civil, para responder a situações extremas. O desejável é que, com a experiência terrível do ano passado, houvesse um esforço maior para, seguindo o conselho da directora do FMI, o país focar no que tem controlo e não ficar apenas pelas lamentações.
Mas lamentar, instigar ressentimentos e reforçar dependência é o modus operandi normalmente adoptado nas lutas pelo poder variando em nuance se se está na situação ou na oposição, ao nível local ou nacional. Tende-se a caracterizar qualquer situação de dificuldade como sendo resultado de abandono, compara-se o que muitas vezes não é comparável para criar ressentimento e normaliza-se a política de criar dependência até ao ponto de incitar pessoas a aceitar ofertas em troca de voto e depois votar contra. Assim fica difícil perante qualquer situação mais complexa, pior ainda quando abundam incertezas e as legislativas estão à porta, fazer as perguntas certas, encontrar respostas e agir em conformidade guiado pelo interesse público, definindo prioridades e não sendo dominado pelo curto prazo.
De facto, como lidar com os problemas da actualidade se a tentação, por um lado, é transmitir a ideia de um país em sobressalto - vai faltar luz, água, gás – e até a reforma aos 65 anos poderá não ser mais possível, porque acredita-se que alimentando o medo, a desesperança e o ressentimento pode-se conquistar o poder. Do outro lado, projecta-se a imagem em sucessivas inaugurações e exaustivos actos públicos de que governar passa por enumerar os milhões mobilizados e aplicados em projectos. Não estranha que se consiga fazer as pessoas desconfiar dos números de crescimento económico e do emprego, dos indicadores da situação macroeconómica e social do país mesmo quando são validados por organizações internacionais.
A dissonância com a realidade é induzida pela cultura de dependência, que os primeiros quinze anos do modelo económico, baseado na reciclagem da ajuda externa e supervisionado pelo poder ditatorial e paternalista consolidou, e que os anos da democracia e de construção de uma economia de mercado não conseguiram ainda ultrapassar. Acreditar que a prioridade maior deve ser a criação de um uma estrutura económica produtiva capaz de criar riqueza porque é competitiva e tem ganhos de produtividade, encontra resistência. Mais fácil é viver do financiamento dos meios disponibilizados ao país mesmo que não sejam o ideal para o desenvolvimento dessa estrutura produtiva. Afinal, o poder está em facultar os meios, gerir o acesso e dirigi-los e não realmente nos resultados obtidos.
Claramente, os partidos falham em estabelecer o diálogo democrático que permitiria o país, com reformas adequadas, responder aos desafios do seu desenvolvimento e às incertezas deste mundo turbulento e imprevisível, indo além da cultura da dependência herdada. Ao reduzir a sua razão de ser à luta pela conquista do poder e fazer de todas as questões armas de arremesso nessa luta diminuem as hipóteses da uma convergência de objectivos que podia permitir ao país dar um salto em frente. Maior hipótese haverá para o aparecimento, na política personalista que se instalou no país, de um líder que, como demonstrado nos Estados Unidos, proceda a um minar das instituições e do Estado de Direito, prejudicando gravemente o maior activo de Cabo Verde, a sua estabilidade política.
Humberto Cardoso
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1267 de 11 de Março de 2026.
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