Entre listas e o futuro de Cabo Verde, o foco deve ser sempre as pessoas

PorPaulo Veiga,20 abr 2026 8:00

“Não procuremos a resposta republicana ou democrata, mas sim a resposta certa.” - J.F. Kennedy

As últimas semanas da vida política cabo-verdiana ficaram marcadas por um tema que, sendo importante, nunca deveria ter ocupado o centro do debate. A construção das listas de candidatos às eleições legislativas de 17 de Maio, foi tema principal quando o foco, há muito tempo, deveria ser o programa para Cabo Verde e para as pessoas.

Como em qualquer democracia, este é um momento relevante para os partidos, define equipas, estabelece equilíbrios e projeta lideranças. No entanto, não é, nem pode ser, o essencial. O essencial deveria estar noutro lugar, deveria estar nas pessoas, nos seus problemas concretos, na sua qualidade de vida, e no seu futuro.

Quando o processo de escolha de candidatos se transforma no principal assunto político do país, há um desvio claro de prioridades. E quando esse processo é marcado por ruído, contestação interna e sinais de desorganização, como se verificou nos dois partidos do arco do poder, então o problema é duplo, não só se perde o foco, como se transmite ao país uma imagem de instabilidade que não inspira confiança.

É importante reconhecer que nenhum partido está imune a tensões internas. O próprio MpD já enfrentou momentos exigentes ao longo da sua história e continuará, naturalmente, a enfrentá-los. E mesmo o processo atual foi demasiado público e com algumas fraturas. Isto acontece porque a política é feita de pessoas, e as pessoas trazem consigo ambições, divergências e diferentes visões. O que distingue os partidos não é a ausência de conflitos, mas a forma como os gerem.

E é aqui que, infelizmente, ambos Partidos falharam. Um processo natural, organizado e orientado por critérios claros acabou por se tornar um episódio de exposição pública de divisões internas, com críticas abertas à liderança, denúncias de exclusões e uma perceção generalizada de falta de coesão. Não é apenas uma questão interna, é um sinal político. E os sinais políticos contam.

“O preço da grandeza é a responsabilidade.” - Winston Churchill

Seria um erro ficarmos presos a este tema. Cabo Verde não pode permitir-se esse luxo. O país, e o Mundo, enfrentam desafios demasiado sérios para que a política se concentre em disputas internas ou jogos de bastidores.

E sejamos pragmáticos, as famílias cabo-verdianas não estão preocupadas com quem ficou ou não ficou numa lista. Estão preocupadas com o custo de vida, com o preço dos alimentos, com a dificuldade em pagar renda, eletricidade e água. Estão preocupadas com o futuro dos seus filhos, com a qualidade da educação e com as oportunidades de emprego. É aí que deve estar o centro da política.

Estamos num momento particularmente exigente, marcado por um contexto internacional instável, com impactos diretos numa economia pequena e aberta como a nossa. A inflação global, as tensões geopolíticas e as mudanças nos fluxos económicos internacionais afetam diretamente o dia a dia das famílias cabo-verdianas. E é precisamente por isso que se exige da política mais responsabilidade, mais foco e mais capacidade de resposta.

Cabo Verde precisa, neste momento, de clareza estratégica. Precisa de políticas que façam a diferença na vida das pessoas, de decisões que não sejam pensadas para ciclos eleitorais, mas para o futuro do país. É neste contexto que importa re-centrar o debate e apresentar caminhos concretos. Focar no essencial, governar para as pessoas.

Em primeiro lugar, é fundamental continuar a aliviar a pressão financeira sobre as famílias. Isso implica reforçar medidas de redução do custo de vida, com especial atenção aos bens essenciais. O Estado deve continuar a atuar de forma inteligente, quer através de mecanismos de compensação, quer através de incentivos que permitam estabilizar preços e proteger o poder de compra, sobretudo das famílias mais vulneráveis e da classe média.

Em segundo lugar, é essencial dar um novo impulso à educação: não basta garantir o acesso, é fundamental elevar a qualidade, o sentido e a ligação ao mundo real, desde a educação de infância até à formação ao longo da vida. O futuro exige um sistema orientado para competências, pensamento crítico e cidadania ativa, capaz de formar pessoas íntegras e responsáveis, preparadas para um mundo em rápida transformação. Nesse caminho, a Inteligência Artificial deve entrar na escola sem medo, mas com ética — ensinada de forma crítica, transparente e humana, ao serviço do conhecimento, da igualdade de oportunidades e do bem comum. Aprender fazendo, em contacto com a realidade, com projetos, experiência prática e inovação pedagógica, é essencial para que a educação deixe de apenas transmitir conteúdos e passe, verdadeiramente, a preparar cidadãos conscientes e capazes de construir um futuro mais justo e pacífico.

Em terceiro lugar, Cabo Verde dispõe de uma oportunidade única e estratégica que não pode ser desperdiçada, o seu oceano. O mar não é apenas parte da nossa identidade histórica e cultural, é um ativo de valor económico, ambiental, científico e geopolítico ímpar. A Economia Azul, quando pensada de forma integrada e sustentável, pode gerar emprego qualificado, atrair investimento e projetar Cabo Verde como um verdadeiro farol no Atlântico, uma referência internacional em desenvolvimento sustentável e governação marítima. Para tal, é necessária visão de longo prazo, investimento em conhecimento e inovação, firme proteção ambiental e uma estratégia clara que integre pesca sustentável, turismo responsável, energias renováveis marinhas, investigação científica e a valorização das comunidades costeiras. O oceano pode, e deve, afirmar-se como um dos pilares centrais do desenvolvimento soberano, duradouro e globalmente respeitado do país.

Por fim, é indispensável reforçar a confiança nas instituições e na própria política. Isso faz-se com transparência, com seriedade e com resultados. As pessoas acreditam quando veem mudanças concretas nas suas vidas. E é essa confiança que sustenta uma democracia forte.

“A esperança não é a convicção de que algo correrá bem, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente do resultado.” - Vaclav Havel

O momento que vivemos não é um momento qualquer. É um momento de escolha. E, mais do que escolher partidos ou nomes, os cabo-verdianos serão chamados a escolher um caminho para o país. Um caminho que pode ser de estabilidade, responsabilidade e progresso, ou um caminho de incerteza e improviso.

É por isso que o debate político tem de estar à altura deste momento, ser sério, esclarecedor e verdadeiramente útil para o país. As listas estão feitas, e agora é tempo de falar de ideias, de escolhas e do futuro que queremos construir em conjunto.

A democracia não se esgota nos partidos, ela resulta com a participação de todos. No dia 17 de Maio, cada voto conta, cada voz faz diferença. Votar não é apenas um direito, é um dever cívico e um ato de responsabilidade para com o presente e com as gerações que virão.

Termino com uma nota pessoal. Após dez anos no Parlamento, que foi para mim uma verdadeira escola de serviço público e um espaço de enorme honra, não integrarei as listas destas eleições legislativas. Trata-se de uma decisão enquadrada num processo de renovação que o partido entendeu promover e que respeito. Sinto um profundo orgulho pelo caminho feito, pelas causas que defendi e pelo contributo que procurei dar a Cabo Verde. Não acreditem, no entanto, que esta ausência das listas será uma ausência nesta luta eleitoral. A política não se esgota em mandatos nem em lugares.

Este é um momento crucial para o país, e estarei, como sempre estive, presente neste combate, ao lado do MpD, com o mesmo compromisso, a mesma convicção e a mesma vontade de servir Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272 de 15 de Abril de 2026.

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Autoria:Paulo Veiga,20 abr 2026 8:00

Editado porAndre Amaral  em  20 abr 2026 12:19

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