A classificação como país de rendimento médio-alto pelo Banco Mundial, a qualificação histórica dos Tubarões Azuis para a FIFA World Cup 2026 e o sucesso do primeiro transplante renal no país são evidências indubitáveis de que o arquipélago tem avançado.
Contudo, estes progressos coexistem com desafios estruturais, cada vez mais complexos, pelo que os resultados não podem ser tomados como garantidos. O contexto atual, definido por dinâmicas geoestratégicas, polarização política e riscos climáticos, tornam a economia cabo-verdiana particularmente exposta a choques imprevisíveis. Isto reforça a importância da análise dos ciclos económicos e da curva de experiência macroeconómica. Estes conceitos referem-se à forma como os países aprendem com cada crise e ajustam as suas políticas ao longo do ciclo de expansão e de recessão do PIB, do emprego e dos rendimentos, em torno da tendência de longo prazo. Quanto mais experiência acumulada, maior tende a ser a capacidade institucional de resposta e menor a duração dos efeitos negativos dos choques.
As evidências empíricas demonstram que a política de estabilização cíclica para fazer face à crise do subprime deu lugar a desequilíbrios macroeconómicos, agravou as vulnerabilidades e elevou o risco do país para nível alto. Refletem as limitações das economias em desenvolvimento e com ciclos político-democráticos curtos, cujas decisões tendem a não se basear em estudos técnicos independentes sobre ciclos, à semelhança do que faz, por exemplo, o National Bureau of Economic Research. Aplicado à economia nacional, os dados do INE evidenciam turning points no 3º e 4º trimestre de 2008, seguido de performances de -0,39% e -7,22% no final de 2009 e uma recessão anual de -1,5% do PIB face ao crescimento homólogo de 7%.
A partir de 2016, a transição para um modelo de governança ancorado na economia de mercado alterou o percurso de crescimento anémico de 1,5% do PIB entre 2010 e 2015. A melhoria do ambiente de negócios permitiu que o país registasse um crescimento médio de 4,9% do PIB até 2019. Nesse ano, perante um crescimento robusto de 6,9%, o desemprego recuou para 11,3% (contra os 15,8% de 2015) e o rácio da dívida pública para 109,6% do PIB (face aos 115% em 2015). Esta transição ocorreu sob graves crises climáticas, mas a implementação de um modelo económico integrado, assente nos instrumentos de crédito bonificado e garantias públicas, permitiu mitigar falhas de mercado e fortalecer o setor privado.
Nos últimos anos, Cabo Verde esteve exposto à mais grave crise sanitária e económica desde 1929, provocada pela COVID-19 e, posteriormente, uma grave crise decorrente da guerra na Ucrânia. Sem precedentes, o país presenciava a quinta recessão global, que no plano nacional foi de -20,8% do PIB, tendo o VAB do alojamento e restauração atingido -98,1% no 2º trimestre. Perante uma profundidade cíclica de 0,61 comparada a 0,9 verificada em 2009, conforme os gráficos 1 e 2, a economia regrediu 53 trimestres, para níveis de 2007, com uma perda de riqueza real de -43,8 mil milhões de CVE – cerca de 18 vezes superior à perda registada na recessão da crise financeira global. A transição ao longo da fase recessiva apresentou dinâmicas díspares. Na última recessão foi abrupta, contrariamente ao comportamento desfasado ao longo de 5 trimestres verificado em 2009. No entanto, segundo o GAO, Cabo Verde implementou uma política adequada à crise da COVID-19.
Em defesa do emprego e da inclusão social, o plano de retoma do setor privado pós-COVID consolidou-se na simplificação do acesso ao financiamento e criação de condições à dinamização do investimento privado. O processo de recuperação foi rápido e em apenas 20 trimestres, face aos instáveis 27 no pós-2009, alcançou-se um PIB real de 60,4 mil milhões de CVE, no 1º trimestre de 2025, a partir do qual se manteve estável acima do pico cíclico pré-crise.
Pós-2020, a economia cresceu a uma taxa média de 8,2% e o desemprego retomou a sua trajetória decrescente, fixando-se em 4,9% no 2º semestre de 2025, enquanto a dívida pública recuou para cerca de 99,8% do PIB em 2025. Esta evolução é o reflexo prático da curva de experiência macroeconómica que, no contexto nacional, reflete a maturidade institucional em converter a aprendizagem resultante de sucessivos choques em políticas de estabilização assertivas, com menor persistência dos efeitos negativos e maior rapidez no fecho do gap.
Contudo, a melhoria da capacidade de ajustamento não significa uma alteração no padrão de crescimento atual. Este continua fortemente dependente do turismo, o que tem limitado a autonomia do ciclo económico endógeno e a sua capacidade de gerar efeitos multiplicadores mais amplos. O país mantém-se perante um quadro sensível à incerteza e vulnerável a choques externos. Isto faz da curva de experiência um diferencial crítico, na medida em que o sucesso pós-crise explica-se, sobretudo, pela capacidade de suavizar a amplitude e a persistência dos ciclos. Esta maturidade é o que assegura uma recuperação mais rápida e estável do produto, do emprego e dos preços em torno dos seus níveis potenciais, sem comprometer a estabilidade macrofiscal.
O atual contexto, com riscos acrescidos da guerra no Médio Oriente, implica, inevitavelmente, o acelerar das reformas estruturais e disruptivas, com ênfase nos domínios do desenvolvimento das competências, da coesão nacional e da integração regional. Deve ainda estender-se às áreas dos mercados financeiros, da energia sustentável, das infraestruturas digitais, da cibersegurança, da data science e da inteligência artificial. É urgente um novo modelo económico transformador, de base produtiva diversificada, em prol do crescimento económico sustentável e do emprego digno. Estes indicadores, na economia pública, constituem o cerne da avaliação governativa. Por conseguinte, impõem-se decisões com discernimento estratégico acrescido, de modo a preservar e continuar a consolidação dos ganhos, sobretudo da democracia e do desenvolvimento, perante a volatilidade das crises mundiais.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1274 de 29 de Abril de 2026.
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