Cabo Verde entrou, numa posição que poucas gerações tiveram o privilégio de herdar, deixando de ser apenas um país definido pelas suas limitações e conquistando, finalmente, o direito de ser um país definido pelas suas capacidades.
Não se tratou apenas de crescimento económico, nem apenas de melhorias setoriais em áreas específicas como a formação, o turismo ou a saúde. O que começou a acontecer foi algo mais profundo e mais consequente, o país iniciou uma alteração estrutural do seu próprio ponto de partida, substituindo gradualmente um modelo assente na adaptação às limitações por um modelo assente na construção deliberada de capacidade interna.
Esta transformação, no entanto, não é sentida de forma uniforme por todos os cabo-verdianos. Seria um erro ignorar essa realidade. Para muitas famílias que continuam a enfrentar dificuldades concretas, para muitos jovens que ainda procuram a sua primeira oportunidade profissional, para muitos trabalhadores que vivem sob pressão permanente do custo de vida, o país pode parecer ainda distante do seu potencial prometido. A história do desenvolvimento raramente é linear, e existe sempre um intervalo entre a construção das condições estruturais e a sua tradução plena na vida quotidiana das pessoas. Esse intervalo é inevitável, mas é precisamente nele que se decide se o progresso será consolidado ou desperdiçado.
Ainda assim, quando observamos o conjunto dos indicadores estruturais da última década, torna-se evidente que Cabo Verde começou a construir algo que durante muito tempo esteve fora do seu alcance. Alcançámos uma base interna de capacidade. O sistema de qualificação profissional mais do que triplicou o número de beneficiários, criando uma nova geração de técnicos e profissionais preparados para responder às exigências de uma economia em modernização. A taxa de inserção profissional, aproximando-se dos 75%, demonstra que essa qualificação deixou de ser um exercício abstrato e passou a constituir um instrumento funcional de integração produtiva. A cobertura de saúde expandiu-se significativamente, apoiada por uma rede de telemedicina que reduziu o impacto das distâncias e permitiu levar cuidados especializados a territórios que durante décadas estiveram privados desse acesso. A mortalidade materna registou uma redução expressiva, refletindo não apenas melhorias técnicas, mas o fortalecimento geral do sistema de cuidados.
Em simultâneo, o turismo deixou de ser um fenómeno concentrado e começou a assumir uma dimensão verdadeiramente nacional, com ilhas como São Nicolau e Fogo a registarem crescimentos que demonstram uma redistribuição progressiva das oportunidades económicas. O Sal e a Boa Vista consolidaram níveis de empregabilidade que refletem uma maturidade económica crescente, enquanto a aposta nas energias renováveis e na economia azul começou a lançar as bases de uma nova fase de diversificação estratégica. Cada um destes avanços, considerado isoladamente, poderia ser interpretado como uma melhoria setorial. Considerados em conjunto, revelam algo mais importante, uma realidade onde Cabo Verde começou a construir uma verdadeira capacidade sistémica.
A construção da capacidade como fundamento da verdadeira independência
Durante grande parte da sua história contemporânea, Cabo Verde demonstrou uma extraordinária capacidade de adaptação. Essa adaptação permitiu-lhe alcançar estabilidade política, coesão social e reconhecimento internacional, mesmo em condições objetivamente adversas. As nações que conseguem afirmar-se de forma duradoura são aquelas que, em determinado momento, deixam de depender predominantemente da sua capacidade de adaptação e passam a depender da sua capacidade de construção.
É precisamente essa transição que começou a ocorrer. A expansão da qualificação, o reforço do sistema de saúde, a redistribuição territorial da atividade económica e o investimento em setores estratégicos representam, em conjunto, a construção progressiva de uma infraestrutura invisível, composta não por obras físicas, mas por competência humana, capacidade institucional e confiança coletiva. A importância desta transformação torna-se ainda mais evidente quando observada no contexto internacional atual, caracterizado por uma reconfiguração profunda das bases do poder económico e de conflitos mundiais.
A responsabilidade histórica da próxima década
A verdadeira importância da última década não reside apenas nos progressos alcançados, mas no facto de esses progressos terem criado as condições para uma nova fase da história nacional, uma fase em que Cabo Verde já não está condenado a gerir limitações, mas está finalmente em posição de ampliar possibilidades. O que foi construído não é apenas um conjunto de indicadores positivos, é uma base estrutural que permite ao país orientar o seu desenvolvimento de forma consciente, sustentada e estratégica, centrada na sua própria capacidade e não apenas na adaptação às circunstâncias externas. Esta mudança representa uma oportunidade rara na vida de uma nação, mas também impõe uma responsabilidade proporcional à sua magnitude.
A próxima década será decisiva não porque os desafios deixaram de existir, mas porque criámos instrumentos reais para enfrentá-los. A qualificação terá de deixar de ser apenas um mecanismo de empregabilidade imediata e passar a constituir o motor de uma nova geração de empresas, de inovação aplicada e de modernização produtiva. A economia azul e a transição energética não poderão ser tratadas como áreas complementares, mas como pilares estruturais de uma estratégia de afirmação internacional que transforme a nossa geografia numa vantagem competitiva. A diáspora, cuja contribuição foi durante décadas essencial para a sobrevivência económica do país, terá de ser integrada de forma mais orgânica como rede de conhecimento, investimento e influência, ampliando o alcance da nossa presença no mundo.
No próximo ciclo, o verdadeiro teste à maturidade do nosso desenvolvimento não será a qualidade dos relatórios, mas a capacidade de fazer chegar os seus efeitos à vida real dos cabo-verdianos. À jovem que procura o seu primeiro emprego qualificado, ao agricultor que precisa de melhores condições de escoamento, ao empresário que quer inovar, ao profissional de saúde que trabalha num centro distante, à mãe que espera segurança e estabilidade para os seus filhos. O desenvolvimento só se consolida quando deixa de ser percecionado como promessa institucional e passa a ser reconhecido como transformação vivida.
É neste ponto que a próxima década ganha uma dimensão moral e não apenas estratégica. O que foi conquistado pertence às pessoas e deve regressar às pessoas sob a forma de oportunidades ampliadas, mobilidade social efetiva e confiança reforçada. Um país só se torna verdadeiramente forte quando os seus cidadãos sentem que o seu esforço individual encontra um sistema que o valoriza, que o protege e que o multiplica. Se falharmos nesse objetivo, a capacidade construída perderá parte do seu significado. Se o alcançarmos, consolidaremos algo muito mais profundo do que crescimento: consolidaremos coesão.
A década que começa agora será aquela em que teremos de provar que sabemos transformar capacidade em prosperidade partilhada, estratégia em oportunidades concretas e ambição nacional em realização individual. Se conseguirmos fazê-lo, esta geração não será lembrada apenas por ter melhorado indicadores, mas por ter consolidado as bases de uma nova etapa do desenvolvimento cabo-verdiano, centrada nas pessoas, sustentada pelas pessoas e orientada para o futuro das pessoas.
Com o povo, pelo povo, para o povo
Se esta década nos deu instrumentos, a próxima terá de lhes dar um sentido profundamente humano, porque nenhum indicador terá valor histórico se não se traduzir em dignidade vivida, em estabilidade sentida e em confiança recuperada no quotidiano das pessoas concretas que dão existência real à nação. O futuro de Cabo Verde não será decidido nos documentos que produzimos, mas na vida dos jovens que conseguirem permanecer e construir aqui o seu caminho, nas mães que puderem olhar para os filhos sem o peso permanente da incerteza, nos trabalhadores que encontrarem reconhecimento no fruto do seu esforço, e na certeza coletiva de que este país pertence, por inteiro, àqueles que o constroem todos os dias com o seu trabalho silencioso e sem rosto.
Porque, no fim, nenhuma geração constrói um país sozinha, e nenhuma liderança tem significado fora da comunidade que a sustenta. Como escreveu Paulo Freire, numa frase que ecoa em todas as lutas verdadeiramente justas, “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens libertam-se em comunhão”. É essa comunhão, discreta, resiliente e profundamente humana, que continuará a escrever o futuro de Cabo Verde, não como a obra de um tempo ou de um governo, mas como a realização coletiva de um povo que, passo a passo, começou finalmente a reconhecer o seu próprio poder.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1266 de 04 de Março de 2026.
homepage







