Cabo Verde, Farol no Atlântico - Não somos pequenos. Somos Grandes Nações Oceânicas.

PorPaulo Veiga,4 mai 2026 8:25

“Nós estamos ligados ao oceano. E quando regressamos ao mar, seja para navegar ou simplesmente para o contemplar, estamos a regressar ao lugar de onde viemos.” — citação atribuída a John F. Kennedy, 1962

A vida é feita de destino e escolhas. Ao longo da História, pessoas, comunidades e civilizações trilharam o seu caminho entre a “sorte de Deus” e o “livre arbítrio”, numa dualidade entre estas duas vias. Cabo Verde nasceu das duas, lançado no Atlântico por força da natureza, mas afirmado no mundo pela sua força da vontade. Dez ilhas que o vento e o mar esculpiram ao longo de milénios, e que os cabo-verdianos transformaram, geração após geração, num projeto de nação, num laboratório de democracia, num ponto de encontro entre continentes. Ser ilha nunca foi uma limitação. Ser ilha foi sempre, para nós, a condição de possibilidade.

E hoje, quando o mundo atravessa uma das fases de maior turbulência geopolítica desde o fim da Guerra Fria, esta verdade reafirma-se com uma urgência que não pode ser ignorada. O papel das ilhas no mundo não diminuiu, ele cresceu, e Cabo Verde, se souber estar à altura do momento, tem todas as condições para se afirmar como o que sempre foi, um país e um povo que se ergue como um farol no Atlântico.

O mundo que muda e as ilhas que resistem

Em 2026, o mapa do poder global está a ser redesenhado à velocidade que não víamos há décadas. As guerras na Europa e no Médio Oriente redefiniram rotas e alianças. A competição sino-americana estendeu os seus tentáculos ao Pacífico, ao Índico e, progressivamente, ao Atlântico. A ordem liberal do pós-Guerra Fria está sob pressão — não apenas de forças externas, mas de dentro das próprias democracias.

É neste contexto que os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento vivem um paradoxo perturbador: tornaram-se terreno de disputa entre grandes potências que neles projetam os seus interesses estratégicos, ao mesmo tempo que, como alertou o think tank ODI, “a geopolítica está a comprometer o seu desenvolvimento”. Somos vulneráveis, sim — mas não impotentes, desde que saibamos usar o que temos.

E o que temos é considerável. As ilhas controlam rotas marítimas estratégicas, alojam infraestruturas de comunicação essenciais e funcionam como nós de conexão entre massas continentais. Quem domina os mares determina a história — e as ilhas são os pontos dessa rede invisível, mas decisiva. Cabo Verde não é exceção. É, talvez, o exemplo mais eloquente.

Não somos pequenos, somos Grandes Nações Oceânicas

Permitam-me começar pela forma como as Nações Unidas e o mundo nos definem. Na semana passada, nas Ilhas Canárias, durante o Global Sustainable Islands Summit 2026, tive oportunidade de desafiar uma convenção que há demasiado tempo nos tem diminuído. O nome “Small Island Developing States” carrega mais peso político do que merece, e menos verdade do que pretende. Há uma palavra nessa designação que rejeito com a convicção de quem olhou para o oceano tempo suficiente para compreender a sua linguagem: small.

Não há nada de pequeno em nós — nem na geografia, nem na responsabilidade, nem na ambição. Não estamos à deriva no oceano: somos o oceano. Habitamos a maioria azul deste planeta e carregamos responsabilidades que extravasam em muito a definição estreita de terra firme. É tempo de que o nosso nome reflita essa dimensão real. Somos, em todo o sentido significativo da expressão, Grandes Nações Oceânicas — Large Ocean Nations.

Não se trata de uma questão semântica. É estratégica, identitária e política. As palavras com que nos descrevemos moldam o lugar que ocupamos nas negociações internacionais, nos acordos de financiamento, nas cimeiras climáticas. Chamarmo-nos “pequenos” é aceitar implicitamente uma posição subordinada. Afirmarmo-nos como Grandes Nações Oceânicas é exigir um lugar à mesa que a nossa dimensão real, oceânica, não apenas terrestre, justifica plenamente.

Cabo Verde tem dado corpo a esta ambição com investimentos concretos: o Campus do Mar e o Ocean Science Centre Mindelo, desenvolvido em parceria com o GEOMAR, provam que a ciência oceânica de classe mundial pode ser construída onde existam visão e compromisso. É sobre essa ciência que assenta a nossa autoridade para falar do oceano que partilhamos.

O Atlântico como palco de uma nova era

Cabo Verde ocupa uma posição que a cartografia transforma em argumento irrefutável. Situado no Atlântico Médio, é o país africano geograficamente mais próximo dos Estados Unidos, está a três horas e meia do Brasil e a menos de uma hora de Senegal. Esta centralidade não é apenas turística, ela é estratégica, diplomática, militar e económica. É o cruzamento entre as duas faces do Atlântico, entre África e América, entre o Sul global e o Norte desenvolvido.

Não foi um acaso, neste mês de abril de 2026, que o Comandante das Forças Navais dos Estados Unidos para a Europa e África visitou o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Cabo Verde. Não é por acaso que a nova Diretiva Estratégica das Forças Armadas para o triénio 2026-2028 coloca a segurança marítima no centro das suas prioridades, organizando a ação em torno de quatro grandes eixos: Modernização, Valorização, Credibilidade e Ligação. Cabo Verde está a ser levado a sério pelos grandes. A questão é se nós nos estamos a levar a sério a nós próprios.

A presidência da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, a ZOPACAS, que Cabo Verde assumiu, é outro sinal de que o nosso papel no Atlântico não é figurativo. É real, é crescente, e é procurado por outros. Num Atlântico que recupera centralidade estratégica global, Cabo Verde não pode ser um espectador, nós temos de nos assumir como um ator de pleno direito.

De arquipélago a plataforma, a ambição de ser um farol

Em dezembro de 2026, Cabo Verde acolherá o Web Summit Spotlight, o primeiro evento desta marca global realizado em solo africano. Esta não é apenas uma conquista de prestígio, é um sinal inequívoco de que o mundo reconhece em Cabo Verde algo raro, uma estabilidade democrática, uma abertura ao investimento, uma infraestrutura capaz, e uma visão estratégica clara. Num continente africano onde a democracia enfrenta recuos preocupantes, Cabo Verde afirma-se como alternativa, como referência, e como prova de que é possível.

É este o verdadeiro valor diferenciador de Cabo Verde no contexto global, com uma combinação entre a sua posição geográfica privilegiada e a solidez das suas instituições democráticas. Num mundo em que a geopolítica se tornou transacional e imprevisível, a fiabilidade tem um preço, e Cabo Verde, ao longo de 35 anos de democracia, acumulou um capital de credibilidade que poucos países do mundo, insulares ou não, conseguem apresentar.

Estas variáveis são aquelas que criam uma combinação que transforma Cabo Verde de arquipélago em farol. Um farol não existe para si próprio, ele existe para guiar quem navega em águas incertas. E num Atlântico cada vez mais disputado, cada vez mais carregado de tensões que não escolhemos, mas que nos afetam, ser uma referência de estabilidade, de abertura e de visão estratégica não é apenas uma honra, é uma responsabilidade. A questão que se coloca agora não é se Cabo Verde tem condições para desempenhar esse papel. A questão é se temos a coragem e a determinação para o fazer sem hesitar.

O que Cabo Verde deve fazer com este destino

Um farol não pode vacilar. A luz que emite tem de ser constante, previsível e confiável. É isso que se espera de Cabo Verde no Atlântico e no mundo, um país onde a democracia continue a ser uma referência de estabilidade numa região onde a instabilidade prolifera, onde as instituições continuem a funcionar como garantia, não como obstáculo, e onde a política externa seja guiada pela bússola dos valores e não apenas pelos ventos conjunturais dos interesses imediatos.

E que a nossa voz nas instâncias internacionais seja cada vez mais assertiva na defesa de uma nomenclatura que nos faça justiça, porque as palavras constroem realidades e devemos ter a coragem de sermos nós a construir a nossa própria identidade. Esta é a realidade que deveremos querer construir para Cabo Verde, e para todas as nações insulares que partilham o nosso oceano, uma realidade que começa por recusar ser chamado de pequeno.

As ilhas ensinaram ao mundo muitas coisas. Ensinaram que a resistência pode nascer do isolamento, que a criatividade floresce quando os recursos escasseiam, que a identidade se forja não apesar das dificuldades, mas através delas, e que o mar, longe de ser uma barreira, é sempre, como Kennedy intuiu, o caminho de regresso ao que somos.

Cabo Verde tem tudo o que é necessário para ser o farol que o Atlântico merece. A geografia deu-nos o lugar, a história deu-nos o carácter. a democracia deu-nos a legitimidade, e o oceano deu-nos a dimensão. Falta apenas uma coisa, a decisão coletiva de não desperdiçar este destino, e de chegar à “mesa do Mundo” exigindo, com clareza e sem hesitação, o lugar que nos pertence.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1274 de 29 de Abril de 2026.

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Autoria:Paulo Veiga,4 mai 2026 8:25

Editado porAndre Amaral  em  4 mai 2026 10:19

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