Falta de pluralismo no debate de ideias sobre identidade histórica de Cabo Verde

PorA Direcção,5 jun 2026 8:59

Por iniciativa do presidente da república realizou-se na semana passada, nos dias 28, 29 e 30 de Maio um Encontro Internacional sobre a Crioulidade que reuniu personalidades políticas, académicos e artistas nacionais e de outras nacionalidades vindas de vários países da bacia do Atlântico. Segundo o PR, a ideia era reflectir sobre aquilo que a experiência história dos povos pode oferecer ao futuro.

Pelas intervenções feitas, porém, fica-se com a impressão que faltou a pluralidade de experiências desejada, em particular da parte cabo-verdiana. Os painelistas convidados na generalidade alinham pela única corrente de pensamento sobre a história e a identidade cabo-verdiana que é aparentemente aceite na universidade pública. Não estranha que em sintonia, nas suas intervenções, o PR colocando-se mais uma vez no papel de activista, tenha reafirmado o recente encontro da Crioulidade na Praia como projecto da humanidade e renovado o apelo à oficialização da língua cabo-verdiana.

O evento pode ter sido organizado para partilhar experiências da crioulidade, mas, de facto, foi oportunidade para mais um exercício no quadro do processo em curso de reafricanização dos espíritos. Não faltaram citações de Amílcar Cabral no discurso do PR e de outros intervenientes. De um professor da UniCV ouviu-se que “só faz sentido falar de governança, diplomacia e cooperação crioula como parte de uma estratégia para reforçar a resistência pan-africana contra a dominação eurocêntrica do sistema do mundo actual. Sem essa âncora política, a crioulidade transforma-se num folclore inofensivo ao poder”. Ou seja, para se falar da experiência de Cabo Verde deve-se recusar o apelo dos Claridosos de “fincar o pé na terra” e falar a partir de fora, a partir das reflexões sobre a luta de libertação na Guiné ou então subordinando a análise da realidade do país às necessidades do pan-africanismo.

“Fincar o pé na terra” poderia mostrar logo as diferenças básicas entre a realidade cabo-verdiana e as dos países ou das ilhas convidados para o encontro: território deserto de pessoas quando “achado” enquanto a generalidade das ilhas das caraíbas era habitada; arquipélago sujeito a secas periódicas ao contrário de ilhas com chuvas regulares e intensas; agricultura praticamente limitada a cultivos de sobrevivência versus economias de plantação para produção de produtos ricos de exportação (açúcar, tabaco, algodão) para Europa, ilhas isoladas e muitas vezes deixadas quase abandonadas, ao contrário de ilhas e países com comércio crescente com várias partes do mundo.

Outrossim, a perda de população para os territórios mais promissores (Brasil), as mortandades causadas pelas secas periódicas e o isolamento que limitava o fluxo humano para ilhas e o consequente empobrecimento geral teriam contribuído em Cabo Verde para uma vida muitas vezes no fio da navalha ou nos limites da sobrevivência. Menor rigidez na estratificação social, menos dificuldade em aceder a propriedade e constrangimentos para instalação de migrantes terão resultado num nível de mestiçagem sem paralelo nos territórios ricos das plantações em que a riqueza produzida suportava gente rica e branca na casa grande e escravos negros na sanzala. Não admira que nas circunstâncias de Cabo Verde, diferentemente do que se passa em Guadalupe, Martinica, Jamaica, Maurícias em que os proprietários de terras são de origem europeia colonial, se depara com a realidade de não haver correlação directa entre ter propriedade e a cor da pele.

O enorme alcance desse processo de cabo-verdianização vê-se pelo uso do crioulo por todas as classes sociais e em todas ilhas, cada uma com a sua variedade. Diz do nível de abandono a que as ilhas foram votadas e da pobreza das suas gentes o facto de que, em Cabo Verde, o uso do crioulo se ter generalizado a um nível sem paralelo em outras realidades “atlânticas”. E é assim porque quando há riqueza, o Estado está presente, impõe a sua língua, as classes mais abastadas e as da classe média fazem questão de a usar. Toda essa excepcionalidade que veio de se viver no limite terá contribuído para a emergência da consciência da nação, a ideia de que mesmo sob a bandeira portuguesa toda a gente nas ilhas sentia-se cabo-verdiano.

Chega-se ao 5 de Julho de 1975 com essa consciência de nação, um bem precioso que outros países recém-independentes, criados como foram artificialmente na conferência de Berlim que dividiu a África, gostariam de ter para enfrentar os desafios do desenvolvimento com um outro foco e motivação. Para alguns deles falou-se de “forjar nações na luta” para conseguir o grau de unidade que facilita a implementação de políticas. Paradoxalmente, em Cabo Verde que já era nação antes da independência procedeu-se a um processo chamado de reafricanização dos espíritos que tende a abrir feridas e a desconstruir a nação com o falso dilema Europa ou África quando todos há muito que sentiam confortáveis como cabo-verdiano.

Em consequência, toda a história foi revista para que o passado aceitável fosse só aquele que traçava um caminho que culminasse na luta do PAIGC e na independência nacional. Os pontos altos deviam ser as revoltas porque constituiriam um prelúdio para luta que viria depois. Também importante era invocar as memórias da fome para fazer a população eternamente grata aos libertadores e mantê-la enredada nas malhas da dependência do Estado. No mesmo sentido, reviver um passado de escravatura foi considerada fundamental para inculcar um sentimento de vítima que precisa de ser resgatado.

Como disse um ex-Ministro de Educação “a obra de António Carreira (Cabo Verde: formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878)) é aquela que mais fez para a produção e sistematização de elementos teóricos para uma possível unidade entre Guiné e Cabo Verde”. Atingir esse objectivo do PAIGC de unidade foi a razão por que o livro se tornou essencial nas escolas e nos círculos de estudos sobre Cabo Verde. Quanto aos intelectuais, escritores e artistas que realmente estiveram presentes na emergência da consciência da nação foram considerados “lixo da nossa história” e ameaçados de serem metidos num saco e lançados ao mar.

Há, pois, uma razão para a falta de pluralismo no debate de ideias sobre a identidade histórica de Cabo Verde que empobrece a sua experiência histórica e dificulta aos outros estudiosos elementos para uma real compreensão do seu percurso ao longo dos séculos. Viu-se isso no último encontro da Praia e é notório em eventos institucionais similares, nas actividades universitárias e nos debates na comunicação social pública. O Estado, as universidades e a comunicação social não deviam veicular ideologias e muito menos ideologia única. Mas como não é assim, por isso é que se depara com activismo de titulares de órgãos de soberania, de académicos e de jornalistas, sem a devida consideração pela unidade da nação que devem preservar, a pluralidade de expressão que deve existir nas universidades e o confronto de ideias das diversas correntes de opinião que se requer dos médias.

Depois de toda a crise gerada pelo manual da língua cabo-verdiana que foi retirada do sistema de ensino na sequência do parecer do Ministério Público a considerar que a adopção de um regime de escrita para o crioulo devia ser aprovada pela Assembleia Nacional, a questão da oficialização do crioulo regressou à baila pelo PR no encontro internacional da crioulidade. Talvez estava-se a deixar um tempo para não se ter que enfrentar o facto de que também o decreto-lei que aprovou o ALUPEC poderá não estar conforme. Sabe-se que o tema é fracturante, mas mesmo assim pressiona-se, marcam-se datas para oficializar, sabendo que não são factíveis considerando o tempo exigido para o cumprimento dos procedimentos necessários para a revisão constitucional.

É como se não se desse a devida atenção à importância de Cabo Verde ser realmente uma nação e que a manutenção da sua unidade é uma vantagem a preservar e a acarinhar. Em simultâneo e aparente contradição dá-se a impressão de valorizar a crioulidade apresentando-a como projecto de futuro para a humanidade. Mas isso parece que nem o professor da UniCV acredita que o “mundo está a tornar-se crioulo”. Sempre atento às manobras dos poderes coloniais avisa que poderão estar a promover uma crioulização assimétrica.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.

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Autoria:A Direcção,5 jun 2026 8:59

Editado porAndre Amaral  em  5 jun 2026 13:19

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