Vanessa tinha 27 anos, Samira tinha 34. Ambas foram mortas pelos seus companheiros

PorAndre Amaral,23 dez 2018 7:34

​Em pouco mais de 72 horas duas mulheres foram assassinadas pelos companheiros. Uma no Sal e outra na Praia. No entanto, segundo o ICIEG, só em 2018 registaram-se sete casos de homicídio de mulheres, a morte de dois agressores e ainda a tentativa de suicídio de um terceiro.

O mais recente aconteceu este domingo, na Praia, no bairro da Achada Grande Frente onde Samira, uma mulher de 34 anos, foi estrangulada pelo companheiro, de 33 anos, que de seguida se suicidou saltando do terceiro andar de um prédio.

A Polícia Judiciária contactada pelo Expresso das Ilhas disse que até à altura do crime a vítima não tinha apresentado qualquer queixa na PJ mas esclareceu igualmente que queixas de Violência Baseada no Género são da competência do Ministério Público ou da Polícia Nacional.

E foi à Polícia Nacional que Vanessa Tavares apresentou queixa quando começou a ser perseguida pelo ex-companheiro e pai de uma das suas filhas.

Segundo apurou o Expresso das Ilhas junto de familiares da vítima, Vanessa depois de terminar o relacionamento com o companheiro terá começado a ser perseguida e assediada por este.

A família temendo pela segurança da jovem enviou-a para o Fogo para que ela pudesse recomeçar a sua vida. Algo que acabou por não acontecer, porque o antigo companheiro de Vanessa descobriu o seu paradeiro e foi ter com ela à Ilha do Vulcão.

Mais uma vez Vanessa viu-se obrigada a regressar à Praia numa tentativa de encontrar a segurança e mais uma vez o antigo companheiro a seguiu.

Depois de alguns meses na Praia, de novo acossada pelo pai da sua filha, Vanessa faz de novo as malas e parte para o Sal. Mais uma tentativa de reconstruir a vida.

Mais uma vez foi seguida. Desta vez com os resultados conhecidos.

Um ano depois de ter chegado ao Sal, Vanessa foi morta “com recurso a uma arma branca” na localidade de Alto de São João, explicou a Polícia Judiciária. “O suspeito também é natural de Santiago e ficou com uma perna fracturada, depois de duas tentativas de suicídio”, acrescentou ainda a PJ.

Mas a verdade é que segundo familiares ouvidos pelo Expresso das Ilhas, Vanessa “apresentou queixa contra ele na Polícia Nacional, mas nada foi feito para a proteger”.

Vanessa tinha 27 anos e deixa duas filhas: uma de 3 anos e outra de 7.

Preocupante

“É uma situação que tem estado a preocupar-nos e que tem assumido contornos preocupantes”, disse a psicóloga e técnica do ICIEG, Kátia Marques à TCV. “Podemos ver que para além de todo o trabalho que tem sido feito, penso que nunca se falou tanto da questão da VBG como se tem falado agora, mas mesmo assim estamos a registar casos que nos deixam boquiabertos como foi o que aconteceu esta semana”, acrescentou.

Nilson Mendes, outro psicólogo, ouvido neste caso pela Inforpress, defende que o “feminicídio é o capítulo final de um histórico de violência” e que devem ser capazes de se libertarem deste ciclo de agressões, físicas ou verbais.

Nilson Mendes afirmou que o ciclo, geralmente, começa com a humilhação e desclassificação da mulher.

“E pode progredir para a violência física. No homem que agrediu uma vez, a chance de voltar a ter um comportamento violento é grande”, acrescentou, adiantando que “a violência contra a mulher tem uma expressão preocupante no país”.

Segundo disse aquele especialista, em quase todos os casos de feminicídio o homem faz ameaças prévias.

“Não é um crime que vem do nada, ele se constrói ao longo do tempo. O que ocorre é uma intensificação de violência, que nem sempre é impedida a tempo”, afirmou este psicólogo, para quem “o feminicídio é um crime de género, motivado pelo machismo e por uma sensação de posse”.

Por isso, defendeu Nilson Mendes que é “fundamental” para a saída da situação que a mulher tenha consciência da vitimização o mais precoce possível.

Questionado acerca do que leva um homem a cometer feminicídio, Nilson Mendes defendeu que é preciso analisar muitos factores.

“Primeiro são geralmente, homens dominadores que, em muitos casos, apresentam problemas psiquiátricos, com a perturbação de personalidade anti-social, também conhecido como psicopatia ou sociopatia. Neste caso, não têm capacidade de empatia e não conseguem considerar os sentimentos da outra pessoa. A frieza é uma característica desta perturbação. Mas é preciso analisar cada caso, para saber se, de facto, se trata de um problema psiquiátrico”, completou.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 890 de 19 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Andre Amaral,23 dez 2018 7:34

Editado porFretson Rocha  em  18 jun 2019 23:22

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