"Teremos que ser muito mais acutilantes para que ocorra mudança comportamental” - Maritza Rosabal

PorChissana Magalhães,7 ago 2018 15:39

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Maritza Rosabal
Maritza Rosabal (Inforpress)

A ministra da Educação, Família e Inclusão Social reconheceu hoje, na Cidade da Praia, a necessidade de se trabalhar com mais intensidade e a todos os níveis para que casos de feminicídio, como ocorrido esta semana em São Nicolau, não se tornem recorrentes.

Maritza Rosabal falava aos jornalistas à entrada do Encontro Nacional de Sensibilização e Informação de Homens na promoção e Igualdade de Género e Combate à Violência Baseada no Género (VBG), cuja abertura presidiu esta manhã, e que prossegue até quarta-feira (08).

“Ao nível das escolas estamos a transversalizar a abordagem de género nos currículos. Significa proporcionar às nossas crianças e adolescentes espaços de vivência e reflexão de formas diferentes de relacionar-se, de relacionar-se numa posição de igualdade, donde não podemos impor o poder ao outro e sim negociar. Temos que reflectir sobre como nos relacionamos e como exercemos poder”, afirmou a ministra que analisa a VBG como uma forma de impor a vontade aos outros, uma forma de exercer poder sobre o outro, tendo por isso destacado o papel da Laço Branco na criação e promoção de espaços de reflexão nas comunidades, nomeadamente através do teatro, “um instrumento potente e que leva as pessoas a reflectir”.

Entretanto, a governante que tem a tutela da política de Género reflecte que a morte de mulheres às mãos dos seus companheiros “é a formas mais extrema e violenta do exercício do poder, de querer limitar o outro” e num contexto em que multiplicam-se em Cabo Verde os casos de feminícidio “isso nos alerta que temos que trabalhar com muita maior intensidade a todos os níveis. Teremos que ser muito mais acutilantes e muito mais profundos, e incidir para que realmente ocorra mudança comportamental.”

Presidente da Rede Laço Branco, que com a ICIEG e a União Europeia co-organiza este encontro, Clóvis Silva diz estar a falhar uma intervenção mais concertada entre a sociedade e os poderes públicos “para que façamos esse trabalho preventivo com muito mais acutilância”.

“Ou seja, tudo isso é fruto de um exercício distorcido da masculinidade. Estamos a educar os nossos filhos e o resultado que temos hoje é fruto de que não estamos a fazer isso correctamente, ou estamos falhar onde deveríamos estar a corrigir”.

Na leitura do jurista a sociedade “não tem feito absolutamente nada para isto mudar e este trabalho que estamos fazer é um trabalho que deveria estar a ser multiplicado a níveis muito mais elevados e mais amplos, sob pena de continuarmos a ter estes casos”, aponta também em comentário ao mais recente caso de VBG que resultou na morte de uma mulher às mãos do ex-companheiro.

No entanto, para Clóvis Silva não se pode dizer que Cabo Verde está a caminhar para trás. “Mas não estamos a melhorar. Os níveis continuam a ser estes. Deixa-nos preocupados porque é recorrente mas, é fruto de um tempo. Não acontece sem antecedentes”.

“Ao longo destes sete anos, o que tem acontecido é que os tribunais estão assoberbados, porque há uma parte que tem que ser assumida pela sociedade civil e organizada. Como essa parte - preventiva e de reintegração e ressocialização – não está a ser assumida, tudo vai desembocar nos tribunais. Os tribunais estão abarrotados de processos e não estamos a conseguir responder a tempo porque a sociedade não está a assumir o seu papel”, diz, respondendo sobre o funcionamento dos tribunais e cumprimento da Lei da VBG.

Uma das painelistas convidadas, Carla Carvalho abriu o Encontro de sensibilização e Informação abordando a situação das mulheres no meio rural.

“Quando analisamos os indicadores com dados desagregados, reparamos que os indicadores em relação ao meio rural são mais precários quando comparados com os homens do meio rural e com as mulheres do meio urbano. Excepto em relação à taxa de desemprego que é menos mas que se prende com actividades que as mulheres desempenham e que não são remuneradas. As mulheres do meio rural encontram-se numa situação de maior vulnerabilidade, tanto em termos socioeconómicos como em termos de direitos sexuais, direitos reprodutivo e mesmo em relação à VBG”, aponta.

A investigadora refere a necessidade de as instituições que procedem á recolha de dados melhorarem essa recolha e a sistematização desses dados “porque quando vamos analisar os dados do INE conseguimos desagregar e comparar, tanto por sexo como em relação a meio rural e meio urbano. Mas, quando são outras instituições a fazer essa recolha não há essa sistematização. Por exemplo, quando se refere São Miguel ou Santa Cruz, são concelhos rurais mas entretanto existem lá cidades, tem um meio urbano lá. Então é preciso melhorar essa informatização dos dados para poder compreender melhor a situação das mulheres no meio rural”, e lembra que a melhoria na recolha e tratamento dos dados é essencial para a definição de estratégias e políticas de enfrentamento de situações como essa de maior vulnerabilidade e precariedade das mulheres nos meios rurais em relação á VBG, entre outras.

Encontro Nacional de Sensibilização e Informação de Homens na promoção e Igualdade de Género e Combate à Violência Baseada no Género que tem como propósito reforçar o engajamento dos homens no combate à VBG decorre no salão da Assembleia Nacional e termina amanhã com pautas como a situação do género nas comunidades africanas residentes em Cabo Verde, a experiência da Rede laço Branco no engajamento de homens na promoção da Igualdade de Género e combate à VBG, o programa de reinserção de homens arguidos por VBG, entre outros tópicos.

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Autoria:Chissana Magalhães,7 ago 2018 15:39

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  17 nov 2018 3:23

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