A doença de que não se fala

​Passou despercebido, mas em Março assinalou-se o mês mundial de consciencialização sobre a Endometriose – Março Amarelo. Fomos saber mais sobre uma doença que afecta uma em cada dez mulheres em idade fértil.

Talvez o nome lhe soe estranho, mas a endometriose é muito mais comum do que se possa imaginar. O diagnóstico é difícil, pois os sintomas mais evidentes apontam para outro tipo de patologias ou são rapidamente associados “àquela altura do mês”, a menstruação.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 180 milhões de mulheres em todo o mundo sofrem da doença. Um número significativo de casos não estará sequer diagnosticado. Podem passar anos entre perceber que alguma coisa não está bem e um diagnóstico conclusivo.

Cientificamente, endome­triose é a designação dada ao processo clínico durante o qual as células que constituem o endométrio – a membrana mucosa que reveste a parede uterina – encontram-se fora da sua localização normal, no peritónio pélvico – uma membrana que cobre a parede abdominal - ovários, bexiga, apêndice, intestinos ou até no diafragma. A ginecologista Fátima Sapinho ajuda-nos a perceber o processo.

“Esse endométrio é uma membrana mucosa que se ‘descama’ e que, no ciclo menstrual, tem várias alterações. O endométrio prepara-se, por exemplo, para ser o ‘ninho para o ovo’, que é o óvulo já fecundado. Se não houver uma gravidez, essa mucosa, e tudo o que se preparou para ser um‘ninho’, descama-se e solta-se em forma de menstruação”, explica.

Cólicas menstruais pro­gres­sivas e incapacitantes, dor profunda na relação sexual e dor pélvica fora do período menstrual. Sintomas indicativos da possível presença de um caso de endometriose. Podem ocorrer outras queixas, como diarreia, modificação da consistência das fezes no período pré-menstrual e mesmo dor ou sangramento ao evacuar ou urinar durante a menstruação. Nota-se uma tendência de agravamento destes sintomas ao longo dos anos.

A doença foi descrita pela primeira vez em 1860, mas continua a ser considerada um enigma, com causas e evolução desconhecidas. De acordo com a médica ginecologista Adelaide Miranda Lima, conhecida em São Vicente como ‘Dra. Laidinha’, apesar de várias teorias e linhas de investigação, os cientistas ainda não conseguiram compreender totalmente a endometriose.

“A causa da endometriose ainda é obscura. Não há uma relação directa com o cancro, apesar de existirem alguns tipos de cancro do ovário que se pensa estarem ligeiramente ligados à endometriose. Há factores genéticos, pode ser hereditário”, afirma, sem certezas.

Admite-se a influência de factores raciais, já que parece haver um risco mais elevado em mulheres caucasianas. Também se aceita a probabilidade de riscos ambientais, como a exposição a substâncias tóxicas. Igualmente, fala-se de riscos sociais, stresse.

Certo é que, à escala global, a endometriose afecta dez por cento das mulheres em idade reprodutiva. Embora a maioria dos diagnósticos aconteça entre os 25 e os 35 anos, a doença poderá começar alguns meses depois da primeira menstruação.

Uma avaliação ginecológica minuciosa é fundamental, destaca a médica Fátima Sapinho.

“Indo para uma consulta de ginecologia, fazendo um interrogatório minucioso sobre todo o processo, quando começou e como continua. Exame ginecológico, ecografias, ecografias intravaginais”.

Em 2011, o estudo Global Study of Women’s Health, realizado em 10 países, mostrou que dois terços das pacientes diagnosticadas com endometriose tinham procurado ajuda para alívio dos sintomas antes dos 30 anos.

Antónia Mosso, 44 anos, recebeu o diagnóstico de endometriose em 2016, numa consulta em Portugal, após 10 anos de fortes dores abdominais, acompanhadas de idas constantes ao médico.

“Passava uma semana deitada sem conseguir fazer nada, depois daquela semana precisava de mais alguns dias para recuperar. Ficava sem forças. Como é que fazemos para conciliar o trabalho no estado em que ficamos?”, questiona.

“Para mim, foi extremamente difícil, sempre gostei de trabalhar, sempre fui assídua, mas comecei a reduzir as actividades profissionais e aquelas que fazia era com grande esforço”, relembra.

Estima-se que seis em cada dez mulheres que sofrem com dores incapacitantes, durante o período menstrual, possam ter endometriose. Nalguns casos, a dor diminui com analgésicos, anti-inflamatórios ou com a pílula.

Aos 34 anos, Solange faz parte da estatística. Os sintomas começaram em 2011, o diagnóstico foi feito em 2015, mais uma vez em Portugal. Durante este período, dependeu de comprimidos.

“A minha auto-estima ficava em baixo, porque as dores eram constantes. Não conseguia conviver, nem conversar com ninguém. No trabalho, a minha situação dificultava-me imenso e a família também sofria comigo”, revive.

A ginecologista Adelaide Miranda Lima explica que há uma diferença entre uma cólica menstrual e uma cólica causada pela endometriose.

“A cólica da endometriose é uma dor mesmo horrível e na maioria das vezes têm que recorrer ao banco de urgência para fazerem medicação”, clarifica.

Dados e resposta

Em Cabo Verde, as profissionais de saúde ouvidas para esta reportagem desconhecem a existência de dados exactos sobre a prevalência da doença no país. Sem sucesso, o Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza tentaram obter números junto do Ministério da Saúde e da Direcção Nacional de Saúde.

Conhecer para resolver terá que ser o caminho, alerta Fátima Sapinho.

“A necessidade sempre existe, não só para a endometriose mas para várias outras doenças, mas a endometriose, sendo uma doença que dá um grande sofrimento às mulheres, poder-se-ia fazer um projecto ou um estudo universitário”, ambiciona.

Antónia Mosso pede estruturas de saúde com profissionais capacitados para diagnosticar e tratar a patologia.

“Sou uma privilegiada, apesar de todo o cenário por que passei. Consegui e tenho possibilidades para viajar a qualquer momento. Mas quantas pessoas no país não conseguem sair ou têm problemas para obter visto ou a junta médica?”, pergunta.

Percebe-se que o sofrimento contínuo provocado pela endometriose tem um impacto negativo na vida das mulheres, obrigadas a faltar ao trabalho e a lidar com problemas familiares e conjugais.

À disposição das pacientes existem vários tipos de tratamentos, alguns dos quais não invasivos, que podem reduzir o número total de procedimentos. Nalguns casos, a cirurgia apresenta-se como a melhor alternativa. Com o diagnóstico certo e o tratamento adequado é possível recuperar qualidade de vida.

Infertilidade

Como uma das principais causas de infertilidade na mulher, a endometriose apresenta um estigma acrescido. A cada dez pessoas com endometriose, duas a cinco têm algum tipo de problema em engravidar. Mariana (nome fictício) recebeu recentemente o diagnóstico e foi confrontada com uma doença da qual nunca tinha ouvido falar e contra a qual ainda luta. Em 2017, teve uma gravidez fracassada.

“Desde sempre tive muitas dores durante o período. Quando comecei a usar a pílula, as dores aliviaram um pouco. Em 2016, resolvi que queria engravidar e suspendi a pílula. Nesta altura, comecei a ter dores com maior intensidade e as minhas consultas médicas começaram a ficar mais regulares. Nas consultas, durante as ecografias, sempre detectavam alguns quistos. Quando repetia a ecografia, depois da menstruação, às vezes esses quistos apareciam, outras vezes não. No início de 2017 fiquei grávida, mas acabei por perder o bebé. A partir daí, comecei a ter dores ainda mais fortes, mesmo durante a relação sexual. Passado alguns meses, diagnosticaram-me endometriose”, revive.

De acordo com a Associação Mulher Endo, uma organização portuguesa de apoio à mulher com endometriose, embora não possa ser feita uma ligação causa-efeito, “a endometriose é reconhecida como um factor de risco importante para a infertilidade”.

Antónia afirma que este é um dos fardos mais pesados da doença.

“Há mulheres que não têm este sonho e estão no direito delas, mas o meu sonho era conseguir ter uma criança”, desabafa.

Estima-se em oito a doze anos o tempo médio que separa o aparecimento dos sintomas e o diagnóstico da endometriose, reconhecida pela OMS como uma doença social e um problema de saúde pública. A comunidade científica chama a atenção para as consequências da progressão da doença, nas suas formas mais graves. Não sendo uma doença maligna, as formas mais graves de endometriose comportam-se como um cancro, invadindo a pélvis. O diagnóstico e tratamento precoces são importantes para prevenir a infertilidade e outras complicações.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 906 de 10 de Abril de 2019.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira, Lourdes Fortes,14 abr 2019 9:03

Editado porFretson Rocha  em  24 abr 2019 15:19

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