Falhas na gestão do primeiro caso de COVID-19 em São Vicente levam à abertura de inquérito

Paciente infectada com o novo coronavírus demorou vários dias até ser considerada um caso suspeito.

No espaço de algumas horas, São Vicente tornou-se o principal foco de preocupação quanto à evolução da epidemia de COVID-19 em Cabo Verde. A ilha, que até ao final da semana passada não registava qualquer caso confirmado da doença, teve o seu primeiro teste positivo. A forma como o processo foi conduzido levanta dúvidas sobre a coordenação do sistema de saúde. Governo reconhece falhas.

Foi na noite de sexta-feira (03/04) que a situação se alterou. Através de comunicado, o Ministério da Saúde anunciou o resultado positivo ao teste realizado a uma paciente internada no Hospital Baptista de Sousa. Na nota, o governo indicava que “os procedimentos previstos na abordagem de casos suspeitos e positivos foram cumpridos”.

Sábado, em conferência de imprensa, o ministro da tutela, Arlindo do Rosário, avançou com mais detalhes. Soube-se que a paciente, de 56 anos, residente no Mindelo, começou a apresentar sintomas a 18 de Março. Dia 25, depois de ter experimentado, sem sucesso, a auto-medicação, dirigiu-se à Medicentro, uma clínica privada do Mindelo, onde lhe foi diagnosticada uma pneumonia. O quadro clínico haveria, contudo, de se agravar, levando-a ao banco de urgência do Hospital Baptista de Sousa (HBS) no dia 27 de Março. Apesar de ter ficado internada, só na terça-feira seguinte (31) passou a constar das actualizações diárias da situação epidemiológica, como caso suspeito.

Sem histórico recente de viagens ao estrangeiro, não havia sido considerada a hipótese de estar infectada com COVID-19. A filha regressou no final de Fevereiro de uma viagem à Alemanha, mas nunca apresentou sintomas associados à infecção pelo novo coronavírus.

“Todos os profissionais, pelo menos os que ontem [sexta-feira] tive oportunidade de contactar, transmitiram uma mensagem de confiança e serenidade, dizendo que desde o momento de entrada da senhora no Banco de Urgência tomaram todas as devidas precauções”, assegurava sábado o ministro da Saúde.

A contrariar a convicção inicial do governante, rapidamente se percebeu que tinham sido cometidos erros que resultaram num atraso do diagnóstico e na exposição de um grande número de pessoas, incluindo profissionais de saúde, a um doente que se viria a descobrir estar infectado.

Isso mesmo foi admitido domingo, por Arlindo do Rosário, quando, em nova conferência de imprensa, revelou que as autoridades sanitárias da ilha, e a direcção do HBS reconheceram “falhas na condução do processo”. Foi determinada a abertura de um inquérito.

Ouvido pela TCV, o director da Medicentro, Andrés Fidalgo, garantiu no mesmo dia que foi cumprido o protocolo emanado pelo Ministério da Saúde.

Facto é que mais de cem pessoas foram colocadas em quarentena, entre as quais quadros da clínica privada e do hospital central. Sete pessoas foram testadas – com resultado negativo – incluindo a filha e o marido da paciente internada.

“Atenção especial”

Ao analisar a situação, o médico José d’Aguiar, durante vários anos delegado de Saúde de São Vicente, defende que, no actual contexto, qualquer doente que apresente sintomas respiratórios deve merecer “atenção especial”.

“A primeira coisa a fazer é isolar a pessoa, mesmo que seja isolamento domiciliar, se os sintomas não são muito graves, e proceder a um seguimento adequando”, comenta.

Para o clínico, com vasta experiência em saúde pública, há que aprender com os erros cometidos, evitando a sua repetição.

“Tentar recuperar no mais curto espaço de tempo possível os profissionais de saúde que neste momento estão confinados, para que possam retomar as suas funções”, prioriza.

Até este momento, as autoridades sanitárias não têm resposta sobre a origem da cadeia de transmissão que levou ao contágio da paciente hospitalizada. A investigação epidemiológica prossegue.

“Não havendo um foco específico para ser atacado e isolado, o processo será difuso. Não sabemos ao certo onde incidir a nossa atenção. Essa difusão irá, até certo ponto, fragilizar-nos um pouco. Temos que rentabilizar os recursos e rentabilizar difusamente não dá. Quando já há transmissão comunitária, se é o caso, teremos que estar vigilantes e estabelecer um sistema para abarcar todos os eventuais casos que vão aparecendo e isola-los”, observa José d’Aguiar.

Cabo Verde tinha, até esta terça-feira, sete casos confirmados de COVID-19. Quatro na Boa Vista, dos quais resultou um óbito. Dois na Praia e outro em São Vicente.

A pandemia do novo coronavírus infectou perto de 1,5 milhões de pessoas em todo o mundo, provocando cerca de 80 mil mortes. 209 países já confirmaram casos positivos. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 958 de 8 de Abril de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira, Fretson Rocha,11 abr 2020 9:26

Editado porDulcina Mendes  em  3 jun 2020 23:20

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