Vírus inviabiliza Festa da Bandeira de São Filipe comemorada há mais de 100 anos consecutivos

PorExpresso das Ilhas, Inforpress,21 abr 2020 12:51

Com em todos os anos, por esta ocasião, desde 1917, altura em que o grupo Sete Estrelos desenterrou a bandeira, a então vila e depois cidade de São Filipe preparava-se para celebrar uma das maiores festas tradicionais do país.

Nos últimos 102 anos, a bandeira de São Filipe, em homenagem ao Santo Filipe, o primeiro nome atribuído à ilha do Fogo, sempre foi assinalada de forma ininterrupta, e nem mesmo as secas cíclicas, a segunda grande guerra ou as erupções vulcânicas impediram a sua celebração.

Desde que os integrantes do grupo Sete Estrelos tiveram, em 1917, a ousadia de desafiar a lenda e “desenterrar” a bandeira, e nas últimas quatro décadas e meia (desde 1974), à festa de cariz profano-religioso foi agregado um conjunto de outras actividades culturais, recreativas e desportivas que a mesma vinha ganhando outra dimensão.

Mas este ano devido à pandemia do novo coronavírus (COVID-19) tudo vai ser diferente e ficará registado na história da celebração da tradicional festa da bandeira de São Filipe.

A tradição manda que a bandeira deve ser celebrada mesmo nas circunstâncias mais adversas e até o falecimento de pessoas próximas justifica o não cumprimento do ritual da bandeira que deve ser escrupulosamente respeitada.

Mas infelizmente, este ano não será possível cumprir as tradições e para evitar o enterro da bandeira, previsto caso ninguém a resgatar para a festejar no ano seguinte, o que não é o caso, o máximo que os festeiros e a Casa das Bandeiras podem fazer é rezar uma missa restrita e repassar a bandeira para o festeiro deste ano para celebrar no próximo ano, esperando que a luta contra a pandemia seja vencida.

O cenário vivido hoje nunca foi imaginado por qualquer foguense, residente na ilha ou fora dela. Era mesmo impensável uma situação da não realização da Festa da Bandeira, que coincide com dia do município de São Filipe, que nos últimos anos ganhou uma dimensão internacional e um autêntico cartaz turístico para a ilha.

Numa situação normal, por estas alturas, a cidade ganhava um colorido e uma movimentação anormal com a chegada de centenas de emigrantes, sobretudo dos Estados Unidos da América, e pessoas das outras ilhas para as tradicionais festas.

Não há este ano o toque de tambores dirigidos pelo mestre Valdemiro Dias, nem foguetes a rasgar o céu de São Filipe a anunciar o pilão (início do ritual da bandeira) ao som das vozes de célebres coladeiras como Idalina, Natanel e Maria Tchuneta, nem o cavalgar dos cavalos no hipódromo e no Alto de São Pedro na célebre cavalhada que antecede a passagem da bandeira, depois do almoço de cavaleiros. Talvez a missa em honra ao Santo Filipe.

As unidades hoteleiras e pensões nos anos anteriores, por este período, mostravam-se pequenos para responder à demanda dos visitantes, estão todos, ou quase todos, de portas fechadas, o comércios e serviços ligados à restauração fechados, sem ligação aérea e marítima, contrastando com cenários de anos anteriores em que a demanda era tanta que a companhia aérea não tinha capacidade para transportar todos aqueles que queriam dar “o saltinho à ilha para festejar o 1º de Maio”.

A própria cidade de São Filipe apresenta um ar melancólico e quase sem vida, sobretudo no período da tarde, após o regresso das pessoas do interior às suas respectivas localidades, tudo provocado pela pandemia do novo coronavírus (covid-19).

Respeitando as medidas impostas pelo Estado de Emergência o festeiro, que reside na cidade da Praia, assim como o representante da Casa das Bandeiras, impedidos de se deslocarem à ilha já fizeram saber que não há a festa, isto devido ao distanciamento no contacto social e por outras medidas de prevenção e segurança, isto depois da autarquia de São Filipe ter anunciado há mais de um mês o cancelamento das suas actividades.

Neste momento estão em contacto com o pároco local para equacionar a possibilidade da celebração de uma missa no dia 01 de Maio com a presença de um número mínimo de pessoas em que um representante do festeiro levará a bandeira até a igreja matriz, e no mesmo espaço, depois da missa, voltará a (re)tomar a bandeira em nome do festeiro, para o ano de 2021.

Mas esta decisão só será conhecida na próxima segunda-feira, 27, após uma conversa com o padre sobre esta possibilidade.

Normalmente a passagem da bandeira ao novo festeiro acontece no Alto de São Pedro no final das cavalhadas, mas este ano poderá ser na igreja apenas para evitar o seu enterro, já que a sua não celebração não é por vontade ou desejo dos festeiros, mas pela conjuntura que se vive neste momento, que é de todo compreensível.

Não obstante a situação que impede a celebração da Festa da Bandeira, os humoristas “brincam” um pouco para superar este cenário e a título de exemplo indicam que o santo e o ministro da Cultura estão mesmo de costas voltadas.

É que no ano em que o ministro prometeu apoio financeiro e marcar presença, pela primeira vez, desde que é responsável pelo sector da cultura, a festa não se realiza depois de mais de 100 anos.

Se tudo correr bem, para 2021 a festa vai ser mais rija e São Filipe poderá voltar a ganhar mais colorido, movimentação e muita alegria no seio da sua população.

Às pessoas que pretendiam festejar este ano o 1º de Maio na Djarfogo (ilha do Fogo) restam apenas rogar ao Santo Filipe para que lhes dê vida e saúde para regressarem no próximo ano por ocasião das festividades.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Inforpress,21 abr 2020 12:51

Editado porSara Almeida  em  23 jan 2021 23:20

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