Cordão sanitário? “Em termos práticos não é possível, em termos económicos não é recomendável” - Óscar Santos

PorAntónio Monteiro,3 mai 2020 8:00

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Óscar Santos
Óscar Santos

A Praia assinalou esta quarta-feira o 162 aniversário da sua elevação à categoria de cidade numa altura em que a capital cabo-verdiana conta com 90 casos positivos tornou-se assim o novo epicentro da COVID-19 em Cabo Verde. Para fazer face a este “pesadelo” o edil praiense pediu o alargamento do estado de emergência, mas posiciona-se contra a imposição de um cordão sanitário à volta da cidade.

Como é que a Cidade da Praia de Santa Maria vai assinalar o seu 162 aniversário em tempos de coronavírus?

Nós tínhamos planeado um conjunto de inaugurações com lema ‘Praia ê di nôs tudu’, mas infelizmente esta pandemia veio estragar todo o programa que a Câmara Municipal elaborou. Seja como for, aproveito para desejar a todas as pessoas que residem na Cidade da Praia e que gostam desta cidade um feliz 162 anos da elevação da Praia à categoria de cidade. Espero que a COVID-19 seja vencida e que no próximo ano possamos compensar com uma festa mais rija os 163 anos da Cidade da Praia.

Declarou esta segunda-feira à imprensa que conta com alargamento do estado de emergência para pelo menos 10 dias para a ilha de Santiago. Com que argumentos?

Penso que os últimos desenvolvimentos da pandemia na Cidade da Praia recomendam o alargamento do estado de emergência. Estou quase certo que isso vai acontecer. O que surpreenderia seria se o estado de emergência não fosse prolongado, pois ainda não dispomos de todos os elementos que indicam como esta doença vai evoluir na Cidade da Praia. E não tendo todos esses elementos, a prudência recomenda que alarguemos este prazo nem que seja de 10 a 15 dias, no máximo, para que as autoridades consigam travar ou pelo menos diminuir o avanço da doença. Em nome da prudência, penso que é aconselhável que se alargue, mas obviamente que a última decisão cabe ao Sr. Presidente da República, mas deve-se levar em conta o parecer do presidente da CMP que é o maior município de Cabo Verde com cerca de 200 mil pessoas, com uma alta densidade populacional. Estamos a falar de um município que pela sua especificidade propicia a transmissão da doença muito mais rapidamente do que em qualquer outro município do país. Devido a esta situação, e para que não haja uma pressão enorme sobre os serviços de saúde da Cidade da Praia, porque há outras patologias que precisam também ser atendidas, faz todo o sentido que se alargue esse período para mais 10 dias e no máximo 15 dias, até porque temos também que dar chance para que a economia comece a funcionar. No município da Praia a Câmara está fechada, não há cobranças, mas mesmo assim temos um conjunto de serviços que temos que prestar, nomeadamente a limpeza da cidade, os cemitérios têm que funcionar, a guarda municipal, os bombeiros…tudo isso são custos que o município tem que assumir, mesmo num contexto em que não há praticamente arrecadação de receitas.

É também no em nome da prudência que não é a favor do cordão sanitário?

O cordão sanitário não é uma questão de prudência, mas antes de logística. É muito difícil fazer um cordão sanitário à volta da Cidade da Praia, primeiramente porque as pessoas não vão perceber isso. Depois é muito difícil montar uma logística policial e militar para impedir que as pessoas circulem de um município para outro. Além disso, temos pessoas no interior de Santiago que dependem economicamente da Cidade da Praia. Portanto, o cordão sanitário nestas circunstâncias seria um remédio pior que a doença. Neste caso, é melhor apelar às pessoas a ficar em casa, lavar as mãos, fazer o distanciamento social e outras medidas em curso e deixar pelo menos as pessoas que precisam circular de um lado para outro que o façam. Não estou a ver qualquer logística possível que permita cercar a Cidade da Praia. Em termos práticos não é possível, em termos económicos não é recomendável.

As autoridades incluindo a CMP estão a correr atrás do vírus, ou estavam à espera do vírus que acabou por entrar na Praia que é agora o novo epicentro de covid-19. Não se aprendeu com o exemplo da Boa Vista?

Acho que estamos perante duas realidades diferentes. Boa Vista é a terceira ilha em dimensão, mas tem apenas 16 mil pessoas. Portanto, o ritmo de transmissão do vírus é muito mais lento na Boa Vista do que na Praia. Quando falamos da Cidade da Praia, estamos a falar da ilha de Santiago com quase 350 mil habitantes. O que acontece na Cidade da Praia tem efeito logo em Santa Cruz, em Tarrafal, portanto em toda a ilha. Ou seja, é muito mais fácil que a Praia se transforme no novo epicentro dada às suas especificidades, com uma densidade populacional muito alta. E como tem mais gente, era espectável que muito rapidamente o número de casos ultrapassasse os da Boa Vista. Mas eu acho que ainda é muito cedo para se fazer uma avaliação. Estamos actualmente com casos de subida e de descida e ainda não se conhece bem a tendência. Mas vamos seguir a evolução da doença com serenidade. Penso que as autoridades estão a fazer um excelente trabalho, identificando os contactos, os casos suspeitos e os positivos e fazendo os respectivos isolamentos. É este o caminho para combater a pandemia, esperando que toda a população faça a sua parte – respeitando o isolamento social, lavando as mãos e evitando sair de casa sem ter necessidade. Todos nós temos que dar a nossa contribuição, porque o Estado sozinho não vai conseguir resolver tudo. Não é colocando mais polícia, menos polícia que vamos conseguir isso. Nós como pessoas, nós como cabo-verdianos devemos ser nesta altura disciplinados e solidários com todos.

Que medidas tem tomado a CMP e qual o impacto no combate à pandemia?

Desde 19 de Março a CMP tomou um conjunto de medidas restrictivas a nível dos seus serviços. Essas medidas foram publicadas no Boletim Oficial e têm a ver basicamente com a suspensão das audiências, o encerramento do atendimento ao público… o mercado do Sucupira foi encerrado, o mercado do Platô está a funcionar cm apenas 50 por cento da sua capacidade. Suspendemos a cobrança dos hiacistas, o parquímetro também não tem sido cobrado; fazemos a distribuição gratuita de água em vários pontos da cidade onde não há ligação domiciliária; a CMP já distribuiu cestas básicas a quase 9 mil famílias, num total de 45 mil pessoas. Temos o centro de abrigo municipal a funcionar 24 sobre 24 horas. Nós fomos obrigados a encerrar o lar de idosos e jardins da CMP. Tudo isso para conter a propagação do vírus. Claro está que tudo isso tem impacto nas receitas municipais, mas o mais importante agora é a saúde e a vida das pessoas. Todas as obras da câmara municipal foram suspensas, as inaugurações que estavam previstas foram canceladas. Tudo isto à espera que melhoras dias hão-de chegar seguramente.

Provavelmente depois da passagem do coronavírus o mundo já não será o mesmo. O que irá mudar na Cidade da Praia?

Seguramente que muita coisa vai mudar. Em termos de festivais o ano de 2020 é para esquecer. A Praia faz parte da Rede Mundial das Cidades Criativas da UNESCO, Praia é conhecida como a segunda cidade mais cool da África, devido à sua agenda cultural muito forte, portanto muitas pessoas quando querem passar as suas férias escolhem a Cidade da Praia por causa da sua oferta musical. Portanto, em termos de agenda cultural/musical 2020 é um ano para esquecer. Agora vamos ver como vamos retomar tudo isto, porque sem a sua actividade cultural/musical Praia é uma cidade muito morna, nós queremos uma cidade vibrante, activa com muita animação. Tudo isto vai levar o seu tempo; mesmo a nível da restauração há vários projectos turísticos importantes que foram apresentados à CMP com valores à volta de 200 milhões de dólares que agora estão praticamente suspensos. Tudo isso vai levar o seu tempo até que a Praia retome a sua trajectória normal das coisas que estavam do meu ponto de vista a funcionar muito bem…

A minha questão era o que vai mudar na capital do país no pós-coronavírus?

À partida ninguém pode dizer com certeza absoluta o que é que vai mudar. O comportamento das pessoas vai mudar seguramente. A retoma económica será lenta, os serviços vão abrir mas também com alguma lentidão, porque as pessoas vão ter receio de sair à rua. Isso será numa fase transitória de alguma desconfiança que as pessoas vão ter. Acredito que se no mês de Setembro aparecer uma vacina as pessoas começarão a ter mais imunidade e o mundo voltará rapidamente à normalidade. Não estamos a falar de uma guerra onde há destruição de estradas, de hospitais e do aparelho produtivo. Tudo isso ficará intacto. Estamos a falar de uma quebra da actividade económica, mas tudo o que é capacidade produtiva mantém-se. Trata-se de uma questão mais de confiança. Aliás, a maior parte dos países europeus começam a fazer o relaxamento gradual da actividade económica, pelo que provavelmente lá para o final do ano poderemos ter uma retoma do turismo. Mas o que é recomendável agora fazer é sobretudo apostar muito naquilo que não é transacionável como no sector da construção civil, obras de requalificação urbana e no domínio do ambiente para que as pessoas comecem a trabalhar e terem um rendimento e colocar este pesadelo entre aspas da COVID-19 para trás e que nunca mais venha.

Este “pesadelo” irá fazer dos praienses mais solidários?

Nós estamos sendo agora mais solidários. Temos recebido apoios de várias empresas e de pessoas anónimas para ajudar os mais vulneráveis. O espírito solidário do cabo-verdiano existiu sempre, não é esta pandemia que vai abalar o que o cabo-verdiano é. O cabo-verdiano é por natureza solidário, amigo, um povo de brandos costumes. Mas é muito difícil prever o comportamento de uma pessoa daqui a dois ou três meses, quanto mais de uma população de cerca de 500 mil pessoas. Sabemos à partida que não vai ser fácil, sabemos à partida que as pessoas vão estar desconfiadas. Tudo isso é com muita informação, muita discussão e com muita abertura que se vai ultrapassar. Eu acredito que com a alegria que o cabo-verdiano têm, com a nossa proverbial morabeza, ultrapassada a fase do medo e da desconfiança iremos dar um salto grande. Acredito que é possível que haja um crescimento muito acelerado da nossa economia a partir de 2021/22 liderado pelo consumo, sobretudo das famílias que, depois de todo este tempo praticamente em confinamento, poderão finalmente se libertarem para o consumo, para a festa e para a alegria.

O que é que vai mudar na sua vida pessoal no pós-COVID-19?

Obviamente que muita coisa muda depois de todo esse tempo de confinamento. Uma das vantagens é que agora estou a escrever e a ler mais, porque tenho mais tempo disponível em casa. O meu comportamento irá ser idêntico ao de qualquer outro cabo-verdiano, mas com outras responsabilidades. Tenho a responsabilidade de gerir a cidade, de comunicar com as pessoas e sobretudo ajudar as pessoas que mais necessitam. Nós temos que ter a consciência de que nesta situação quem sofre mais são as pessoas mais vulneráveis. Nós temos um conjunto de mecanismos e estamos a trabalhar juntamente com o governo para aliviar o sofrimento das camadas mais pobres do município da Praia, sabendo à partida que não vai ser fácil, mais o caminho faz-se caminhando.

Pediu o alargamento até 15 dias do estado de emergência para a Praia. Isso significa mais apoio às famílias carenciadas e mais cestas básicas. É para continuar?

Isso vai continuar. O apoio às famílias carenciadas não começou com COVID-19. Nós temos uma loja solidária através da qual há mais de três anos apoiamos as pessoas mais vulneráveis: nós temos lares de idosos, apoiamos crianças com deficiência e sem-abrigos. Portanto, o apoio às pessoas mais vulneráveis vem sendo prestado há muito tempo. Agora, com o alargamento provável do estado de emergência vamos ter claramente que ir mais vezes aos bairros. Neste momento atingimos cerca de 45 mil pessoas, algumas delas já foram beneficiadas duas ou três vezes. Portanto, vamos retomar este processo, porque as pessoas vão precisar, apesar de outros apoios, nomeadamente o salário de inclusão social a nível do Estado. São todos esses apoios que têm que ser equacionados para ajudar os que mais precisam. Não é só a cesta básica, mas também há tudo aquilo que está prevista mas medidas que o governo tomou para esse fim. Mas o mais importante que estar a pensar na cesta básica é pensar nas medidas pós-pandemia que criem emprego e que criem rendimento, porque nós não queremos o assistencialismo, nós queremos que as pessoas andem com os seus próprios pés. Isso tem que ser, nós não queremos criar nas pessoas a falsa expectativa de que existe um Estado providência que não tem limites orçamentais e que tem meios para fazer a distribuição quase infinita de cestas básicas. O que é precisa é a retoma da actividade económica, que haja emprego, que haja rendimento. Para nós, isso é muito mais importante do que fazer a distribuição de cestas básicas, porque as pessoas devem ter uma vida independente do Estado e quanto mais independente do Estado, melhor…

E chamar a televisão para acompanhar a distribuição de cestas básicas.

Não, isso não fazemos. O que nós fazemos pontualmente é colocar a imagem dos doadores, porque querem a sua imagem na televisão, mas não vamos expor as pessoas. Da mesma forma que quando nós fazemos a reposição do tecto de uma casa não fazemos inauguração dessas obras. Eu acho que não se deve expor a vulnerabilidade das pessoas dessa forma, porque a dignidade humana é muito mais importante do que estar a mostrar que a Câmara Municipal está a dar uma cesta básica a esta ou aquela família. As pessoas sabem que estão a receber cestas básicas e por isso na Cidade da Praia não há muitas reclamações sobre a distribuição de cestas básicas. Há pontualmente um ou outro caso, mas globalmente como já atingimos 45 mil pessoas acho que estamos a proceder bem. E assim é que deve ser. Nós estamos aqui para ajudar as pessoas e portanto em momentos específicos, excepcionais todo o esforço que nós podemos fazer, mobilizando apoios junto do Estado, de empresas privadas e de particulares para apoiar os mais desfavorecidos, nós iremos fazer e sem publicidade.

Que mensagem quer deixar aos praienses nesta época difícil que o município atravessa?

A primeira mensagem é que se mantenham tranquilos. Nós estamos a trabalhar na protecção da saúde das pessoas. Portanto, essa é a nossa prioridade. Todos os investimentos, todas as medidas que estão sendo tomadas são essencialmente para proteger a vida e a saúde das pessoas. Mas somente as câmaras municipais e o governo não conseguem ajudar na eliminação do vírus. Todos nós somos importantes nesta luta; todos nós temos que fazer a nossa parte. Portanto, é importante que as pessoas sigam as orientações das autoridades sanitárias, que fiquem em casa, lavem as mãos, sair só mesmo quando for necessário. Estou praticamente seguro que em pouco tempo nós vamos conseguir ultrapassar todo este pesadelo como disse no início para podermos retomar a normalidade, a alegria e a felicidade de todos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 961 de 29 de Abril de 2020.

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Autoria:António Monteiro,3 mai 2020 8:00

Editado porClaudia Sofia Mota  em  25 out 2020 23:20

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