Reabertura das escolas : Os cuidados no regresso às aulas

PorJorge Montezinho,9 ago 2020 8:44

Vai ser um regresso diferente à escola para os 136 mil estudantes cabo-verdianos que iniciam o ano lectivo 2020/2021, no próximo dia 1 de Outubro. A pandemia obrigou a alterar hábitos e os estabelecimentos de ensino não fogem à regra. As aulas presenciais serão acompanhadas pelas aulas à distância e pelo cumprimento de todas as regras de higiene. O que acontecer noutras partes do mundo, durante as respectivas reaberturas, vai servir de lição para os restantes países.

As escolas foram, e têm sido, um elo crítico no combate à Covid-19. O fecho das escolas reduziu a transmissão, manteve os pais longe dos locais de trabalho e fora das transportes públicos. No pico da epidemia, quase 1,5 mil milhões de alunos, a nível global, estiveram fora da escolas. Mas, desde então, as desvantagens também se tornaram claras: a educação virtual é uma sombra pálida da realidade e deixou muitos pais a fazer malabarismos com empregos e creches, dando origem à perda de rendimentos das famílias. As crianças de famílias de menor rendimento, que dependem das refeições escolares, passaram fome. E havia indícios de que as crianças estavam a sofrer abusos domésticos sem controlo, porque os funcionários da escola não podiam identificar e relatar os primeiros sinais. Numa carta, no mês passado, ao primeiro-ministro britânico Boris Johnson, mais de 1.500 especialistas em saúde infantil alertaram também para o facto de que o encerramento das escolas tinha o risco de “criar uma geração falhada”. Foi uma espécie de tocar a reunir global para que as aulas regressassem.

Uma combinação de pesquisa sobre a transmissão com as evidências observadas nos países onde os alunos já regressaram à escola poderá ajudar a orientar as políticas sobre como reabrir sem provocar surtos de infecção. Um estudo, publicado em Julho, pela revista Science, concluiu que manter a taxa de infecções comunitárias baixa é fundamental. Outros factores incluem a idade do aluno, o distanciamento social, o tamanho da turma e o uso de máscaras. A reabertura não está isenta de riscos, mas as provas sugerem que as crianças têm escapado à gravidade da doença: o dados indicam que os mais novos têm cerca da metade da probabilidade de serem infectadas por adultos e, em caso de infecção, geralmente apresentam sintomas mais leves. Um outro estudo, feito na Coreia do Sul e publicado na revista Emerging Infectious Diseases, sugere que crianças com menos de 10 anos têm uma probabilidade muito menor do que os adultos de espalhar o vírus em casa, talvez, dizem os pesquisadores, porque são mais pequenas e exalam menos. Mas, o mesmo estudo, também diz que os jovens entre os 10 e os 19 anos espalham o vírus mais facilmente do que a maioria dos adultos, o que sugere que os adolescentes podem representar um risco maior de transmissão do que os alunos mais jovens.

O que sabemos até agora

E o que aconteceu afinal nos países que reabriram? Turmas mais pequenas, além do distanciamento social, permitiram que a Noruega e a Dinamarca recomeçassem as aulas sem provocar um pico de infecção. As máscaras são obrigatórias nas escolas de Taiwan, Coreia do Sul, Vietname e Japão. Israel pediu aos alunos para usarem máscaras, mas não impôs distanciamento – e teve surtos. A Alemanha também exige máscaras, mas não para estudantes que apresentem resultados negativos. Em regiões de transmissão moderada, a Alemanha viu aumentar a disseminação entre os estudantes, mas não entre os funcionários da escola. Mas a principal conclusão é que qualquer reabertura bem-sucedida depende de baixas taxas de infecção comunitária e do aumento dos testes e do rastreamento de contactos. Quanto mais vírus houver na comunidade, maior é a probabilidade de uma criança, ou um professor, o transportar para a escola.

Em resumo, algumas escolas impuseram limites draconianos no contacto entre as crianças, enquanto outras deixaram-nas brincar livremente. Em algumas, as máscaras são necessárias, enquanto outras tornaram-nas opcionais. Algumas fecharam temporariamente assim que um aluno foi diagnosticado com COVID-19; outras permaneceram abertas mesmo quando várias crianças ou funcionários foram afectados, enviando apenas as pessoas doentes e os contactos directos para quarentena.

Regresso às aulas em Cabo Verde

Em Cabo Verde, as informações dadas pela Ministra da Educação, Maritza Rosabal, tanto no debate sobre o Estado da Nação, como no último programa Discurso Directo, na rádio nacional, sublinham que tudo o que estava programado teve de ser modificado. O novo ano lectivo, que começa a 1 de Outubro, vai ter aulas presenciais, com as devidas medidas impostas por causa da Covid-19. As aulas na televisão e na rádio vão continuar. “O ensino à distância será sempre complementar e todos os anos vão ter aulas presenciais, isso é muito importante”, disse a ministra.

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Para os alunos do 1.º ao 4.º ano, haverá aulas com a duração máxima de 2 horas, por dia. A partir do 5.º ano, explicou a governante, haverá “aulas alternadas”, ou seja, um grupo terá aulas às segundas, quartas e sextas e outro às terças, quintas e sábados.

O novo ano lectivo, informou também Maritza Rosabal, vai decorrer sob o lema “novo contexto, novas oportunidades. Educação digital para todas e todos”. Em 2020/2021 as paragens lectivas serão também mais curtas. Para o Natal, as férias decorrerão entre 23 de Dezembro e 4 de Janeiro, a segunda pausa, para o Carnaval, acontece entre 24 e 26 de Fevereiro e em Março, a partir de 29 e 3 de Abril, para Páscoa.

O novo calendário escolar arranca, efectivamente, no próximo dia 24, com a preparação e planificação de todas as actividades, que deve ficar concluída a 30 de Setembro. A pandemia da Covid-19 poderá ditar eventuais alterações. “Será um ano atípico por causa da covid-19”, disse a ministra da Educação, “e esse é um grande desafio”.

“O foco fundamental é a aprendizagem”, sublinhou Maritza Rosabal, “temos de recuperar a socialização dos alunos, porque estiveram muito tempo sem aulas, e é essencial, no início do ano lectivo, fazer o diagnóstico da aprendizagem, como está cada aluno. Isso vai ser feito no primeiro mês de aulas, vamos ver como estão os estudantes, do que necessitam e continuar a partir daí”.

Os próprios currículos vão sofrer alterações, como explicou a ministra, o foco será posto nos conteúdos essenciais. “É uma situação inédita para todo o mundo, importante é que as crianças tenham acesso ao conhecimento”. Ano lectivo que vai ter também novos professores, 72, recrutados, essencialmente, para substituir os docentes que vão para a reforma.

O que vai acontecer a partir da reabertura das escolas, tal como noutras áreas, tem ainda um elevado grau de incerteza. Como as crianças raramente desenvolvem sintomas graves, os especialistas têm avisado que as escolas abertas podem representar um risco maior para os professores, familiares e a comunidade em geral do que para os próprios alunos. Mas é difícil ter certezas, porque na maior parte dos países as escolas reabriram ao mesmo tempo que a economia. Na Dinamarca, por exemplo, o número de casos continuou a diminuir depois da abertura de creches e escolas primárias. Na Holanda, os novos casos permaneceram inalterados e chegaram mesmo a diminuir desde que as escolas primárias foram abertas. Na Finlândia, Bélgica e Áustria, as autoridades também não encontraram provas do aumento da disseminação do novo coronavírus após a reabertura das escolas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020.

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Autoria:Jorge Montezinho,9 ago 2020 8:44

Editado porAntónio Monteiro  em  19 set 2020 23:21

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