Jorge Barreto, Director Nacional de Saúde : “A COVID-19 afectou e afecta a saúde em todas as suas vertentes, de maneira impressionante”

PorAndre Amaral,26 dez 2020 12:30

Nove meses após a entrada do coronavírus em Cabo Verde, o Director Nacional de Saúde, Jorge Barreto, fala sobre o trabalho desenvolvido até agora no combate à doença, sobre a possibilidade de novas vagas da doença e nas medidas adoptadas pelo Governo para a época de Natal e de passagem de ano.

A COVID-19 dominou o ano em todas as temáticas e especialmente no sector da saúde. Que balanço faz destes nove meses que passaram desde que a COVID-19 entrou no país?

Foram nove meses muito duros em todos os aspectos. Não podemos esquecer que a saúde não é apenas o bem-estar físico, mas também o mental e o social de cada pessoa. A COVID-19 afectou e ainda afecta a saúde em todas as suas vertentes, de maneira impressionante. Obrigou a uma reorganização para dar a resposta necessária, afectando, em parte, a atenção que se deve dar a outros problemas de saúde, como, por exemplo, as doenças crónicas não transmissíveis. Mais uma vez, os profissionais de saúde entregaram-se de corpo e alma nesta luta e, embora encontrem-se exaustos, continuam a dar tudo de si para que os resultados sejam cada vez melhores e com menos impacto possível em termos de mortes. Para além das condições para a prestação de cuidados de saúde, a COVID-19 trouxe desafios em relação às condições laboratoriais, que foram melhoradas para dar resposta à demanda, no que toca ao diagnóstico da infeção por SARS-CoV-2. A pandemia ainda não terminou, por isso o maior desafio será o país conseguir continuar a disponibilizar condições para fazer a melhor gestão possível desta situação, sem repercussões maiores, especialmente em relação a mortes.

Os números da COVID-19 têm vindo a descer. Como se explica esta descida?

Ainda não temos explicações concretas que possam explicar a situação actual. Até porque a situação é diferente entre as ilhas, embora, de forma geral, a tendência seja para diminuição. Talvez o número de susceptíveis tenha reduzido consideravelmente, daí um menor número de casos é identificado ou talvez as pessoas estejam mais conscientes em relação às medidas de prevenção.

Há receio de novas vagas?

Tudo é uma incógnita e por isso é natural que tenhamos receio de novas ondas de piora, especialmente com as notícias de casos de reinfecção e de uma variante nova que parece ser mais transmissível. A COVID-19 veio mostrar-nos que nada está garantido e que teremos que estar sempre preparados, na medida do possível, para uma resposta célere e atempada.

Outros países também tiveram um período de acalmia antes de surgirem novos casos. A época de Natal e de passagem de ano está a chegar. As medidas anunciadas pelo Governo são mais sugestivas do que restritivas. Parece-lhe o caminho correcto tendo em conta que outros países promoveram o isolamento nesta época do ano?

As medidas que foram emanadas pelo Governo estão coerentes com a situação epidemiológica actual. É sempre bom relembrar que as pessoas têm que perceber que a responsabilidade é de todos nós. A população tem um papel muito pertinente no controlo da pandemia. Por isso, devem ter o cuidado e a preocupação de obedecer às medidas preventivas para evitar a piora do quadro.

Quanto às vacinas. O primeiro-ministro anunciou que está “a envidar todos os esforços para que a vacinação contra a COVID-19 inicie durante o primeiro trimestre do próximo ano”. Em que moldes vai funcionar esta vacinação?

A vacinação será realizada de forma faseada, dando prioridade a determinados grupos de pessoas na primeira fase, em conformidade com os documentos de referência e a situação epidemiológica do país.

Qual o laboratório escolhido?

Ainda não houve a escolha de um laboratório específico e pode ser que mais de um laboratório seja escolhido, à semelhança de outros países.

As condições de armazenamento deste tipo de vacinas são muito específicas. Estão garantidas?

Para se ter acesso às vacinas contra COVID-19, os países deverão salvaguardar as condições nas quais as mesmas serão armazenadas. Sem essas condições, não vale a pena avançar com a vacinação. Por isso, quando o país anunciar que as vacinas já estão disponíveis em território nacional é porque, nessa altura, as condições de armazenamento estarão garantidas, incluindo a capacidade.

Disse, há dias, em entrevista para a Rádio Morabeza que Cabo Verde vai adquirir as vacinas através de um consórcio de países. Quando é esperado o primeiro lote de vacinas?

Ainda não temos uma data concreta. Talvez no final do primeiro trimestre de 2021, mas é uma previsão.

Santiago saiu da situação de calamidade. O Fogo é agora a única ilha que está nesta situação. No entanto, a evolução da doença em São Vicente não deveria ter colocado a ilha numa situação idêntica?

Sim, poderia, contudo há outras medidas adotadas que acabam por mitigar o risco de propagação.

Como se explica que São Vicente tenha escapado, durante uma boa parte destes nove meses, à doença e tenha agora acabado por ver aumentar o número de casos?

Não temos elementos suficientes que nos permita explicar a evolução da pandemia em São Vicente.

Já foi pedido algum estudo sobre a estirpe do vírus que existe em Cabo Verde?

Ainda não.

Cabo Verde é um destino turístico seguro?

O país está a fazer de tudo para que seja. Há dias tivemos a notícia de que Cabo Verde voltou a ser classificado com o nível mínimo de risco para a segurança das viagens de turistas, o que é uma excelente notícia para todos nós, pois significa que recursos voltarão a entrar. No campo da Saúde, o país está a preparar-se para disponibilizar condições cada vez melhores para a prestação de cuidados, que os turistas poderão ter acesso, em caso de necessidade, além da população.

Surgiu uma nova estirpe do coronavírus na Europa (Reino Unido, Dinamarca e Itália já confirmaram casos e França já admite a possibilidade de ela estar a circular no país). Numa altura em que Cabo Verde começa a reabrir as fronteiras do país que preocupações é que isto causa?

Traz preocupações, como é de se esperar, mas as medidas de prevenção e de vigilância que já estão implementadas servirão para mitigar o risco de propagação. Daí a importância do cumprimento das normas, das orientações técnicas e das medidas de prevenção por parte de todos os intervenientes, inclusive dos passageiros.

Os trabalhadores dos hotéis do Sal e Boa Vista vão fazer parte do grupo prioritário de vacinação?

Sim, fazem parte dos grupos prioritários da primeira fase.

Este domínio da pandemia ofuscou, de alguma forma, os outros problemas do sector da saúde nomeadamente no que respeita a doenças que todos os anos afectam a população cabo-verdiana. Que dados tem relativos a doenças típicas existentes em Cabo Verde como a hipertensão, a diabetes, cancro, HIV?

Ainda não temos dados concretos, mas o que constatámos foi alguma quebra na frequência de ida aos centros de saúde, considerando que a população tem medo de ser contaminada nesses estabelecimentos, mas também por causa das medidas de restrição e de prevenção que foram adoptadas ao longo desse período. Apesar disso, medidas de mitigação foram tomadas para que as pessoas não ficassem descobertas em termos das suas necessidades de saúde, nomeadamente o acesso aos medicamentos.

Houve canalização de verbas, inicialmente destinadas ao combate a outras doenças, para fazer face à COVID-19?

Houve uma clara necessidade de reafectar verbas para fazer face à COVID-19 pelo facto de ter sido um imprevisto. Mas houve um grande apoio dos parceiros de desenvolvimento de Cabo Verde, que permitiu a disponibilização de recursos para o combate de outras doenças, sem que houvesse um impacto tão negativo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 995 de 23 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Andre Amaral,26 dez 2020 12:30

Editado porAntónio Monteiro  em  16 jan 2021 23:20

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