Líder da UCID quer pedido de desculpas pelo 4 de Junho de 1977 e pelo 31 de Agosto

PorAndre Amaral,5 jun 2021 8:26

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Presidente da UCID defende que o Presidente da República, à semelhança do que fez João Lourenço, presidente de Angola, em relação ao 27 de Maio, devia pedir desculpas às vítimas dos acontecimentos de 4 de Junho, em São Vicente, e 31 de Agosto, em Santo Antão.

O presidente angolano, João Lourenço, fez, no passado dia 27, um pedido de desculpas formal pelas execuções sumárias levadas a cabo após o alegado golpe de 27 de Maio de 1977, salientando que se trata de “um sincero arrependimento”.

Para o presidente da UCID, António Monteiro, o mesmo deveria acontecer em Cabo Verde relativamente às vítimas das detenções, em São Vicente, a 4 de Junho de 1977.

“Claro que sim e eu não estou a dizer isso de agora”, começa por dizer o líder da UCID em conversa com o Expresso das Ilhas. “Já anteriormente, ainda o governo era liderado por José Maria Neves, no Parlamento, eu disse precisamente isso. Que o Estado deveria, na altura, ter pedido desculpas às pessoas que sofreram nas mãos do regime de partido único. Eles não o fizeram até hoje, não foram pedidas desculpas às pessoas que realmente sofreram”.

António Monteiro considera que “ainda é tempo” e que o Presidente da República à semelhança do que fez João Lourenço “deveria, obviamente, pedir desculpas”.

António Monteiro recua ainda mais no tempo e lembra que esta semana o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão pedia desculpas, na Namíbia, “pelo facto de o governo alemão, na altura, ter tratado de forma bárbara as pessoas naturais daquele país”.

“Portanto eu acho que é normal e que o Estado de Cabo Verde devia pedir desculpas aos seus filhos que por razões várias acabaram por sofrer com o regime do governo de então”, acrescenta.

O que impede o pedido de desculpas

Para o presidente da UCID têm sido “os nossos governantes” que “não têm dado o devido valor a essa situação”.

“Eles consideram, provavelmente, que foi uma coisa normal terem sido presas pessoas em 1977 aqui em São Vicente, com muitos deles a serem espancados na prisão da Ribeirinha”, critica.

“O facto de ter havido as prisões a 31 de Agosto de 1981 em que muitos foram espancados e outros acabaram por morrer, eles consideram aquilo como problemas que acontecem com naturalidade num sistema de regime de partido único e que, portanto, não devem pedir desculpas”, acrescenta António Monteiro.

A ausência de um pedido de desculpas por parte do Estado é, para António Monteiro, “um erro crasso”, porque, defende, “a liberdade não pode ser condicionada por nenhum tipo de regime e a liberdade de nenhum cidadão pode ser condicionado por nenhum tipo de regime, especialmente quando são regimes ditatoriais”.

O motivo, defende Monteiro, “é o facto de eles considerarem que foi uma coisa passageira e que não tem grande dimensão que levou a que, até hoje, não se tenham pedido desculpas. Penso que, sem sombra de dúvida, se devia reanalisar esse procedimento e pedir desculpas, porque ficaria bem ao país. E as pessoas que sofreram, muitos já cá não estão mas os seus familiares com certeza que ficariam contentes com essa postura do Estado de Cabo Verde”.

O que aconteceu?

Há 42 anos, a 4 de Junho de 1977, foi detido, em São Vicente, um grupo de conhecidos mindelenses, acusados de serem contra-revolucionários e de estarem a preparar ataques terroristas, mas que entretanto se tinham limitado a distribuir panfletos. O regime de partido único reagiu com violência, torturando os presos. As averiguações são feitas com recurso a sevícias, que incluíram espancamentos, coacção psicológica, ameaças e choques eléctricos, e muitos dos presos ficam encarcerados por meses sem qualquer culpa formada.

A segunda data que o Barlavento não esquece é a do dia 31 de Agosto de 1981, o culminar do anteprojecto da reforma agrária. A implementação da reforma agrária foi entendida como essencial para a emergência da justiça social nos campos do Sahel insular e para a superação definitiva dos entraves socioeconómicos ao desenvolvimento agrário de Cabo Verde bem como ao florescimento de uma democracia social e económica. O certo é que a reforma agrária não foi bem recebida em Santo Antão. Fosse por desconhecimento dos laços estreitos que uniam proprietários e agricultores, fosse pelo objectivo político, tentou impor-se uma ideia que não se coadunava com aquilo que os santantonenses tinham em comum: as relações com a terra.

Muitos trabalhadores rurais entregam as terras aos donos, dizendo que não queriam saber da história da reforma agrária. Sentiam que iam ser prejudicados e que podiam perder um compadre e um amigo. Estes sentimentos começaram a fervilhar e acabaram por desembocar no 31 de Agosto. No dia anterior, 30, houve uma reunião do PAICV em Figueiral onde surge uma manifestação que gritava contra o partido. Essas pessoas foram presas. O dia 31 começa bem cedo, com uma mobilização popular para fazer outra manifestação com a intenção de pedir a libertação desses homens. Os militares esperam-nos em Boca de Figueiral. O povo não arredou o pé. Ficaram lá a gritar: “não à reforma agrária”, “libertação dos presos”. Os militares disparam, matam Adriano Santos e ferem outros.

Nessa mesma noite, começam as prisões, acompanhadas de espancamentos, coronhadas, pontapés, murros. Agressões praticadas sem uma única palavra. Sem uma única explicação. Quem não foi preso – na manifestação de Boca de Figueiral estariam entre três mil a cinco mil pessoas, dependendo das fontes – vivia sob o espectro de um dia ter os verdugos a arrombarem-lhe a porta.

*com Jorge Montezinho

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1018 de 2 de Junho de 2021.

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Autoria:Andre Amaral,5 jun 2021 8:26

Editado pormaria Fortes  em  24 out 2021 23:21

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