Seca deixa comunidades rurais em “muitas dificuldades”

PorNuno Andrade Ferreira,5 mar 2022 8:35

Quatro anos de seca atiraram o país para situação de calamidade. Agricultores, criadores de gado e líderes comunitários relatam cenário dramático e esperam chegada de apoios do governo.

Desde 18 de Fevereiro que a falta de chuva e consequente mau ano agrícola (mais um) colocaram o país em situação de calamidade. A medida abrange todo o território nacional, com o objectivo de “reforçar o acesso aos bens alimentares” e manter “a capacidade produtiva da actividade pecuária”.

Com a resolução, o governo reconhece as consequências da seca no rendimento das famílias e a “degradação da segurança alimentar e nutricional”.

A estiagem não deixa ninguém indiferente, mas é a população que depende da actividade agro-pecuária quem mais sofre. Com as culturas de sequeiro comprometidas e as reservas de água esgotadas ou em níveis alarmantes, é necessário encontrar soluções que garantam a subsistência de milhares de pessoas.

Na Corda, em Santo Antão, a vice-presidente da Associação Comunitária Ponta de Cinta, Maria do Rosário Gomes, alerta para o impacto social da seca.

“Neste momento, estamos a enfrentar muitas dificuldades, sobretudo nas famílias humildes. Como sabemos, não choveu quase nada, ou mesmo nada, no Planalto Leste. Em termos de rendimento, é zero”, resume.

A já de si escassa, a produção agrícola é depois afectada pelas pragas, causando uma dor de cabeça adicional. Sem rendimento agrícola, as famílias viram-se para outras ocupações, mas não encontram grandes alternativas.

“Não há, neste momento, nenhum posto de trabalho. Há apenas um plano de emergência da Câmara Municipal [da Ribeira Grande] que está na recta final, em que foi seleccionado um membro de cada família”, avisa.

A pesar nesta equação, à partida complexa, o aumento dos preços dos produtos da cesta básica.

“Com quatro anos de seca, vivemos essencialmente das lojas. O aumento dos preços da cesta básica tem causado dificuldades para as famílias levarem a panela ao lume. Já ouvi famílias a queixarem-se das dificuldades e há famílias a passar fome. Digamos que têm tido problemas em ter comida em casa”, comenta a líder associativa.

A venda ao desbarato das poucas cabeças de gado que restam tem sido, para muitos, o último recurso.

A sul a situação não é muito diferente. Em Santa Cruz, Santiago, o presidente da Federação dos Agricultores e Pecuários, Cesário Varela, explica que a produção cai “dia após dia”.

“Se não houver, de facto, uma política que faça a mitigação da problemática da água, vamos, no futuro, ter um problema de segurança alimentar no país. Os pecuários estão com problemas devido à subida de preços. O preço das rações e outras matérias-primas para criação de animais subiu de [tal] maneira que muitos já pensam deixar a produção pecuária, por causa da disponibilidade financeira e porque não existem apoios concretos para minimizar o impacto”, lamenta.

No Maio, Manuel Mendonça, agricultor e criador de gado, também pede apoios directos.

“Eu acho que deviam apoiar os agricultores e criadores de forma directa. O milho e a ração estão caríssimos, precisamos de apoio na compra de milho e ração, comprando mais barato”, lança.

“Os gafanhotos comeram tudo. Enfrentamos escassez de água, de modo que a criação de animais e agricultura está muito complicada. Tentamos obter um pouco de água dos furos, mas é muito salitrado, além de que é pouca para tantas pessoas”, ilustra.

A história de Cabo Verde é feita de secas e tragédias humanas a elas associadas. As mudanças climáticas deverão agravar a sua ocorrência, tornando-as mais frequentes e prolongadas.

Para o empresário Carlos Araújo, dono da marca Ojuara, em São Vicente, é preciso pensar numa perspectiva de longo prazo.

“Já devíamos ter aprendido a viver com as secas e encontrar uma solução. Neste momento, a situação está a tornar-se grave, precisamente, pela falta de intervenções correctas. Não há chuva, não tendo chuva, não há pasto. Sem pasto, os animais não conseguem produzir o suficiente e, não havendo produção suficiente, nós também sofremos”, relata.

Ninguém fica indiferente aos problemas causados pela falta de chuva. Mesmo quem não vive daquilo que produz sente no bolso os efeitos de uma produção fraca. Carlos Bartolomeu, secretário permanente do Sindicato dos Trabalhadores Livres de Santo Antão, lembra que os salários congelados significam menor poder de compra, numa altura em que tudo fica mais caro.

“Não têm existido medidas no sentido da reposição do salário dos cabo-verdianos, de forma geral e, nomeadamente, ao nível do sector público. Por conseguinte, [a seca] tem impacto ao nível económico e noutros sectores transversais”, declara.

De acordo com o ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, está prevista a alocação ao plano de mitigação de 145 mil contos, provenientes do Fundo Nacional de Emergência (FNE), mecanismo criado em 2018 como resposta excepcional a fenómenos naturais extremos.

“Deste valor, cerca de 120 mil contos vão para o financiamento de obras que permitem o emprego público nos municípios intervencionados e 25 mil contos vão para a bonificação da ração para os criadores de gado”, revelou à edição 1.056 do Expresso das Ilhas.

Para lá do FNE, o plano contempla programas sectoriais em execução no âmbito do Orçamento de Estado para 2022.

*com Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1057 de 2 de Março de 2022.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,5 mar 2022 8:35

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  29 jun 2022 23:28

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