Asiáticos e africanos da sub-região são os que se sentem menos integrados em Cabo Verde

PorJorge Montezinho,25 dez 2022 12:26

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A população estrangeira e imigrante que tem como origem a CEDEAO é igualmente a que se sente mais discriminada. Conhecer as características culturais e de integração dos estrangeiros e imigrantes, era um dos objectivos do projecto, além de pretender traçar o perfil sociodemográfico dos estrangeiros/imigrantes e os membros do respectivo agregado familiar; analisar o perfil laboral e a condição económica das comunidades estrangeiras e imigrantes residentes em Cabo Verde; conhecer as condições de habitabilidade, conforto e bens disponíveis; e avaliar a informação relativa à sua entrada e permanência no país.

38,7% dos imigrantes/estrangeiros com 15 anos ou mais declararam que acreditam que existe em Cabo Verde pelo menos uma das formas de discriminação abordadas no inquérito (cor de pele, sexo, religião, língua/dialecto e salário) e 32,1% dos imigrantes/estrangeiros disseram que já se sentiram discriminados por pelo menos uma dessas formas de segregação. Este é um dos resultados do I Inquérito da População Estrangeira e Imigrante residente em Cabo Verde, realizado entre os meses de Agosto e Setembro e apresentado esta segunda-feira.

A cidade da Praia é onde se concentra a maior parte dos casos de discriminação – 37,6% – seguindo-se a Boa Vista com 35,0%. Os imigrantes/estrangeiros originários da CEDEAO são os que têm uma percepção maior de que são discriminados (42,3%), já a incidência de discriminação sobre os africanos da sub-região, diz o inquérito, é de 39,1%. Seguem-se os que têm origem na Europa (percepção 33,1%, incidência 16,3%), os que vêm de outros países africanos fora da CEDEAO (percepção 33,1%, incidência 17,2%), os originários da América (percepção 31,9%, incidência 24,7%) e os que viajaram da Ásia para Cabo Verde (percepção 23,6%, incidência 24,3%).

Apesar de serem os que têm uma menor percepção da marginalização, os estrangeiros/imigrantes que vieram da Ásia são os que se sentem menos integrados em Cabo Verde: 35,6% sentem-se muito bem integrados, 55,4% sentem-se integrados e 9,0% sentem-se pouco integrados. Seguem-se os que têm origem nos países da CEDEAO, com 48,4% a sentirem-se muito bem integrados, 43,8% integrados, 7,5% pouco integrados e 0,3% nada integrados. Dos estrangeiros/imigrantes vindos da América, 62,4% sentem-se muito bem integrados, 35,4% integrados e 2,1% pouco integrados. Quem viajou dos outros países africanos, 68,6% sentem-se muito bem integrados, 26,9% integrados, 4,4% pouco integrados e 0,1% nada integrados. Segundo o inquérito, os que se sentem melhor no arquipélago, em termos de integração, são os estrangeiros/imigrantes que vieram da Europa, com 74,9% a considerarem-se muito bem integrados, 23,1% integrados e 2,0% pouco integrados.

As principais dificuldades de integração apontadas são a aprendizagem da língua, a adaptação ao clima e a adaptação ao estilo de vida cabo-verdiano. Por regiões, os originários da CEDEAO apontam como desafios, 38,8% a língua, 25,9% o clima e 24,1% o estilo de vida. Os que vêm de outros países da África referem-se 32,0% à língua, 24,1% ao clima e 34,8% ao estilo de vida. Os que viajaram da Ásia apontam como mais difícil 51,1% a língua, 31,0% o clima e 2,1% o estilo de vida. Os que têm origem na Europa apontam como dificuldade 63,3% a língua, 14,6% o clima e 16,2% o estilo de vida. Já os estrangeiros/imigrantes da América dizem que o mais complicado é a língua (54.0%), seguido do clima (20,3%) e do estilo de vida (1,5%).

Estrangeiros e imigrantes são 2,2% do total da população

Ao longo dos anos, de um país de emigrantes, Cabo Verde tem passado também a ser um país de imigração. Actualmente, o arquipélago acolhe 10.869 estrangeiros. Destes, 7.431 são homens (68,4%) e 3.438 são mulheres (31,6%). A maioria está na Praia, 38,2%, seguido do Sal, 21,1%, Boa Vista, 12,2% e São Vicente, 11,3%. As restantes ilhas recebem 11,7%.

Segundo dados do inquérito, 37,4% dos imigrantes são provenientes da Guiné-Bissau, 11,3% do Senegal, 9,2% de Portugal, 4,9% da Nigéria, 4,7% da China e 4,5% de São Tomé e Príncipe. Destes, 18,6% tem ascendência cabo-verdiana, 78,6% através da mãe, 68,7% do pai, 51,9% dos avós maternos, 43,4% dos avós paternos, 25,1% dos bisavós maternos, 21,7% dos bisavós paternos e 9,4% de superior a bisavós.

9,5% dos estrangeiros/imigrantes são crianças com idades compreendidas entre os 04 e os 14 anos. 89,2% frequentam um estabelecimento de ensino. A idade média do total dos estrangeiros/imigrantes é de 37 anos, sendo que a maioria (56,5%) está na faixa 35-64 anos.

A procura de trabalho é a principal razão apontada (59,4%) pelos que procuraram Cabo Verde para viver. As outras razões da imigração são reagrupamento familiar (21,6%), realização de investimento (4.0%) e a situação política, social e económica no país de origem (3,4%).

I Inquérito da População Estrangeira e Imigrante residente em Cabo Verde foi feito sobre uma amostra de 3.025 agregados familiares onde reside pelo menos um indivíduo imigrante e/ou estrangeiro. O inquérito integra o Projecto “Coop4Int – Strengthening Migrantes Integration through cooperation between Portugal and Cabo Verde”, implementado pelo Alto Comissariado para as Migrações de Portugal (ACM), a Alta Autoridade para a Imigração, o Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), e o Instituto Poli­técnico de Bragança (IPB).

Quando o inquérito foi apresentado, em Junho deste ano, o INE referiu que a falta de dados qualitativos e quantitativos da imigração constituía uma das principais deficiências da gestão da imigração em Cabo Verde, dificultando a monitorização dos fluxos, a compreensão das tendências e influências entre os diferentes processos de migração e o exercício de se aferir, entre outras dimensões, o perfil dos estrangeiros residentes no país.

Espera-se agora que a produção de estatísticas oficiais permitam a planificação, desenvolvimento, seguimento e avaliação de políticas públicas relacionadas com a imigração. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1099 de 21 de Dezembro de 2022. 

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Autoria:Jorge Montezinho,25 dez 2022 12:26

Editado porSheilla Ribeiro  em  27 jan 2023 8:20

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