Desafios do dia a dia inquietam mais os cabo-verdianos do que a política

PorAndré Amaral,8 fev 2026 14:31

Apesar da imagem de estabilidade política, são as dificuldades concretas do dia a dia que mais preocupam os cabo-verdianos. Educação, acesso à água e à energia, segurança e custo de vida surgem no topo das inquietações nacionais, segundo o Barómetro da Lusofonia, apresentado na passada quarta-feira na sede da CPLP, em Lisboa.

O estudo, realizado pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Económicas, com sede em São Paulo, e coordenado pelo cientista político brasileiro António Lavareda, reúne as percepções de cidadãos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, a partir da análise de 25 indicadores ligados à democracia, governação, condições de vida e coesão social.

Em Cabo Verde, a educação destaca-se como uma das maiores inquietações, com níveis de preocupação superiores à média da CPLP, fixada em 43%. O dado revela a centralidade que o ensino continua a ter nas expectativas da população, num país onde a educação é vista como principal via de mobilidade social.

Outra preocupação que marca fortemente o arquipélago prende-se com os serviços básicos e as infraestruturas. Água, energia e saneamento surgem como questões sensíveis, colocando Cabo Verde, juntamente com São Tomé e Príncipe, entre os países onde este tema gera maior apreensão. Um sinal claro de que, para muitos cidadãos, o acesso regular e fiável a serviços essenciais continua longe de ser um dado adquirido.

A segurança e a violência também figuram entre os temas mais mencionados. O Barómetro mostra que esta preocupação é mais frequente em Cabo Verde, no Brasil e na Guiné-Bissau do que nos restantes países da amostra, reflectindo um sentimento de vulnerabilidade que atravessa diferentes contextos sociais.

No plano económico, o diagnóstico não foge ao padrão regional. O desemprego e o aumento do custo de vida surgem como fontes constantes de ansiedade, sobretudo entre os jovens e as pessoas com menor nível de escolaridade, grupos que sentem de forma mais directa o impacto da inflação e da escassez de oportunidades.

Curiosamente, a saúde, que é a principal preocupação à escala da CPLP — mencionada por 53% dos inquiridos — assume um peso relativamente menor em Cabo Verde, ficando atrás de países como Guiné-Bissau, Timor-Leste e Angola, onde as fragilidades do sistema de saúde são percepcionadas de forma mais aguda.

Um dos dados que mais chama a atenção no estudo diz respeito à satisfação com a democracia. Apesar de Cabo Verde ser frequentemente apontado como um exemplo de estabilidade democrática no espaço lusófono, 71% dos cabo-verdianos dizem-se insatisfeitos com o funcionamento da democracia. O contraste é evidente quando comparado com Portugal, onde cerca de dois terços da população declara-se satisfeita, ou com Timor-Leste, que regista o mais alto nível de satisfação, com 72%.

No que toca à imigração, o arquipélago apresenta um cenário amplamente positivo. Mais de 78% dos inquiridos consideram favorável o ambiente em relação aos imigrantes, colocando Cabo Verde ao lado de São Tomé e Príncipe e do Brasil. A percepção contrasta com a realidade portuguesa, único país do estudo onde o ambiente desfavorável à imigração supera o favorável.

O Barómetro revela ainda um aparente paradoxo em matéria de desigualdade de género. Cabo Verde é o segundo país onde os cidadãos percepcionam maior desigualdade, apenas atrás da Guiné-Bissau. No entanto, dados objectivos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento mostram um cenário diferente: o país está entre os que apresentam menor desigualdade real e uma das maiores representações femininas no parlamento dentro da amostra.

Já no domínio da desinformação, Cabo Verde surge entre os países com menor exposição a notícias falsas, a par de São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, situando-se abaixo de realidades como Portugal, Brasil, Moçambique ou Angola.

Estados Insulares vs. Estados Continentais

A primeira edição do Barómetro da Lusofonia permite ainda estabelecer uma leitura comparativa entre os países insulares e os estados continentais da CPLP, revelando diferenças significativas de percepção em várias áreas. Nos países insulares — Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste — as preocupações com infraestruturas e serviços básicos assumem um peso muito superior ao registado em países continentais como Brasil, Portugal, Angola ou Moçambique, reflectindo constrangimentos associados à insularidade.

Essa distinção repete-se no campo da desinformação. Os dados indicam que os países insulares registam uma menor incidência de exposição a notícias falsas, enquanto nos países continentais a percepção de contacto frequente com “fake news” é mais elevada.

No que respeita à satisfação com a democracia, o grupo insular apresenta contrastes internos marcantes. Timor-Leste destaca-se como o país com maior nível de satisfação em todo o estudo, enquanto Cabo Verde e São Tomé e Príncipe registam níveis elevados de insatisfação. Já no espaço continental, Portugal surge como uma excepção positiva, com uma maioria clara de cidadãos satisfeitos com o funcionamento democrático.

O estudo revela igualmente diferenças no grau de conhecimento e valorização da CPLP. Em Timor-Leste e São Tomé e Príncipe, o conhecimento sobre a organização é particularmente elevado e a sua actuação é vista como central para a afirmação nacional. No Brasil, pelo contrário, verifica-se um desconhecimento inicial mais amplo, embora a importância da comunidade seja reconhecida após a prestação de informação aos inquiridos.

Quanto ao papel da CPLP na mediação de conflitos internacionais, as populações de países insulares como Timor-Leste e Cabo Verde tendem a preferir uma postura menos assertiva da organização, em contraste com países continentais como Moçambique e Portugal, onde existe maior apoio a uma intervenção mais activa.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:André Amaral,8 fev 2026 14:31

Editado porSheilla Ribeiro  em  8 fev 2026 20:19

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