De acordo com o relatório da RSF, apesar da queda na classificação, o país continua a destacar-se na região por oferecer um ambiente de trabalho globalmente favorável aos jornalistas, com a liberdade de imprensa consagrada na Constituição.
No entanto, o documento chama a atenção para fragilidades persistentes, nomeadamente no domínio político e económico.
O indicador político passou da 25.ª posição (72,56 pontos) em 2025 para a 36.ª (65,73 pontos) em 2026, bem como o indicador económico que caiu de 43.º (54,34 pontos) para 55.º lugar (49,61 pontos).
Em contraste, o país mantém desempenhos relativamente positivos nos indicadores legislativo (34.º lugar, 77,38 pontos), social (44.º, 74,39 pontos) e, sobretudo, de segurança, onde ocupa a 24.ª posição com 92,78 pontos, apesar de também aqui se verificar uma descida face a 2025, quando estava no 10.º lugar.
O relatório sublinha que, apesar da sua dimensão, Cabo Verde possui um cenário mediático diversificado, com cinco canais de televisão, mais de 20 estações de rádio e vários órgãos de imprensa e plataformas digitais.
Entre os principais meios, destacam-se a televisão pública Televisão de Cabo Verde (TCV) e a Rádio de Cabo Verde (RCV), que lideram as audiências. Ainda assim, a geografia arquipelágica constitui um obstáculo à distribuição equitativa dos conteúdos por todas as ilhas.
No plano político, a RSF aponta que os directores dos órgãos públicos continuam a ser, na prática, alinhados com o poder político, mesmo após a criação de um conselho independente para a sua nomeação.
Segundo o relatório, este contexto favorece a autocensura entre os jornalistas e mantém uma cultura de sigilo, com o Estado a restringir, por vezes, o acesso a informações de interesse público.
A nível jurídico, Cabo Verde apresenta um enquadramento globalmente positivo, com leis que protegem o exercício do jornalismo e garantem o sigilo das fontes. No entanto, a RSF refere a um artigo do Código de Processo Penal, de 2005, que permite incriminar jornalistas em casos de violação de segredo de justiça, uma norma que já foi aplicada, nomeadamente em 2022, quando três jornalistas foram interrogados.
Desigualdades económicas no setor
O sector público continua a ser o principal empregador de jornalistas, absorvendo cerca de 70% dos profissionais. Estes beneficiam, em geral, de melhores condições salariais e maior estabilidade.
Por outro lado, os media privados enfrentam constrangimentos como um mercado publicitário limitado e a ausência de apoios estatais, o que condiciona o seu crescimento e sustentabilidade.
Do ponto de vista sociocultural, a sociedade cabo-verdiana é descrita como aberta e com poucos tabus que condicionem o trabalho jornalístico. O relatório salienta ainda a forte presença feminina nas redações, representando cerca de 70% dos profissionais.
Contudo, a dimensão reduzida das comunidades pode dificultar o desenvolvimento do jornalismo investigativo, já que os jornalistas tendem a evitar temas que envolvam pessoas próximas.
Cenário mundial
A liberdade de imprensa no mundo está no nível mais baixo dos últimos 25 anos, sobretudo devido à criminalização do jornalismo.
A Noruega continua no primeiro lugar, sendo o único país com classificação “excelente”, seguida por Países Baixos, Estónia, Dinamarca, Suécia e Finlândia.
Segundo o relatório, hoje, menos de 1% da população mundial vive em países com boa liberdade de imprensa (em 2002 eram 20%), enquanto mais de metade dos países (52,2%) está em situação “difícil” ou “muito difícil”.
No fim da tabela estão Arábia Saudita, Irão, China, Coreia do Norte e Eritreia. A Rússia também figura entre os piores, usando leis para limitar o trabalho dos jornalistas.
O Níger teve a maior queda em 2026, refletindo a deterioração da liberdade de imprensa no Sahel, marcada por violência e regimes militares.
Na América Latina, vários países pioraram, como o Equador que caiu fortemente após assassinatos de jornalistas, e o Peru também desceu devido a crimes contra profissionais da imprensa.
Argentina e El Salvador recuaram por causa de pressões políticas sobre os media.
Mesmo com pequenas melhorias, Venezuela, Cuba e Nicarágua continuam entre os piores, com forte repressão e condições muito difíceis para o jornalismo.
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