O nome de Eurico Monteiro foi proposto pelo presidente cessante Ulisses Correia e Silva, com o aval da Comissão Política e da Direcção Nacional do MpD. Confrontado com a proposta, o novo presidente interino não hesitou. Em declarações à TCV, afirmou ter-se sentido honrado com a confiança depositada nele, sublinhando que "não quis recusar servir o partido neste momento delicado". A sua missão, claramente delimitada no tempo, passa por conduzir o MpD até à realização da eleição do novo presidente, marcada para 6 de Setembro próximo.
Estabilidade e renovação como prioridades
Eurico Monteiro assume as funções com um propósito central: garantir normalidade e imparcialidade na gestão do partido durante os próximos meses. Nas suas próprias palavras, cabe ao presidente interino assegurar "um quadro de estabilidade, normalidade, isenção e imparcialidade" que permita ao MpD sair das eleições internas mais unido e motivado para os desafios que se avizinham (as eleições presidenciais, marcadas para 15 de Novembro, e as eleições autárquicas de 2028).
O comunicado do partido, citado pela Inforpress, não deixa margem para ambiguidades quanto ao espírito do momento: "Este é um momento de responsabilidade, serenidade e compromisso com a unidade interna, a estabilidade institucional e a democracia partidária."
Na mesma reunião online que ratificou a sua liderança interina, foi igualmente aprovada a realização da Convenção Nacional do MpD para os dias 25, 26 e 27 de Setembro, encontro que deverá reunir delegados de diferentes estruturas do partido para debater orientações políticas e proceder às deliberações previstas nos estatutos da organização.
Quatro candidatos, uma vitalidade renovada
O MpD chega a este momento de transição com quatro nomes já posicionados para disputar a liderança do partido: o deputado Orlando Dias, eleito pelo círculo eleitoral de África; o ex-líder parlamentar Paulo Veiga, que confirmou a sua candidatura na sequência do anúncio de demissão de Ulisses Correia e Silva; o actual presidente da Câmara Municipal de São Miguel, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares, antigo ministro do governo de Ulisses Correia e Silva.
Para Eurico Monteiro, este cenário é um sinal positivo. Em entrevista à TCV, o presidente interino considerou que o facto de já existirem três candidatos publicamente declarados "demonstra a vitalidade e sobretudo a crença" no projecto do partido. "Qualquer um desses candidatos representa muito para o MpD, representa vivacidade, representa também uma esperança", afirmou, acrescentando que os militantes podem estar confiantes de que haverá sempre gente disponível e capaz para ajudar a construir um futuro melhor.
Questionado sobre uma eventual candidatura sua à presidência efectiva do partido, Eurico Monteiro foi categórico: "Nunca manifestei o propósito e a intenção de me candidatar à presidência do MpD." E explicou a razão: "Vivemos um tempo de renovação. A gente sente essa necessidade de renovar, de dar voz a outras vozes, de dar cara também a outros rostos e haver a necessidade de um certo rejuvenescimento". De resto, o estatuto de presidente interino impede-o formalmente de concorrer ao cargo.
Um partido que precisa de se rever
As eleições legislativas de 17 de Maio deixaram marcas. O PAICV conquistou 37 dos 72 deputados à Assembleia Nacional, contra os 33 obtidos pelo MpD, uma derrota que levou Ulisses Correia e Silva a anunciar a sua demissão da liderança. Eurico Monteiro reconhece que o partido tem caminho a fazer e não foge à análise crítica.
Um dos trabalhos que a presidência interina terá de desenvolver passa exactamente por estudar os resultados de 17 de Maio, compreender as suas causas e tirar lições. O presidente interino considera que o MpD tem vindo a perder eleitorado para a abstenção, e que é urgente perceber porquê. Na entrevista à TCV, foi directo ao afirmar que o partido "precisa seguramente de melhorar, tanto no que diz respeito à associação política global partidária, mas também com um cuidado redobrado com as políticas públicas da governação."
Ouvindo os militantes ao longo dos últimos meses, e o próprio reconhece que o MpD tem "militantes muito, muito, muito críticos", uma conclusão emerge com clareza: é necessária "uma relação de maior cumplicidade, de maior proximidade entre a direcção e os militantes, as estruturas de base." Só assim, defende, o partido poderá revigorar-se e motivar-se para os próximos embates eleitorais.
Presidenciais no horizonte
Para além da gestão interna, Eurico Monteiro terá também de orientar o partido na sua posição face às eleições presidenciais de 15 de Novembro. O presidente interino espera que da esfera política do MpD saia um candidato forte para o Palácio do Plateau. "A candidatura presidencial é pessoal, mas os partidos políticos sempre apoiam um candidato proveniente da sua esfera política", sublinhou à TCV.
Nos próximos quatro meses, o MpD terá, portanto, de gerir em simultâneo a escolha do seu novo líder, a realização da sua Convenção Nacional e o posicionamento estratégico face a duas eleições de grande importância para o futuro do país.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1280 de 10 de Junho de 2026.
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