Automedicação com Viagra pode aumentar risco de enfarte, AVC e perda de visão, alerta ERIS

PorSheilla Ribeiro,19 ago 2026 11:12

A Entidade Reguladora Independente da Saúde (ERIS) alertou para os riscos do aumento da procura de sildenafil, substância activa utilizada no tratamento da disfunção eréctil e presente em medicamentos como o Viagra, sobretudo quando usado sem avaliação médica ou para fins recreativos, devido à possibilidade de provocar enfarte, AVC e perda de visão.

Segundo o Boletim de farmacovigilância divulgado esta terça-feira, 18, o sildenafil, princípio activo presente em vários medicamentos para o tratamento da disfunção eréctil e da hipertensão arterial pulmonar, tem sido cada vez mais procurado num contexto marcado pela valorização do desempenho sexual, pela pressão social, pela insegurança em relação à performance e pela facilidade de acesso através de canais não autorizados, sendo o Viagra uma das marcas comerciais mais conhecidas de sildenafil.

A entidade reguladora sublinha, contudo, que o sildenafil não é recomendado para homens que não apresentam dificuldades em obter ou manter uma erecção.

A utilização do medicamento para fins recreativos ou com o objectivo de aumentar o desempenho sexual, sem existir uma indicação clínica, pode expor o utilizador a riscos desnecessários. Entre os factores que contribuem para esta procura estão, segundo a ERIS, a falta de informação, a pressão social, factores socioculturais, a insegurança relativamente ao desempenho sexual, o marketing digital e a facilidade de acesso ao medicamento.

Entre os efeitos adversos mais frequentes associados ao sildenafil encontram-se dores de cabeça, rubor facial, congestão nasal, indigestão e náuseas. Na maioria dos casos, estas manifestações são transitórias.

A ERIS alerta, contudo, para complicações menos frequentes, mas potencialmente graves. Foram descritos problemas oculares, incluindo lesões do nervo ótico, alterações da retina e glaucoma agudo, que podem provocar perda parcial ou permanente da visão.

Também foram registados casos de perda auditiva súbita. Embora estas situações sejam pouco frequentes, a entidade considera que devem merecer atenção, sobretudo quando o medicamento é utilizado sem acompanhamento profissional.

A utilização inadequada pode ainda estar associada a problemas no fígado. O risco de toxicidade aumenta sobretudo quando a substância é administrada em doses elevadas, durante períodos prolongados ou através de suplementos adulterados que contenham sildenafil.

Os riscos associados à utilização do sildenafil são particularmente relevantes entre pessoas mais velhas e indivíduos com doenças cardiovasculares.

Nestas situações, a toma sem avaliação médica pode favorecer uma descida acentuada da pressão arterial e aumentar o risco de eventos cardiovasculares graves, incluindo enfarte agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, especialmente quando já existem fatores de risco.

Uma das principais contraindicações diz respeito à utilização simultânea de sildenafil e medicamentos que contenham nitratos. Estes fármacos são frequentemente utilizados no tratamento da angina de peito e de outras doenças cardíacas.

A combinação pode provocar uma queda marcada da pressão arterial e, em situações extremas, resultar em colapso cardiovascular, enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral ou morte.

Em Cabo Verde, o sildenafil é um medicamento sujeito a receita médica. A sua utilização deve, por isso, ser precedida de avaliação por um profissional de saúde capaz de determinar se existe indicação para o tratamento e se o medicamento é seguro para o paciente.

A ERIS chama a atenção particularmente para a aquisição de sildenafil através de plataformas de comércio electrónico, redes sociais e outros mercados não regulamentados. Além de possibilitar o acesso ao medicamento sem avaliação clínica, estes canais podem comercializar produtos falsificados ou de qualidade não assegurada.

Para além dos riscos físicos, a utilização do sildenafil sem necessidade clínica pode ter consequências psicológicas e sociais.

De acordo com a ERIS, o consumo recreativo pode levar alguns homens a desenvolver uma dependência psicológica, passando a acreditar que necessitam do medicamento para conseguir um desempenho sexual satisfatório.

O uso inadequado pode também contribuir para perpetuar percepções irrealistas sobre o desempenho sexual e atrasar o diagnóstico de doenças que estejam na origem da disfunção eréctil.

A entidade chama ainda a atenção para a possibilidade de o uso recreativo estar associado a outros comportamentos de risco, incluindo relações sexuais desprotegidas e consumo combinado com drogas ilícitas, aumentando a exposição a infecções sexualmente transmissíveis, como o VIH.

Para reduzir os riscos, a ERIS recomenda que a utilização de sildenafil seja precedida por uma avaliação médica do estado de saúde do homem, incluindo a análise do risco cardiovascular e a identificação de eventuais contraindicações.

É igualmente necessário verificar se o paciente utiliza medicamentos à base de nitratos ou outros fármacos que possam interagir com o sildenafil.

A entidade recomenda ainda o cumprimento rigoroso da dose e da frequência de administração indicadas pelo profissional de saúde, a aquisição do medicamento exclusivamente através de canais legalmente autorizados e a monitorização da resposta ao tratamento e de eventuais reações adversas.

Quando utilizado de acordo com as indicações aprovadas e sob orientação médica, o sildenafil apresenta um perfil de eficácia e segurança amplamente comprovado. O problema surge quando um medicamento destinado ao tratamento de uma condição clínica passa a ser utilizado sem necessidade terapêutica, sem avaliação prévia ou para fins recreativos.

A ERIS defende, por isso, o reforço da sensibilização e da educação para a saúde, bem como do aconselhamento médico e farmacêutico sobre os benefícios, riscos e contraindicações do sildenafil.

Qualquer suspeita de reacção adversa associada ao medicamento, incluindo situações decorrentes de utilização incorreta, deve ser comunicada à ERIS. A notificação destes casos permite acompanhar o perfil de segurança do fármaco, identificar novos sinais de risco e adotar medidas destinadas a proteger a saúde pública.

Foto: depositphotos

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Autoria:Sheilla Ribeiro,19 ago 2026 11:12

Editado porSara Almeida  em  19 ago 2026 14:26

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