​"Queremos um hospital e polícia nas ruas" - José Luís Santos

PorAntónio Monteiro,10 jun 2018 9:38

José Luís Santos
José Luís Santos

A Boa Vista é um dois maiores pólos turísticos do país, porém, regista uma situação social onde despontam carências, sobretudo a nível de segurança, habitação e saúde. A população saiu recentemente à rua para manifestar a sua insatisfação. Em entrevista ao Expresso das Ilhas, o presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, José Luís Santos, elenca as respostas que está a trabalhar, conjuntamente com o Governo.

O Conselho Nacional da Segurança analisou na passada semana a situação securitária do país. Para Boa Vista que relevância têm as decisões tomadas nesta reunião?

Como sabe, Boa Vista é a segunda maior ilha de Cabo Verde em termos de acolhimento de turistas. Como sabe também, a ilha tem condições e potencialidades naturais para ocupar a primeira posição. Aliás, estou muito seguro de que dentro de poucos anos a ilha da Boa Vista irá destronar a ilha do Sal. Como eu disse, temos potencialidades naturais, é a ilha com mais praias e o turismo que nós temos em Cabo Verde é sobretudo de sol e praia. Acho muito bem que o Sr. Primeiro-ministro tenha anunciado as medidas para mitigar a questão da insegurança que se tem colocado a nível das ilhas do Sal e da Boa Vista. Como se sabe, são as principais portas de entrada de turistas a nível nacional e temos não só de dar a esses turistas que visitam Cabo Verde o sentimento de segurança, como também garantir-lhes a efectiva segurança. O turismo representa uma fatia muito importante no PIB nacional e portanto o governo tem que trabalhar juntamente com as câmaras municipais para criar condições propícias para que o turista e o nacional se sintam seguros não só nas ilhas do Sal e da Boa Vista mas em todo o Cabo Verde. Na ilha da Boa Vista temos notado medidas muito claras neste sentido. Por exemplo, a decisão de há alguns meses do governo de elevar a Esquadra da Polícia a Comado é um sinal muito claro em como o governo quer apostar efectivamente na melhor segurança da Boa Vista. Esta elevação significa o reforço efectivo das condições de funcionamento nesta ilha. Aliás, na sequência desta elevação, um contingente muito importante da polícia já chegou à Boa Vista para reforçar o número de agentes aqui destacados e já se sente claramente um reforço de meios de locomoção da polícia. Portanto, esses são sinais muito claros em como o governo quer, de facto, apostar na melhor segurança da ilha da Boa Vista.

O turista quando sai do país emissor já pagou a viagem, já pagou o alojamento e já pagou tudo o que vai consumir no hotel. Portanto, ele não tem necessidade de sair do hotel para passear nas vilas e na cidade, mormente se não tivermos os nossos centros urbanos atractivos, requalificados, com centralidades que estimulem os turistas a saírem dos hotéis e irem gastar nos nossos bares e nos nossos restaurantes.

Mas há ainda outros aspectos securitários que precisam ser melhorados.

Obviamente. Por exemplo, o aumento do número de efectivos vai seguramente traduzir-se no aumento do policiamento urbano, porque na Boa Vista quase não se nota polícias na rua para garantir a segurança do cidadão. É que a maioria dos agentes estão adstritos ao aeroporto. Nós queremos ver polícias nas ruas a patrulhar a cidade e os povoados, para que o cidadão se sinta efectivamente seguro. Além deste aspecto, põe-se também o problema da Polícia Judiciária, porque o seu concurso contribui consideravelmente para o reforço da segurança. Há alguns anos, tínhamos na Boa Vista cinco efectivos da PJ. Neste momento em que a ilha galgou os degraus do desenvolvimento, temos menos agentes da PJ. Temos agora só três agentes, sem instalações, sem uma viatura para locomoção. Portanto, isso também se traduz claramente na perda da segurança efectiva na ilha da Boa Vista. Acreditamos que o ‘Plano de Segurança Turística’ que vai ser implementado vai concorrer positivamente para o reforço da segurança na ilha da Boa Vista. Estamos seguros que as medidas que o governo tem tomado vão surtir efeito e que venham quanto antes possível para que a Boa Vista possa ser um destino seguro não só para os turistas como também para os nacionais que demandam esta ilha.

A perspectiva é que em 2021 Cabo Verde possa atingir um milhão de turistas. Que medidas é que as autoridades irão tomar para garantir a segurança desta avalanche turística?

Acho que já se começou a dar passos nesse sentido. A questão que eu lhe falei há pouco do reforço da segurança é um dos aspectos muito importantes, porque queremos que a taxa de repetência de turistas em Cabo Verde e Boa Vista seja elevada. Neste momento devemos dizer que a repetência de turistas que visitam a ilha da Boa Vista não é aquela que nós desejaríamos. Para isso a segurança é fundamental; a qualificação profissional dos jovens que prestam serviço aos hotéis e aos turistas é também fundamental, porque nós temos que competir com os melhores. O saber fazer hoje em dia é fundamental. Por isso, nós temos que trabalhar conjuntamente com o governo na qualificação dos nossos jovens que perfazem o grosso da mão-de-obra para servir bem os turistas. Em relação à sustentabilidade do turismo, eu gostaria de falar da necessidade da qualificação do destino Boa Vista. Aliás o governo e a câmara municipal da Boa Vista sempre tiveram esse entendimento e estamos a trabalhar em parceria neste sentido. Por exemplo, a requalificação urbana é fundamental para que o turismo possa ter impacto na economia local. A realidade da Boa Vista diz-nos que os hotéis distam muitos quilómetros da cidade de Sal-Rei. Então o turismo que temos em Cabo Verde é basicamente o tudo-incluído. O turista quando sai do país emissor já pagou a viagem, já pagou o alojamento e já pagou tudo o que vai consumir no hotel. Portanto, ele não tem necessidade de sair do hotel para passear nas vilas e na cidade, mormente se não tivermos os nossos centros urbanos atractivos, requalificados, com centralidades que estimulem os turistas a saírem dos hotéis e irem gastar nos nossos bares e nos nossos restaurantes. A requalificação é uma das áreas em que o governo tem que apostar fortemente. Uma outra questão que não gostaria de deixar passar em branco tem a ver com a saúde. Do meu ponto de vista, a saúde é uma outra área em que mais temos necessidade de investir. Uma ilha como a Boa Vista que recebe uma fatia considerável de turistas não pode na actual conjuntura ter um único Centro de Saúde para servir uma ilha (nacionais e turistas) que demograficamente é aquela que mais cresce a nível nacional. Portanto, o governo tem que fazer todo o esforço possível para dotar a ilha da Boa Vista de um hospital, com equipamentos de diagnóstico e com médicos especialistas para que possamos acudir em tempo útil às demandas que surgem na ilha.

Já agora, se um turista adoece na Boa Vista o que é que lhe acontece?

Temos tido vários casos de turistas que têm sentido necessidade de serem acudidos por médicos especialistas, com meios de diagnóstico que não temos na ilha e ficam sem serem atendidos…

Qual é a solução nesses casos?

A solução é a evacuação rápida. Felizmente o Aeroporto Internacional da Boa Vista é muito movimentado, com variadíssimas ligações diárias e directas com Europa e este tem sido um recurso de que os turistas se têm valido para serem evacuados para o exterior.

Aqui estamos quase perante um absurdo: enquanto o turista consegue uma evacuação rápida para o exterior, os nossos doentes da Boa Vista são evacuados em pequenas embarcações para a ilha do Sal, por falta de disponibilidade da Binter.

É verdade. Essa, aliás, foi a principal razão da manifestação que teve lugar na ilha da Boa Vista [SOS Bubista]. Tenho que dizer com a frontalidade que me caracteriza que o país está mal servido em termos de ligações aéreas domésticas e Boa Vista não foge à regra. Está mal servida em termos de frequência de voos e em termos de qualidade do serviço prestado. Não posso perceber, nem há razões que o justifiquem, que um turista ou um nacional não consiga ser evacuado quando um médico diz que estão esgotadas as possibilidades de tratamento a nível local. Não posso perceber que a Binter negue fazer a evacuação de doentes. Portanto, do meu ponto de vista, este é um serviço social que qualquer companhia área, sobretudo uma companhia com monopólio, deve prestar…

Estou à espera que o Sr. Primeiro-ministro me receba para conversar com ele e fazê-lo ver essas reivindicações e darmos as mãos, câmara municipal e governo, para continuarmos a trabalhar no sentido de vislumbrar as soluções para os problemas da ilha da Boa Vista.

Trata-se mesmo de um serviço público, resta saber se foi negociado.

Exactamente, é serviço público. Portanto, basta a delegada de Saúde dizer que tal paciente tem que ser evacuado, que corre sérios riscos de vida por se terem esgotados os recursos locais, a Binter, do meu ponto de vista, deve imediatamente acatar a decisão da delegacia de Saúde e rapidamente evacuar o doente. Imagine se a pessoa falecer, quem é que se responsabiliza? Portanto, do meu ponto de vista, essa é uma questão que o governo central, juntamente com a Binter, deve resolver. Aliás, nós, desde o primeiro caso, contactamos imediatamente a direcção da Binter, demos conhecimento desde o Sr. Presidente da República, passando pelo Sr. Primeiro-ministro, pelo ministro da Saúde, pela delegada de Saúde e mais algumas autoridades dando conta do nosso descontentamento pela forma como a Boa Vista e os boa-vistenses têm sido tratados. E não é nem a primeira, segunda ou terceira vez. E é só visto de cada vez que a Binter nega evacuar uma pessoa, as condições infra-humanas em que as pessoas são evacuadas até de botes. Isso é inaceitável. Portanto, não há justificação para esse comportamento da Binter. Eu já tenho dito, se for com esse tipo de serviços nós não precisamos dessa companhia em Cabo Verde. Porque é um serviço público que a Binter não pode negar prestar aos cidadãos desta ilha.

Já foi contactado pelo governo acerca desta manifestação?

Não fui. Eu participei com muito gosto nessa manifestação, porque eu tenho que ser solidário com a população da Boa Vista, nas horas boas e nas horas menos boas. Tive que me solidarizar, porque presenciei algumas evacuações marítimas na sequência da recusa da Binter. Portanto, eu não podia em consciência não participar na manifestação. E sempre que houver manifestações do tipo para reivindicar melhores condições para a ilha da Boa Vista eu estarei na linha da frente. Na sequência dessa manifestação, solicitei uma audiência ao Sr. Primeiro-ministro, porque a manifestação não se centrou apenas na questão das evacuações, para explicar ao governo os impactos que podem advir desta manifestação. Estou à espera que o Sr. Primeiro-ministro me receba para conversar com ele e fazê-lo ver essas reivindicações e darmos as mãos, câmara municipal e governo, para continuarmos a trabalhar no sentido de vislumbrar as soluções para os problemas da ilha da Boa Vista.

Fala-se agora muito na deslocalização da criminalidade. Sente-se isso na Boa Vista?

Isso é evidente. É só ver, por exemplo, o dia em que chegam barcos de Santiago; nesses dias a criminalidade aumenta, mas isso não é nenhuma descoberta que o presidente da câmara municipal está a fazer. Basicamente são delinquentes vindos de Santiago que nessas alturas fazem disparar o índice de criminalidade na ilha da Boa Vista. Quer dizer que esse flagelo é importado de outras ilhas. Nós acreditamos que a Boa Vista vive num ambiente de paz e que há momentos de picos de insegurança, sobretudo na sequência da chegada de barcos vindos de outras ilhas, nomeadamente de Santiago.

O que é que o governo e a própria câmara estão a fazer para fazer face a esta deslocalização?

Há pouco nomeei algumas medidas. Falei do aumento significativo das condições de trabalho dos polícias na ilha da Boa Vista. Esse é um aspecto muito importante; falei da implementação do ‘Plano de Segurança Turística’com câmaras de videovigilância para a melhoria da segurança na ilha; falei da necessidade de criar as condições para melhorar os cuidados da saúde na ilha da Boa Vista; falei da necessidade da PJ ter uma presença mais activa na ilha da Boa Vista; posso falar da necessidade do combate à construção clandestina que infelizmente grassa na ilha da Boa Vista. Mas devo dar a boa nova que em parceria com o governo já estamos a atacar este mal no sentido de encontrar soluções para o combate a este mal social que é a habitação degradada, através do projecto ‘Casa para Todos’ e através de disponibilização de lotes para que o cidadão não sinta necessidade de enveredar para a construção clandestina, mas que possa comprar o seu lote com toda a transparência. Do meu ponto de vista, todos esses aspectos contribuem significativamente e satisfatoriamente para a melhoria do ambiente do turismo e para o crescimento e desenvolvimento efectivo da ilha da Boa Vista. Portanto, esses projectos são fundamentais e que em parceria com o governo já estão a ser materializados. Dentro de dias teremos o arranque de projectos importantes em parceria da câmara municipal com o governo, por exemplo, a rede de esgotos do bairro de Boa Esperança e a sua requalificação e o novo assentamento a Norte do bairro de Boa Esperança. Estamos na fase final do processo negocial com a IFH para o realojamento de parte substancial das famílias que habitam os bairros degradados nas habitações ‘Casa para Todos’ classe-A. Todos esses projectos irão concorrer positivamente para criar um melhor ambiente para o desenvolvimento turístico em Cabo Verde e estou em crer que esses projectos poderão ser muito importantes para qualificar o destino turístico Boa Vista e para fazer um combate sério a um conjunto de males socais que infelizmente grassam a ilha, na sequência do crescimento turístico que esta ilha conheceu nos últimos anos. 

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Autoria:António Monteiro,10 jun 2018 9:38

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  11 jun 2018 15:01

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