PAICV aponta melhoria das condições de vida como prioridade; MpD defende consensos e UCID pede reformas estruturais

PorEdisângela Tavares,8 jul 2026 12:19

Na sessão solene comemorativa do 51.º aniversário da Independência Nacional, os partidos com assento parlamentar apontaram as suas prioridades para o novo ciclo político. O PAICV defendeu que o crescimento económico deve traduzir-se em melhores condições de vida, o MpD apelou à convergência em torno dos interesses nacionais e a UCID insistiu na necessidade de reformas para combater as desigualdades.

PAICV quer crescimento económico com reflexos na vida das famílias

Na intervenção, a líder do Grupo Parlamentar do PAICV, Carla Lima, defendeu que deve ser avaliada a capacidade de transformar o crescimento económico em melhores condições de vida para os cabo-verdianos, considerando que os indicadores macroeconómicos, por si só, não reflectem a realidade vivida por muitas famílias.

Sem ignorar a evolução positiva de alguns indicadores económicos nos últimos anos, a deputada sustentou que o país continua confrontado com problemas estruturais, apontando como prioridades o combate ao desemprego jovem, a melhoria do acesso à habitação, à saúde, à justiça e aos transportes interilhas, bem como a criação de mais oportunidades para fixar os jovens no país.

Na sua perspectiva, governar significa garantir que o crescimento económico se traduz em benefícios concretos para a população e não apenas em bons resultados estatísticos.

Carla Lima afirmou que o mandato atribuído pelos cabo-verdianos ao PAICV representa uma exigência de resultados e assegurou que o partido pretende governar «com humildade para ouvir, rigor para decidir e coragem para reformar o que precisa ser reformado».

Na vertente institucional, assumiu o compromisso de promover ainda este ano um entendimento entre todas as forças políticas com assento parlamentar para viabilizar a renovação dos órgãos externos cuja eleição depende da Assembleia Nacional. Considerou que o processo constitui uma questão de regularidade institucional e defendeu que não deve continuar condicionado por bloqueios políticos ou interesses partidários, reiterando a disponibilidade do PAICV para procurar consensos em matérias estruturantes para o funcionamento das instituições.

A líder parlamentar destacou igualmente a eleição da primeira mulher para a presidência da Assembleia Nacional como um marco na consolidação da democracia e na promoção da igualdade de género, considerando que a escolha representa um sinal de que o mérito e o serviço público continuam a abrir novos espaços de participação política às mulheres.

A concluir, evocou a participação da selecção nacional no Campeonato do Mundo de futebol, afirmando que o percurso dos Tubarões Azuis demonstrou a capacidade de Cabo Verde para competir ao mais alto nível quando aposta no talento, na organização e no trabalho colectivo, apontando esse exemplo como inspiração para os desafios do novo ciclo político.

MpD apela à convergência em torno dos interesses nacionais

Em representação do Grupo Parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva defendeu que Cabo Verde deve encarar os próximos 50 anos como uma nova etapa de afirmação internacional, sustentada na consolidação da democracia, na valorização do capital humano, na inovação e na transição energética.

O deputado apelou a que as celebrações das principais datas da história do país deixem de alimentar divisões políticas, defendendo que o 5 de Julho e o 13 de Janeiro pertencem à memória colectiva dos cabo-verdianos e devem servir para reforçar a unidade nacional.

«A memória nacional não pode ser usada como arma, mas como ponte», afirmou, considerando que o país já alcançou uma maturidade cívica que exige maior convergência em torno dos interesses nacionais.

Ao fazer um balanço dos 51 anos da Independência, Luís Carlos Silva sustentou que o desenvolvimento de Cabo Verde resulta do contributo de diferentes ciclos políticos e que este percurso demonstra que o progresso nacional é fruto da continuidade das instituições e da capacidade de preservar um projecto comum de desenvolvimento.

Projectando o futuro, alertou para os desafios que a desinformação, a polarização e o extremismo colocam às democracias, defendendo o reforço do Estado de Direito, da separação de poderes e da liberdade de imprensa. Na vertente económica, considerou que o principal recurso estratégico de Cabo Verde continua a ser o capital humano, pelo que defendeu uma aposta reforçada na educação, na ciência, na inovação e na inteligência artificial. Defendeu ainda que o país assuma a ambição de se tornar um dos primeiros do mundo totalmente alimentados por energias renováveis, apostando no sol, no vento e no oceano para reforçar a sustentabilidade, a competitividade e a independência energética.

UCID defende reformas para combater desigualdades e descentralizar o Estado

Por sua vez, o presidente da UCID, João Santos Luís, defendeu que o país deve iniciar um novo ciclo de reformas para corrigir desigualdades sociais e territoriais, descentralizar o Estado e melhorar as condições de vida dos cabo-verdianos.

Embora tenha destacado os avanços registados desde a Independência, nomeadamente a consolidação da democracia, a estabilidade institucional e a realização de eleições livres, o líder da UCID considerou que persistem desafios estruturais que impedem um desenvolvimento mais equilibrado entre as ilhas.

Entre os principais desafios, apontou a concentração de poder, as assimetrias regionais, o elevado custo de vida, a precariedade laboral e as dificuldades dos jovens no acesso ao emprego. Defendeu que a política «só encontra legitimidade quando melhora efectivamente a vida das pessoas», apelando a uma descentralização efectiva, com mais competências e recursos para municípios e ilhas, e a uma reforma da administração pública que torne o Estado mais eficiente, menos burocrático e mais próximo dos cidadãos.

João Santos Luís sustentou ainda que a melhoria do ambiente de negócios é essencial para estimular o investimento, o empreendedorismo e a criação de emprego, defendendo um modelo de crescimento «mais robusto, sustentável e inclusivo». Destacou igualmente o papel estratégico da diáspora no desenvolvimento do país e concluiu apelando à renovação do compromisso com os valores da Independência, colocando o interesse nacional acima das disputas políticas para construir «um país mais justo, mais equilibrado, mais inclusivo e mais próspero».

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.

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Autoria:Edisângela Tavares,8 jul 2026 12:19

Editado porClaudia Sofia Mota  em  12 jul 2026 23:21

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