Qual é a avaliação global que a UCID faz do Programa do Governo?
A UCID avalia o Programa do Governo com base na sua visão estratégica, coerência, viabilidade e capacidade de execução. Reconhecemos uma visão estratégica para vários sectores do desenvolvimento nacional, com aspectos positivos na descentralização, modernização da Administração Pública, digitalização, combate à corrupção, valorização da educação e da saúde. Contudo, trata-se de um programa ainda excessivamente declarativo, com muitas intenções e poucos compromissos quantificados, metas, prazos e prioridades claramente definidos, o que dificulta a fiscalização e a responsabilização política. O Programa procura conciliar crescimento económico, investimento público, reforço dos serviços públicos, protecção social, industrialização e inovação tecnológica. É um documento ambicioso e abrangente, mas a sua credibilidade dependerá essencialmente da capacidade de execução.
Vai a UCID votar contra ou abster-se na moção de confiança? Porquê?
A UCID continua a analisar o documento. A decisão será tomada oportunamente, após uma avaliação política completa.
A estratégia económica apresentada é diferente ou representa continuidade?
Existem diferenças de enfoque, mas também muitas continuidades. Há maior aposta na diversificação económica, economia azul, agricultura, inovação e reforma do Estado. Porém, continuam a faltar medidas concretas que permitam transformar essas orientações em crescimento económico inclusivo. A UCID defende uma estratégia que coloque o sector privado no centro da criação de riqueza, reduza os custos de contexto, aumente a competitividade e promova um desenvolvimento equilibrado entre todas as ilhas.
Existem condições para executar este programa com sucesso?
Existem dúvidas legítimas. O sucesso dependerá da capacidade de execução num contexto de limitações financeiras, elevada dívida pública, dependência externa e fragilidades da Administração Pública. Sem prioridades claras e gestão rigorosa dos recursos, muitas medidas poderão permanecer apenas no papel. A UCID acompanhará a execução do Programa com sentido de responsabilidade e exigência.
Qual é o principal ponto forte e o principal ponto fraco?
Quanto aos pontos fortes, o programa apresenta uma visão estratégica assente na diversificação da economia, valorizando agricultura, pescas, economia azul, indústria, inovação e transformação digital, reduzindo a dependência do turismo. Na educação, aposta na universalização do pré-escolar, melhoria do ensino, ensino técnico, ciência e inovação. Na saúde, propõe reforçar a cobertura universal, a digitalização, a telemedicina e os recursos humanos. Existe ainda preocupação com o combate à pobreza, a inclusão social e a proteção de grupos vulneráveis. Relativamente aos pontos fracos, o Programa acumula um elevado número de promessas, como saúde e universidade gratuitas, redução do IVA, novas infraestruturas e novos fundos públicos, sem explicar de forma convincente como serão financiadas. Faltam estimativas de custos, impactos orçamentais, fontes de financiamento, prioridades e calendário de execução. Apresenta metas ambiciosas, como a redução da pobreza e o aumento do salário mínimo, sem demonstrar a sua sustentabilidade financeira. Prevê igualmente um reforço significativo da estrutura do Estado, mas apresenta poucas reformas concretas para reduzir burocracia, melhorar a eficiência administrativa e controlar a despesa pública. Trata-se de um programa ambicioso e abrangente, que procura conciliar crescimento económico com reforço das funções sociais do Estado. A sua principal virtude é apresentar uma visão integrada para o desenvolvimento de Cabo Verde. A principal fragilidade reside na credibilidade da execução. O elevado número de compromissos não é acompanhado por informação suficiente sobre financiamento, prioridades e calendarização, o que levanta dúvidas sobre a sua concretização.
Este programa melhora a vida das pessoas nos próximos 12 meses?
O Programa contém medidas com potencial impacto a médio e longo prazo, mas poucas terão efeitos imediatos.
Os cabo-verdianos esperam respostas urgentes para o custo de vida, emprego, transportes, saúde, habitação e rendimentos. O documento apresenta orientações gerais, mas poucas medidas concretas que permitam antecipar melhorias significativas já no próximo ano.
O que este governo está a ignorar deliberadamente?
A UCID considera que o Programa do Governo não dá a devida centralidade a problemas que hoje condicionam profundamente a vida dos cabo-verdianos. Continua a faltar uma estratégia robusta para combater o elevado custo de vida e aumentar o poder de compra das famílias. Preocupa-nos a ausência de prazos para a resolução da crise dos transportes interilhas, que continua a afetar a mobilidade das pessoas, das empresas e o desenvolvimento económico das ilhas e, igualmente, a ausência de medidas mais objetivas para criação de oportunidades para jovens, reforçar a produção nacional, apoiar de forma mais consistente a agricultura, as pescas e as micro e pequenas empresas e reduzir as assimetrias regionais. Finalmente, embora o Governo assuma compromissos com a descentralização e a regionalização, continua sem apresentar um calendário claro para a concretização dessas reformas, o que pode adiar, mais uma vez, uma transformação que o país reclama há muitos anos. A UCID mantém-se totalmente disponível para o diálogo e para os consensos necessários em prol de Cabo Verde e dos cabo-verdianos. Estaremos atentos e firmes no acompanhamento, na fiscalização e na avaliação contínua da execução do programa apresentado.
N.R - O PAICV foi contactado pelo Expresso das Ilhas, no entanto a sua líder parlamentar, Carla Lima, remeteu o pronunciamento do partido para uma data futura
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.
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