Betú e a Morna: “É preciso distinguir os verdadeiros criadores dos meros reprodutores de ideias musicais”

PorSara Almeida,11 dez 2020 9:53

O primeiro aniversário da elevação da morna a Património Imaterial da Humanidade foi o pretexto para uma conversa com um dos mais consagrados compositores contemporâneos de morna. Músico-poeta do Amor, Djarmai e Cabo Verde, Betú fala da sua própria experiência, mas também da história, suas reflexões e escolhas em torno deste “género avançado” de música, que é mais um milagre dos ‘grãozinhos de terra’.

As primeiras composições de Betú, de nome de baptismo Adalberto Silva, perdem-se na memória da sua meninez. “Criar Cantiga” era uma das brincadeiras preferidas enquanto criança no Maio, onde nasceu em 1961. E tudo servia – caixas, latas e outros achados – para instrumentalizar as criações e tocar para os colegas que dançavam ao ritmo dessa música improvisada, imitando os bailes de violino que na altura havia na ilha.

Do brincar de música à experiência de composição foram escassos anos. Ainda adolescente, estudante na Praia na década de 70, compôs uma música para o grupo “lá do Liceu” onde era baixista. Ainda uma brincadeira, diz. “Nem morna, nem coladera”. Na moda estava a música das Antilhas e foi nesse estilo que compôs uma canção de uma só quadra, en français, de relativo sucesso nos saraus culturais que se faziam no ginásio da escola.

“O pessoal reagiu bem. Foi um primeiro sinal para me despertar para a criação de música”, recorda.

Mas foram as saudades, durante as férias passadas no Maio, de uma namorada que estava na Praia, que lhe arrebataram a primeira morna.

“Logo a seguir, veio a música Manú”. E veio também, depois, Rasposta e as duas foram incluídas num álbum dos Tubarões.

“Já no fim do Liceu tive esse contacto com os Tubarões, através de um colega meu que era irmão do Ildo Lobo, e que passou as músicas para o Ildo”, recorda.

Assim, ainda antes de terminar o Liceu, Betú viu obras suas gravadas por um dos maiores intérpretes da morna, numa relação que se manteria por vários anos.

Houve porém um interregno. Em estrada paralela à da música, Adalberto Silva foi estudar para Portugal, na Faculdade de Economia do Porto, e embora tenha continuado a compor, a distância, num tempo em que a comunicação ainda era essencialmente física, não permitiu gravações.

No regresso, o contacto foi retomado “em força” e várias composições suas integraram obras dos Tubarões e os três discos a solo de Ildo Lobo, destacadamente Intelectual (2001), onde metade dos temas são da autoria de Betú.

“O Ildo gravou 12 músicas minhas, três com os Tubarões e nove nos seus três discos a solo”, contabiliza em retrospectiva.

Uma relação, de muito convívio, que originou alguns dos melhores momentos da música cabo-verdiana, e que foi cortada pela morte precoce do cantor, que o compositor recorda várias vezes ao longo desta entrevista que ora versa sobre Betú, em particular, como sobre a morna, em geral. Como se ambos acabem por não ser, na realidade, indissociáveis…

É assumido que o Ildo Lobo é o intérprete preferido das suas músicas. De que outros gosta de “o” ouvir cantar?

Sim, o Ildo sem dúvida foi o melhor intérprete das minhas músicas. Outros são, o Mirri Lobo, o primo dele, também gosto das interpretações de Nancy Vieira,… a Cesária, sem dúvida… Com o Ildo a proximidade era maior, então tinha essa vantagem em relação aos outros intérpretes.

Voltando atrás, ao momento da criação. Qual o estado de espírito necessário para criar uma morna?

Situações que causam emoções fortes, de saudade, de amor. Mas também de ouvir histórias ou de ler… Eu tenho várias músicas que foram estimuladas pela audição de música que não têm nada a ver com Cabo Verde. Quantas vezes não me inspirei, não me motivei para escrever ou criar uma nova música ouvindo, por exemplo, Chopin ou Mozart! Qualquer coisa que desperte emoção forte.

O que faz da morna rainha entre a música cabo-verdiana?

Eu sou um compositor mais de morna. Tenho umas coladeras, mas muito poucas, a esmagadora maioria é morna. A morna exige uma profundidade de sentimento, é a música mais “séria”, de sentimento mais forte e mais profundo, e também associado aos meus temas favoritos. O tema favorito é amor, “cusas di curason”. Mesmo em termos literários, da parte de letras há, digamos, possibilidades poéticas são mais alargadas.

E em geral?

A morna é um género que já está consolidado há décadas, desde o tempo de Eugénio Tavares. E é um género avançado. Às vezes, quando ouço uma morna, fico a pensar como é que é possível um povo tão simples, tão pobre, ter conseguido criar um género musical tão avançado. Um género que não fica a dever nada a nenhum dos grandes géneros de música popular, a nível mundial conhecidos. A morna não fica a dever nada ao tango, ao samba, ao fado...

Como explicaria a morna a alguém que nunca a ouviu? Como a definiria?

É música romântica. Dos meus estudos e das minhas leituras e reflexões, a morna nasceu naquele período de muita influência do romantismo europeu, aquele período do século XIX. Por isso é que apesar de Cabo Verde ser um país africano, a morna é um género criado pelo povo cabo-verdiano, mas com muita influência do romantismo europeu.


Há muito que a morna é um género consolidado, mas tem-se dito que houve um tempo em que esta era subvalorizada.

Houve. E houve até receio do desaparecimento da morna. Isso aconteceu sobretudo depois da independência.

Politização da morna?

Não. Influências várias. Influência das músicas estrangeiras. A morna caiu um pouco. Depois ganhou fôlego com o fenómeno Cesária, e também o Ildo, um homem de morna, em muito contribuiu. A decisão dele de gravar um disco inteiro só de mornas, o que nunca tinha acontecido, acho que também ajudou muito. Mas sobretudo o fenómeno Cesária. Isto veio dar um outro fôlego à morna, porque a geração mais nova, os jovens, já não estava a ligar muito à morna, não aprendia a morna, nem a nível de instrumentistas, nem a nível de vozes. Quando falo em fenómeno Cesária, é reconhecimento, mas lá fora. Foi de fora para dentro. Depois, de dentro para fora.

Hoje, o patamar de reconhecimento, cá dentro, já é outro?

Sim, e a elevação da morna a Património Imaterial da Humanidade é uma grande ajuda. Hoje vemos que a juventude está, de facto, a dar atenção à morna. Estão a surgir intérpretes novos, não só instrumentista, como de vozes, embora vozes essencialmente femininas. Há mais mulheres jovens cantoras de morna do que rapazes.

Em contrapartida, basicamente não há mulheres compositoras de morna. A morna, um género de composição masculina?

Tem sido… havia a Tututa e também uma compositora aqui da Praia, de cujo nome não me lembro, que tinha umas mornas bonitas. Não mais. Mas isto não se passa só na morna. Em termos de composição, em todos os géneros, não há muita expressão de mulheres como compositoras. Agora é que estamos a ver a geração mais nova, da Mayra, da Elida, que estão a ser ao mesmo tempo intérpretes e compositoras, mas ainda de morna ainda não há. Ou seja, há mais mulheres compositoras, mas de outros géneros, sobretudo géneros modernos da música cabo-verdiana. Mas de morna, continua a ser uma raridade haver compositoras.

Porque acha que isso acontece? A morna fala mais em sentimentos masculinos?

Não sei explicar. A morna também é sentimento feminino. Aliás, segundo dizem os estudiosos da morna, a morna primitiva da Boa Vista era sobretudo uma morna de mulheres, as cantadeiras de mornas, e eram elas mesmas que criavam as suas músicas e as cantavam. Depois mudou, masculinizou-se em termos de criação, virou para um domínio masculino. Quando ‘foi’ para a Brava e São Vicente já era domínio masculino, mas na Boa Vista naquela fase primitiva da morna, era uma criação e uma interpretação sobretudo feminina.

Voltando aos tempos de hoje. A elevação da morna a Património Imaterial da Humanidade, apesar de este ser um ano marcado pela covid, trouxe efectiva valorização?

Trouxe, mas essa valorização podia ser muito mais sentida e podia ganhar muito mais força se não fosse a covid. A covid prejudicou particularmente a área cultural, e se não fosse a pandemia, hoje teríamos mais manifestações, mais actuações com mornas. Mas, de qualquer maneira nota-se, digamos, uma atenção acrescida, com a promoção a património da humanidade.

Neste mainstream, teme que a morna possa acabar por ser descaracterizada, adulterada, ou acha que pelo contrário vai fortalecer-se a sua essência?

Temos que contar com a evolução porque sempre a houve. A morna teve várias fases, a fase primitiva da Boa Vista; depois a da Brava, de Eugénio Tavares; depois São Vicente, de B.Léza, e também a nossa fase, da nossa geração. Tem evoluído e vai continuar a evoluir querendo nós ou não. Mas creio também, que com essa promoção, com este estatuto de património da humanidade, haverá um cuidado acrescido para a preservação dos aspectos essenciais que caracterizam o género morna. Não vejo grandes riscos de descaracterização. Evolução sim, mas mantendo as características fundamentais do género.

Para si, como compositor, quem são os compositores que merecem um lugar no “panteão” da morna?

São os evidentes. B.Léza, Eugénio Tavares, Paulino Vieira – Paulino Vieira para mim é um dos grandes compositores, um grande homem da música cabo-verdiana; Manuel de Novas, Nhelas Spencer também. Há muitos compositores, mas é preciso distinguir os verdadeiros criadores dos meros reprodutores de ideias musicais já existentes.

São todos nomes bem conhecidos. Não há nenhum, mais desconhecido, que esteja a ser injustiçado?

Acho que não. Aliás, penso que há um consenso sobre quais os grandes compositores de morna em Cabo Verde.

E como está o seu projecto de livro com pautas das suas músicas?

Era uma ideia que eu tinha, de passar para o livro, as minhas músicas para ficarem registadas, para evitar adulterações. É um projecto que se mantém, mas estando ainda activo como criador, não estou muito preocupado.

Então quando poderemos contar com novas composições do Betú?

Eu componho sem pressas. Não produzo muito, nunca tenho pressa em compor. Comecei muito cedo a compor, com 16, 17 anos, hoje estou com 59, e tenho apenas 50 e tal composições, se dividir dá uma média de ‘um vírgula qualquer coisa’ por ano, uma média muito baixa e continuo nesse ritmo. Agora com mais idade a média vai baixar ainda mais… Tenho músicas novas que estão para ser gravadas. Uma é dedicada a Cabo Verde e está com os Tubarões e, possivelmente vai-se tornar pública este mês, no concerto que costumam dar em Dezembro. Têm estado a trabalhar na música e têm um projecto de gravação de mais um disco, mas não sei para quando. Tenho uma outra sobre o Maio, que está com uma patrícia minha, cantora maiense que vive na Holanda. E uma música dedicada à Praia, cidade que me acolhe desde os 11 anos de idade, que está com a Nancy Vieira. Aliás, ela já a interpretou por duas vezes aqui na Praia. Só conheceu a música pouco tempo depois de sair o seu último disco, de maneira que esta ficou para o próximo, mas ela já a cantou em concertos, sim.

Um dia disse que queria ser lembrado, na posterioridade, como compositor de morna. Já atingiu o objectivo.

Sim. Sem dúvida que como compositor de morna já sou [risos].

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 993 de 9 de Dezembro de 2020. 

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Autoria:Sara Almeida,11 dez 2020 9:53

Editado porAndre Amaral  em  14 abr 2021 23:21

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