2021: Cultura entre restrições e abertura

PorDulcina Mendes,2 jan 2022 10:11

O ano ficou marcado pela realização de uma marcha dos agentes culturais apelando a mais solidariedade para com a classe artística. A manifestação aconteceu a nível nacional para demonstrar o descontentamento e a precariedade do sector das artes, entretenimento e indústrias criativas, paralisado desde o início da pandemia.

A iniciativa envolveu todos os que estão ligados ao sector da cultura, desde promotores de eventos, djs, músicos, entre outros profissionais. O grupo criticou “a falta de uma posição oficial das entidades competentes, com medidas de mitigação do impacto da pandemia, junto do sector”.

Como resposta, o Governo, através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, lançou o edital “Medida Adicional de Apoio à Criação Artística”, para ajudar a sociedade civil, tendo em conta a situação atípica em que vive o país, devido à pandemia da COVID-19. O edital tem como finalidade um maior número de projectos culturais vindos da sociedade civil e criadores. E com esse edital foram contemplados 128 projectos sendo a maioria de iniciativa pública.

A Sociedade Cabo-verdiana de Música (SCM), por seu lado, criou o “Prémio SCM”, destinado aos seus membros. A presidente da SCM, Solange Cesarovna, explicou na altura que o prémio é uma forma de reconhecimento aos autores, compositores, intérpretes, produtores fonográficos, músicos, instrumentistas e todos aqueles que de uma forma ou outra brindam Cabo Verde com actos de criação e gravação de obras musicais. O “Prémio SCM” abrange as seguintes categorias: Melhor Música Tradicional e Clássica; Melhor Música Urbana e Moderna; Carreira, que entra para o Hall da Fama SCM, e Utilizador Guardião. A cerimónia de entrega dos troféus aconteceu na semana comemorativa do Dia Mundial de Direitos de Autor, que se celebra a 23 de Abril.

Outro assunto que marcou o ano foi a celebração, pela primeira vez, do Dia Nacional do Batuco, comemorado a 31 de Julho. A data não teve a devida celebração devido à pandemia da COVID-19 mas, para não a data passar em branco, algumas actividades foram promovidas por grupos de batuco e pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas. A data foi instituída no ano passado (2020), pelo Parlamento. Foi uma proposta de lei levada ao Parlamento pelo deputado José Soares e aprovada por unanimidade.

No início do ano, o bairro de Achada Grande Frente, na Cidade da Praia, recebeu o Festival Internacional de Arte Pública (FAP) que contou com a participação do artista plástico brasileiro Alexandre Keto. Este evento aconteceu no âmbito do programa de arte urbana do projecto Xalabas – di Kumunidadi onde foram realizadas obras de arte individual e colectiva, workshops e concertos musicais. O festival tem como finalidade impulsionar o desenvolvimento do bairro de Achada Grande Frente através da criação de circuitos turísticos alternativos, mediante a utilização da arte urbana como ferramenta de promoção local.

O filme “Vitalina Varela”, de Pedro Costa, ficou entre os 93 filmes, de tantos outros de países incluídos na lista oficial de candidatos à nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional.

O Dia Nacional da Morna foi celebrado sem pompa, mas com algumas actividades em alguns pontos do país. Numa mensagem ao país, o Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, lamentou o facto de a comemoração dessa data ser menos “efusiva”, devido à pandemia da COVID-19.

A IX edição do Kavala Fresk Festival, do “cavala no mercado de verduras”, consistiu na realização de um “Show Cooking” em que participaram duas personalidades, que não são chefes, dentre elas o artista Bau. No evento participaram profissionais ligados à área da economia, segurança alimentar e nutrição que falaram da importância da alimentação saudável. Houve aula de culinária para crianças e kavala na “mei de mar”, no catamarã Itoma. Durante a volta pela Baía do Porto Grande, o público foi brindado com um concerto dos artistas Bau e Gabriela enquanto degustavam produtos relacionados com o mar tendo havido ainda actividades na praia da Laginha, com a realização de competições de natação e atletismo.

A quinta edição da residência artística Catchupa Factory, promovida pela Associação Olho-de-Gente (AOJE), aconteceu no Mindelo, com 11 fotógrafos de Cabo Verde, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, que participaram pela primeira vez.

A companhia de dança Raiz di Polon foi distinguida com o prémio Prestígio na gala RDP África 25 anos, na categoria dança. Na categoria literatura, o prémio Prestígio foi para a escritora Dina Salústio.

O projecto “Viagens nas Tintas” do artista plástico Joaquim Semedo, que já percorreu vários pontos do país, levou para o bairro da Terra Branca, na Cidade da Praia um mural que homenageia artistas cabo-verdianos.

Os nomes de 100 figuras ilustres da arte e cultura de Cabo Verde preencheram o passeio da Rua de Lisboa, na Cidade do Mindelo, através do projecto “Passeio Alma das Ilhas”.

O projecto Abrasu Muzikal homenageou o músico e tocador de gaita Bitori Nha Bibinha, com um convívio musical na cidade da Praia.

Este ano não foi possível a realização do Carnaval mas, como forma de a autarquia não deixar passar o Carnaval em branco na Cidade da Praia, a autarquia realizou a exposição “Memória do Carnaval”.

A IV edição da Gala do Prémio Nacional de Publicidade (PNP) distinguiu 19 trabalhos publicitários com o Prémio Gold, num evento que aconteceu num dos hotéis na cidade da Praia.

A 5ª edição do Festival Internacional de Teatro do Atlântico (TEARTI) aconteceu sob o lema “Korda Kauberdi” e contou com a participação de grupos de Portugal, Angola e Brasil.

A peça teatral “Chiquinho”, uma adaptação da obra “Chiquinho” de Baltasar Lopes da Silva estreou-se na Cidade da Praia.

A 6ª edição da Feira de Artesanato e Design (URDI) regressou ao seu palco habitual, Praça Nova, em Mindelo, com o lema “Imaginar Futuros” e contou com a participação de 161 artesãos e designers de todo o país.

O Festival Internacional de Teatro de Cabo Verde – Mindelact aconteceu sob o signo de “esperança” e contou com um grande número de espectáculos.

A cantora Lura comemorou os 25 anos de carreira com um concerto no Coliseu dos Recreios, uma das salas de espectáculo mais requisitadas de Portugal.

O músico cabo-verdiano Mário Lúcio foi homenageado na 13ª edição do Festival Internacional das Artes da Língua Portuguesa (Brasil), que aconteceu de 26 a 30 de Março, no Rio de Janeiro.

A bailarina e coreógrafa Marlene Monteiro Freitas venceu o Chanel Next Prize. A 8ª edição da Morna Fest aconteceu na Praia e Mindelo, em homenagem à Morna, reuniu num só palco vários artistas nacionais, residentes e na diáspora.

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A Noite Branca regressa à capital do País com vários palcos espalhados pelo centro da cidade e actividades diversas. O ano terminou com a realização de “I Love Cabo Verde”, um show realizado no espaço da FIC, na Cidade da Praia, que contou com a actuação de Bitori Nha Bibinha, Josslyn, MC Prego Prego, MC Acondize e SOS Mucci.

Festivais

Depois do levantamento das restrições para evitar a propagação da COVID-19, que entrou em vigor a 30 de Outubro, voltaram os grandes eventos de música. Os Cabo Verde Music Awards (CVMA) regressou com a exigência de entrada de pessoas vacinadas com a 2ª dose ou teste PCR negativo.

Os festivais de música, enquadrados nas festividades dos municípios de Santa Catarina de Santiago e de Santa Catarina do Fogo, marcaram o regresso dos festivais de música presenciais, tal como os conhecemos antes da pandemia.

Já o Festival Internacional Baía das Gatas teve, pelo segundo ano consecutivo, transmissão online tendo sido transmitido a partir do complexo Pont d’Agua.

Discos

Djodje celebrou os seus 20 anos de carreira com o lançamento do seu 5º álbum a solo intitulado “Mininu di Oru”. Um disco que reflecte o carinho das pessoas que sempre o acompanharam desde o início da sua carreira.

Dino D’Santiago lançou o disco “Badiu”, uma homenagem às pessoas do interior de Santiago, onde não podia faltar o funaná e o batuku, dois ritmos cabo-verdianos originários dessa ilha.

Mário Marta lançou o seu primeiro álbum a solo, “Ser de Luz”, aos 50 anos de idade. Isso depois de ter apresentado os singles “Boa” e “Aguenta”, que fazem parte do álbum, e que conquistaram dois prémios nos Cabo Verde Music Awards, (Melhor Coladeira e Melhor Intérprete Masculino).

O cantor e compositor santantonense Ary Kueka lançou o seu primeiro álbum intitulado “Sampadiu”. Bugim Martins foi outro artista que este ano lançou o seu primeiro disco, “Amore”, com o qual conquistou dois prémios nos Cabo Verde Music Awards 2021 (Melhor Kizomba e Melhor Videoclipe).

Carlos Reis, mais conhecido por Manu Reis, foi outro artista que também lançou o seu primeiro EP (Extended Play), intitulado “Sem Sentido”, em homenagem à esposa que faleceu há três anos.

Literatura

Depois de várias obras publicadas, a escritora Vera Duarte, que este ano foi uma das vencedoras do prémio literário Guerra Junqueira, editou o seu primeiro livro de contos intitulado “Contos Crepusculares-Metamorfoses”.

Já o escritor Germano Almeida, que foi homenageado na 14ª edição do Festival Literário Escritaria, em Penafiel, Portugal, presenteou os seus leitores com o romance “A Confissão e a Culpa”, o terceiro da trilogia do Mindelo.

A escritora Eurídice Monteiro apresentou a sua mais recente obra, intitulada “A Praia dos Amores Clandestinos”.

O escritor João Lopes Filho, considerado “o principal investigador de Antropologia e Etnologia do país”, foi agraciado pelo Governo com a medalha de mérito cultural.

Óbitos

Cabo Verde ficou mais pobre com a morte da cantora, compositora e combatente da Liberdade da Pátria, Arlinda Oliveira Santos, que era natural de São Vicente, tendo falecido em Lisboa aos 77 anos.

Samira Pereira, figura conhecida no meio cultural e artístico de todo Cabo Verde, faleceu em Mindelo, vítima de COVID-19. Samira Pereira era produtora cultural, proprietária e directora criativa da empresa OII Cultura, Comunicação e Imagem, antiga directora do Palácio da Cultura Ildo Lobo, organizadora e assessora de alguns dos maiores eventos culturais de Cabo Verde.

Ainda em Mindelo, morreu o activista cultural sanvicentino Hernani Moreira, aos 60 anos. Hernani Moreira era tido como um dos dinamizadores da cultura e uma “referência da moda” em São Vicente, ilha onde criou a agência de moda “Ilhéu Fashion”, que promovia eventos dedicados à moda.

A mais recente morte foi da cantora Dulce Matias, devido a uma queda num dos restaurantes de São Vicente, onde se encontrava num convívio familiar quando decorria um concerto musical. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1048 de 29 de Dezembro de 2021. 

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Autoria:Dulcina Mendes,2 jan 2022 10:11

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  16 jan 2022 9:19

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