Jorge Almeida, Presidente da Comissão Executiva do Banco BAI Cabo Verde: “Queremos ser um banco cada vez mais digital e próximo dos clientes”

PorAndré Amaral,26 abr 2026 9:15

O Banco BAI Cabo Verde quer reforçar a sua presença no país, apostar na digitalização e crescer com base no aumento do crédito, numa estratégia que privilegia a escala e a eficiência. Em entrevista, o PCE, Jorge Almeida, garante que o banco vai continuar a expandir a rede, lançar novos produtos e apoiar a diversificação da economia, apesar das incertezas internacionais.

Comecemos pela estratégia do banco, quais são então as prioridades estratégicas que o banco tem para os próximos anos?

A nossa estratégia continua a ser de uma maior implementação dentro do mercado. Vamos continuar a estar cada vez mais presentes e próximos dos nossos clientes, quer com agências bancárias, quer com pontos ATM. Um dos maiores pilares do nosso plano estratégico é a transformação digital, onde pretendemos nos tornar um banco cada vez mais digital, tornando assim mais eficientes as nossas operações e também permitindo que os clientes tenham uma maior autonomia naquilo que é a sua relação com o banco, principalmente com o nosso canal BAIDirecto, que pretendemos muito brevemente trazer uma versão mais actualizada. Tudo isto sem esquecer a nossa responsabilidade social junto daquelas que são as entidades mais carenciadas e também a sustentabilidade ambiental. São esses os principais pilares onde pretendemos estrategicamente actuar nos próximos anos.

Este ritmo de crescimento que falava é um crescimento que é para continuar ou vamos ter aqui alguma moderação, tendo em conta que o contexto internacional?

Vamos continuar a apostar no ritmo de crescimento. Estes desafios no contexto internacional, são bons para testar a nossa resiliência. Muitas das vezes, é aí onde surgem as oportunidades. Portanto, vamos reforçar a nossa presença no país, com o maior destaque aqui no mercado de Santiago, mas também pretendemos ir a pelo menos mais uma ilha. Naturalmente há ilhas com menor densidade populacional onde já há a presença de outros bancos, que consideramos que poderá não ser interessante estarmos todos a competir num contexto em que não haja tanta densidade populacional ou tanta escala para operarmos. Todavia, vamos continuar a reforçar nossa presença e esperamos ser correspondidos pelos nossos clientes e por aqueles que não são clientes naturalmente.

Em termos de investimento, no curto e médio prazo, quais os novos projectos em que o banco está a pensar em investir?

Conforme referi, em termos de projectos, além daquilo que é o nosso reforço da capacidade do banco, indo de encontro com as melhores práticas internacionais, quer em termos de segregação de funções, quer em termos de plano de continuidade de negócio, vamos continuar a investir na expansão da rede.

Por outro lado, no pilar da sustentabilidade ambiental, temos estado a fazer investimentos. Só para lhe dar uma ideia, o nosso parque automóvel, que é composto por mais de 50 viaturas, já é 50% eléctrico. Neste momento também, onde temos maior consumo de energia, que é aqui no edifício sede, um edifício com mais de sete pisos, já temos uma poupança energética de cerca de 25% e esperamos até julho reforçar esta poupança em mais 7% a 10%. Seguidamente, a aposta nas ferramentas informáticas e na desmaterialização dos processos, tentar ter equipamentos e softwares mais actualizados, para poder fazer face aos desafios da transformação digital. Em termos de produtos, lançámos recentemente dois cartões. Um, que designamos cartão Katxupa, é um cartão de crédito nacional. Nós somos o primeiro banco a ter um cartão de crédito exclusivamente nacional. Com o objectivo de agilizar a resposta àquilo que são as necessidades dos nossos clientes em termos de crédito ao consumo. O cliente tem facilmente já um cartão disponível, não tem que estar regularmente a ir ao banco pedir crédito ao consumo. E tem a vantagem de ser um cartão que não gera saída de divisas do país, por funcionar na Rede Vinti4, com suporte da SISP. Os outros cartões de crédito do mercado, penso que neste momento só existe a marca VISA, são cartões que podem ser também utilizados no mercado nacional, mas que, geram saída de divisas, pela compensação ou pagamento de comissões à marca VISA. Lançamos também o cartão pré-pago virtual, que é um cartão também muito interessante para os clientes. Este já é um cartão internacional, associado à marca VISA, e que pode ser emitido de forma totalmente autónoma pelo cliente. Basta dirigir-se a uma ATM, com o cartão de débito BAICV e solicitar a emissão do cartão pré-pago Virtual VISA. É um cartão bastante versátil, porque não tem plástico, é um cartão virtual e que permite aos clientes um maior controlo daquilo que são as suas utilizações, controlar inclusive as tentativas de fraude e tem a particularidade de poder ser um cartão de oferta. Quando alguém quiser oferecer uma prenda a um cliente, a um familiar, a um amigo, pode atribuir este cartão com o plafond pretendido.

Em termos de serviços digitais, como é que tem sido a evolução? Tem acompanhado o crescimento global do banco ou ainda há espaço para crescer?

Há espaço, e bastante, para crescer. Nós temos estado a fazer desenvolvimentos ainda internos. Mas, muito em breve, acreditamos que, ainda no mês de Maio ou Junho, iremos pôr à disposição dos nossos clientes a nossa nova versão do BAIDirecto, que vai trazer muitos serviços, muitas funcionalidades novas e que terá uma maior agilidade naquilo que é a transaccionalidade entre os clientes e o banco.

Em termos internacionais, esta incerteza nos mercados tem-se traduzido em taxas de juros mais altas, como é que isto tem impactado a actividade do banco?

É sempre desafiante fazer o equilíbrio entre as taxas activas e as taxas passivas. Por enquanto, temos um equilíbrio, temos conseguido ter um equilíbrio nesta vertente. Em termos de taxas passivas, somos o banco que tem das taxas mais elevadas. No ano passado, por exemplo, de forma muito criativa, fizemos a correlação entre os 50 anos de independência de Cabo Verde e oferecemos aos nossos clientes a taxa promocional de depósito a prazo de 5%, que foi a maior taxa que o mercado já teve de depósito a prazo. Depois lançámos uma campanha na mesma linha, mas um depósito crescente, que chegava também a uma taxa no terceiro ano até 5%. Portanto, nós pensámos que, em Cabo Verde ainda temos taxas bastante atractivas para depósitos a prazo. No mercado internacional não conseguimos essas taxas sem pôr o capital em risco, não conseguimos taxas tão atractivas como temos em Cabo Verde. Em termos de taxas activas, estas têm que ser ligeiramente superiores às taxas passivas. Se nós pagamos uma taxa relativamente alta, também temos que, entre aspas, cobrar taxas acima dessas taxas passivas. Mas o nosso spread ronda os 2,5%, não mais de 3%. Portanto, quando olhamos para o mercado internacional, mesmo para crédito ao consumo, as taxas são mais altas do que as que estamos a praticar.

O Banco de Cabo Verde anunciou este fim de semana que a taxa de solvabilidade da banca cabo-verdiana aumentou, mas também que a taxa de rentabilidade diminuiu. Que leitura é que faz disto?

A margem está mais fina entre as taxas passivas e as taxas activas, está muito mais fina. E nós temos é que ser criativos e, se calhar, não ganhar individualmente em cada operação, mas ganhar em escala. No mercado há muito a ser desenvolvido. O que temos é que dar mais crédito, fazer mais operações de crédito. Isto faz parte do mercado e eu acho que nós, enquanto gestores, temos de ter essa capacidade de gerir bem os recursos e procurar ter rentabilidade sustentável. Claro que a solvabilidade tem estado a diminuir e isso torna a operação, o custo do dinheiro, mais caro. Mas é necessário nós sermos capazes de gerir bem aquilo que são os investimentos que vamos fazendo, aquilo que vamos financiando, porque senão, a dado momento, se nós formos elevar muito as taxas, vamos fazer com que a percentagem de inadimplência também cresça. Portanto, eu sou da opinião que nós temos é que trabalhar mais, dar mais, expandir mais, aumentar mais a banda, tentar ter uma rentabilidade maior em escala e não por operação.

Cabo Verde é um mercado pequeno. Que desafios é que se colocam para o crescimento?

Temos que ter a capacidade de atrair novos investidores e atrair a população que está na diáspora para poder primeiro trazer mais recursos para o país e também haver maior investimento. Como eu dizia, há muito ainda por fazer em Cabo Verde. Do meu ponto de vista há necessidade de diversificar a economia e desmistificar aquilo que é o turismo. Fazermos do turismo apenas a energia para outras operações. Portanto, não vale a pena termos hotéis, trazermos muitos turistas para o país, mas depois acabarmos por gastar tudo que possa ser a capacidade de arrecadar recursos em importação de matéria-prima, importação de produtos acabados. Temos é que criar à volta desta estrutura, desta indústria do turismo, criar outros alicerces que permitam com que haja cada vez mais outro tipo de receita para o país e que permita também não gastarmos divisas a importar a alimentação para sustentar os hotéis, importar a água, importar os refrigerantes e, por aí fora, para os hotéis. Temos de ter a capacidade também de fazer aqui alguma indústria, ainda que seja uma indústria pequena, transformadora. E nesse capítulo nós temos estado a apoiar, recentemente apoiámos uma indústria, por exemplo, de papel. Que neste momento é a única indústria que está a sustentar, digamos, qualquer coisa como 30% daquilo que é a necessidade de guardanapo, de papel higiénico, de papel de cozinha. Por exemplo, na ilha do Sal e de São Vicente já está a conseguir dar cobertura a isso. Portanto, já diminuímos aqui alguma necessidade de importação. Também financiamos uma nova indústria, uma nova fábrica de água, que em breve será inaugurada, para diminuir a importação de água que ainda é feita. Portanto, são essas pequenas indústrias, essas pequenas iniciativas que nós pretendemos apoiar e que achamos que deve ser feito para que haja aqui alguma estabilidade e sustentabilidade no mercado.

Como disse há pouco, o banco tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos. Os últimos três anos têm sido de um crescimento bastante forte. Como é que interpreta esse crescimento?

Este crescimento é fruto, primeiro, de um grande trabalho da nossa equipa. Temos profissionais que só temos que respeitar pelo sacrifício que têm feito, pela dedicação que têm pelo banco, por tudo aquilo que eles vão dando aos nossos clientes. Depois é uma demonstração de confiança com os nossos clientes e com o mercado. E este crescimento é também fruto de uma estratégia de proximidade, de uma oferta de qualidade de produto e de uma experiência que nós temos estado a procurar dar aos nossos clientes. O nosso lema assenta em dois princípios: oferecer a melhor experiência bancária aos nossos clientes e ao mercado e, ser a melhor instituição para os colaboradores trabalharem. Eu tenho a convicção que a combinação desses dois factores tem-se reflectido em bons resultados quer para a instituição, quer para os clientes, quer para os nossos colaboradores e, naturalmente, para os accionistas.

Que mudanças estruturais é que foram implementadas para sustentar este crescimento?

Primeiro, acreditar que os investimentos não são custos. Portanto, nós fizemos alguns investimentos, criámos condições para que o mercado acreditasse mais em nós. Criámos condições internas também para uma maior motivação dos colaboradores. Os colaboradores do BAICV têm condições que, penso, muito poucos, mesmo a nível do sector bancário, poucos bancos têm. Tudo isto permitiu um maior engajamento dos colaboradores e depois continuar a apostar na inovação. Quer de produtos, quer de marketing, quer da própria imagem do banco a nível do mercado, permitiu uma maior adesão de clientes e do mercado. Um maior acreditar no banco, tem as suas consequências positivas. E depois a agilidade com que o banco tem, aquilo que é a nossa eficiência, tudo isto combinado, resulta em ganhos para todos.

Este crescimento é conjuntural ou é um crescimento que reflecte um novo posicionamento do banco?

Naturalmente, acreditamos que iremos continuar a crescer. Claro que, à medida que o crescimento for maior, a margem de crescimento também vai reduzir. Portanto, uma coisa é crescer o equivalente a um milhão de euros. Para um crescimento de 3 milhões, o cenário já é diferente, assim como é crescer em cerca de 5 milhões de euros, que foi o nosso crescimento este ano. Daqui para frente, digamos, em termos percentuais, acreditamos que será mais contido. Mas, pela dedicação, pelo trabalho que nós estamos a fazer, acreditamos que iremos continuar a crescer. Esta estratégia de digitalização, de sermos mais ágeis, de contermos os nossos custos, sermos mais eficientes, estarmos a diversificar aquilo que é a nossa posição no mercado, acredito que irá trazer resultados propícios.

Uma última questão. Que componentes é que têm contribuído de forma mais determinante para este plano?

Sem dúvida o crédito. O nosso crédito nos últimos três anos tem, digamos, consistentemente crescido 20%. Naturalmente que, a margem financeira vem muito daí e a outra componente é a contenção de custos. Portanto, a combinação destes dois factores tem proporcionado o crescimento do banco, mas claramente o crédito é que tem mais contribuído para o crescimento do banco.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1273 de 22 de Abril de 2026.

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Autoria:André Amaral,26 abr 2026 9:15

Editado porAntónio Monteiro  em  26 abr 2026 11:22

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