Eleições em Tempos Difíceis

PorPaulo Veiga,6 fev 2026 11:23

“O preço da liberdade é a eterna vigilância.” - Thomas Jefferson

Um mundo em ruptura

O mundo entra em 2026 mais fragmentado, mais imprevisível e mais tenso do que em qualquer outro momento das últimas décadas. Guerras prolongadas, reconfigurações geoestratégicas profundas, sinais de fragilidade económica nas principais economias europeias e fraturas sociais cada vez mais visíveis criaram um ambiente global marcado pela incerteza, pelo medo e pela desconfiança. É neste contexto exigente, e não num vazio histórico, que Cabo Verde se prepara para um novo ciclo de eleições legislativas.

Não vivemos tempos normais. E, por isso mesmo, não podemos tratar este ano eleitoral como se fosse apenas mais um exercício rotineiro da democracia. O mundo mudou. E as democracias, sobretudo as mais pequenas, abertas e expostas, sentem essas mudanças de forma mais intensa.

A nova instabilidade global

A guerra voltou à Europa com uma brutalidade que muitos julgavam definitivamente enterrada no século XX. O conflito na Ucrânia não é apenas uma tragédia humanitária, é uma rutura estrutural do sistema internacional que emergiu após o fim da Guerra Fria. Ao mesmo tempo, o Médio Oriente continua a ser um foco permanente de instabilidade, onde cada novo episódio tem repercussões globais. As grandes potências reposicionam-se, disputam influência, redesenham alianças e usam, cada vez mais, a economia, a energia e a informação como armas estratégicas.

Vivemos, de facto, algo que se assemelha a uma nova Guerra Fria. No entanto, esta não se faz apenas de blocos ideológicos ou confrontos militares indiretos. Faz-se de narrativas, de perceções, e de emoções. É uma guerra que se infiltra nas sociedades, alimenta medos, radicaliza discursos e transforma a política num terreno fértil para o populismo e para soluções fáceis que prometem tudo e explicam pouco.

Exemplos recentes tornam esta realidade ainda mais evidente. Na Venezuela, após um período prolongado de crise institucional e económica, a captura do ex-Presidente Nicolás Maduro, abriu um novo capítulo de incerteza política e institucional no país. A liderança interina tem procurado sinalizar uma abertura ao diálogo e à reforma, enquanto a oposição, personificada em figuras como María Corina Machado, reafirma o compromisso com eleições livres e a construção de um futuro democrático. Esta situação, apesar da controvérsia sobre o papel de potências externas e das legítimas reservas sobre soberania e autodeterminação, representa um momento de possível reconfiguração do regime que poderá vir a influenciar a ordem democrática na América Latina.

Noutro local do globo, a Gronelândia surge hoje no centro de disputas estratégicas entre grandes potências, ilustrando como até territórios pequenos e periféricos passaram a integrar o tabuleiro global da geopolítica. Nada disto é distante ou abstrato, é o sinal de um mundo onde a soberania, a democracia e a estabilidade voltaram a ser disputadas.

A Europa, espaço natural de referência para Cabo Verde, atravessa um momento particularmente delicado. Economias que durante décadas foram sinónimo de estabilidade enfrentam agora crescimento anémico, desafios industriais, envelhecimento demográfico e tensões sociais profundas. O custo de vida, a crise da habitação, a pressão migratória e a erosão da confiança nas instituições criaram fraturas que não podem ser ignoradas. Quando a Europa hesita, países como Cabo Verde sentem imediatamente os efeitos, no turismo, no investimento, nas remessas, e na confiança externa.

Num contexto assim, a solidez democrática deixou de ser apenas um valor político para se tornar um fator económico e estratégico. Países estáveis, previsíveis e institucionalmente respeitados são hoje mais resilientes a choques externos do que aqueles que cedem ao ruído, à polarização e à instabilidade. Para Cabo Verde, esta constatação não é teórica, é uma condição essencial para proteger o seu futuro.

Cabo Verde num mundo instável

É neste cenário global complexo que se deve enquadrar o debate político nacional. Cabo Verde é um país pequeno em dimensão, mas grande naquilo que verdadeiramente conta, ou seja, na sua história democrática, na solidez das suas instituições e na credibilidade que construiu ao longo de décadas. Essa credibilidade não é um dado adquirido. É um ativo estratégico, conquistado com esforço, responsabilidade e escolhas difíceis.

Ao contrário de grandes potências, Cabo Verde não dispõe de margem para aventuras políticas, improvisações ideológicas ou instabilidade prolongada. A nossa força reside precisamente na previsibilidade, na seriedade institucional e na capacidade de inspirar confiança, dentro e fora de portas. É isso que atrai investimento, que sustenta o turismo, que protege a economia e que garante respeito internacional.

Num ano eleitoral, porém, as tentações multiplicam-se. A tentação de prometer o impossível. A tentação de explorar o medo e a frustração. A tentação de transformar adversários em inimigos e instituições em obstáculos. A tentação de importar discursos radicais que podem fazer sentido noutros contextos, mas que são profundamente perigosos numa democracia pequena, aberta e ainda em consolidação permanente.

A História recente mostra-nos que as democracias raramente colapsam de forma súbita. Elas degradam-se lentamente. Começam pela normalização do ataque às instituições, pela descredibilização da justiça, pela banalização da mentira e pela ideia perigosa de que “vale tudo” em nome da vitória política. Quando se chega a esse ponto, já não está apenas em causa quem governa, mas a própria qualidade do regime democrático.

Cabo Verde conhece bem o valor da democracia. O 13 de Janeiro de 1991 não foi apenas uma data eleitoral, foi uma escolha civilizacional. Foi o momento em que o povo cabo-verdiano afirmou que queria viver em liberdade, com pluralismo, alternância e respeito pelas regras. Essa escolha moldou o país que somos hoje e explica, em grande medida, porque somos uma referência democrática em África e no espaço da CPLP.

E a democracia não vive apenas de memória. Vive de prática quotidiana, vive de responsabilidade política e vive da capacidade de, mesmo em momentos de disputa intensa, preservar o essencial, a Constituição, a separação de poderes, a independência da justiça, a liberdade de expressão e o respeito mútuo.

Votar, um compromisso nacional

O momento que vivemos exige, porém, um grau acrescido de vigilância democrática. Quando candidatos políticos passam do ataque sistemático aos tribunais e à Constituição para a defesa explícita de milícias populares e de mecanismos informais de “justiça”, estamos perante um sinal sério de alarme. Não se trata de retórica inofensiva nem de exuberância de campanha. Trata-se da recuperação consciente de discursos e práticas que Cabo Verde já conheceu no período sombrio do pós-independência.

A História é clara. Em 1975, iniciou-se um caminho que assentava precisamente nestes pilares, uma visão que rejeitava uma “classe intelectual”, que simplificava deliberadamente o discurso político para facilitar a manipulação das massas, que normalizava a polícia política e que criou estruturas paralelas ao Estado de Direito. O resultado foi a repressão, o medo, o silêncio forçado e a suspensão das liberdades fundamentais. Nada disto começou com violência aberta. Começou com palavras. Começou com a desvalorização das instituições e com a ideia perigosa de que a vontade política podia substituir a lei.

O risco maior reside hoje na falta de memória histórica. Uma geração inteira nasceu em liberdade, cresceu em democracia e nunca viveu a ditadura. Para muitos, conceitos como milícias populares, justiça paralela ou “poder do povo” parecem abstrações românticas ou slogans vazios. Não são. São instrumentos clássicos de regimes autoritários. São atalhos perigosos que conduzem, invariavelmente, à concentração de poder, à perseguição política e à erosão completa da liberdade individual.

É por isso que votar, neste contexto, deixa de ser apenas um ato de escolha política e passa a ser um compromisso moral com a História do país. Votar é dizer que Cabo Verde não aceita retrocessos. Que não aceita a normalização de discursos autoritários. Que não troca a democracia constitucional por promessas vagas de ordem ou justiça imediata. Votar é proteger o que foi conquistado com coragem e sacrifício.

Num mundo instável, e num momento em que ideias que julgávamos ultrapassadas regressam com nova roupagem, a maturidade democrática torna-se a nossa maior defesa. Cabo Verde não pode, nem deve, brincar com a sua História. A liberdade não é irreversível e a democracia não é automática. Nunca nos devemos esquecer que a vigilância cívica começa no voto.

Desde 1991, Cabo Verde conheceu sucessivas alternâncias de poder, sempre realizadas de forma pacífica, legítima e constitucional, com respeito pelas instituições, pela democracia e pela vontade soberana do povo. Governos mudaram, maiorias alternaram-se, lideranças sucederam-se, mas nunca esteve em causa o quadro democrático nem houve qualquer tentação séria de regressar ao passado autoritário. Essa é uma conquista coletiva que pertence a todos os cabo-verdianos, e defendida por todos independentemente da sua filiação partidária ou orientação ideológica. É por isso que, neste momento decisivo, se impõe um apelo claro a todos os democratas, de todos os campos políticos, um apelo pela defesa da liberdade, da Constituição e do Estado de Direito, e à consciência que essa batalha deve estar acima de qualquer disputa eleitoral ou ambição circunstancial.

Em tempos difíceis, votar é mais do que um direito, é um compromisso nacional com a liberdade, com a Constituição e com o futuro de Cabo Verde.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1262 de 04 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:Paulo Veiga,6 fev 2026 11:23

Editado porClaudia Sofia Mota  em  6 fev 2026 21:19

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