SARS-CoV-2: Perguntas & Respostas

PorNuno Andrade Ferreira,17 mai 2020 10:43

A pandemia de COVID-19 apresentou para a maioria das pessoas um mundo de novos conceitos e práticas. Com o conhecimento a evoluir a cada instante, convidámos o médico Pitt Reitmaier, alemão com vasto trabalho em Cabo Verde, para uma sessão de perguntas e respostas a partir das mais recentes evidências científicas sobre o SARS-CoV-2.

PERIGOSIDADE

À luz do conhecimento científico que fomos adquirindo, o SARS-CoV-2 é mais ou menos perigoso do que aquilo que se esperava, no início do surto, na China?

Em 31 de Dezembro, as autoridades chinesas informaram a Organização Mundial de Saúde que estavam perante um novo vírus. Duas semanas depois, a sua sequência genética já tinha sido decifrada e publicada, os testes de detecção do vírus ficaram disponíveis.

Rapidamente, aprendeu-se que cada pessoa doente infectava 2 a 3 pessoas, que 85% dos casos eram ligeiros, mas 15% requeriam ser tratados em hospitais, frequentemente com ventilação mecânica, e 3% a 12% dos doentes terminavam em óbito.

A epidemia, que se propagou rapidamente, foi acompanhada de grande medo do público.

A COVID-19 foi certamente tão perigosa quanto impressionante desde o seu início e, na China, foi controlada com medidas rigorosas de quarentena e tracing para muitos milhões de pessoas.

RISCO

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Existem estudos que permitam tirar conclusões sobre o risco efectivo da COVID-19?

Sim. Esses estudos são difíceis de realizar na fase ‘quente’ de uma epidemia, mas os primeiros resultados de estudos sero-epidemiológicos e os cálculos para Wuhan e os epicentros na Europa e nos EUA já foram publicados e dentro de dias devem aparecer mais resultados. Numa amostragem aleatória representativa da população, pode-se determinar o número de infecções ocorridas, com base na prevalência de anticorpos no soro e estes serem relacionados com casos conhecidos de COVID-19 e com óbitos.

O reconhecido epidemiologista John P. A. Ioannidis, da Stanford University, na Califórnia, Estados Unidos, encontrou no distrito de Santa Clara, 50 a 85 vezes mais seropositivos que o número de casos registados pelos serviços.

A análise do Professor Ioannidis mostra que o risco para as faixas etárias inferiores a 65 anos, sem comorbidades, é muito baixo, pois apenas 0,3% a 1,8% de todas as mortes por COVID-19 (Países Baixos, Nova Iorque) ocorrem antes da terceira idade em pessoas sem comorbilidade significativa.

Na Alemanha, escreve ele, este risco é equivalente ao risco de morrer num acidente de viação para uma pessoa que conduz e percorre 15 km de carro por dia. Em Nova Iorque, o risco corresponde a uma distância diária de 670 km.

Quer dizer que o risco se concentra, sobretudo, na terceira idade?

Em alguns países europeus, epicentros da infecção, o risco para os indivíduos na terceira Idade (65+) é 13 a 73 vezes superior aos de idade inferior a 65 anos. Em termos absolutos, os estudos da Stanford University provam que o risco de morte de pessoas com mais de 80 anos variava entre aproximadamente 1 em 6.000, na Alemanha, e 1 em 420, em Espanha. 40% a 50% dos mortos por COVID-19 morrem em lares de idosos ou foram provenientes desses lares. A idade mediana ronda os 81 anos.

A idade é o principal factor de risco?

A idade, em si, não. É o facto de, com a idade, as comorbidades, como obesidade, hipertensão, cancro, insuficiência cardiopulmonar e renal, ficarem mais frequentes.

E o que isso significa para Cabo Verde?

Ninguém consegue antever o futuro, mas conhecemos o passado e temos de ter isso em conta. O sofrimento extremo provocado pelas fomes dos anos 1940 deixou Cabo Verde com uma pirâmide etária totalmente diferente dos países europeus industrializados. Nos anos de fome nasceram menos crianças, a maioria morreu de fome e os poucos que sobreviveram emigraram com maior frequência que outras faixas etárias. Por isso, Cabo Verde tem poucos velhos, apenas 4,7% com mais de 65 anos e 1% com mais de 80.

TESTES SEROLÓGICOS

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Que importância terão os testes serológicos para se perceber a dimensão da infecção e a escala de letalidade?

Actualmente, ouvimos falar diariamente dos resultados dos testes PCR. Estes conseguem detectar vírus intactos ou fragmentos dos mesmos. Um teste positivo prova que o paciente é portador do vírus, nesse momento.

Embora ainda não se saiba por quanto tempo durará a imunidade após uma infecção pelo SARS-CoV-2, os anticorpos no soro podem ser utilizados para determinar quem sofreu uma infecção no passado. Em São Vicente, ficou assim provado que os familiares do primeiro doente estiveram infectados no passado recente, esclarecendo o ponto provável de entrada do vírus.

Enquanto houver poucos casos de uma nova doença infecciosa, a quarentena e a detecção do vírus em pessoas de contacto é uma boa forma de abrandar uma epidemia. Quando a frequência das infecções aumenta, este método perde a sua validade.Suponhamos que 20% da população estava ou está infectada. O teste PCR prova que uma pessoa é portadora do vírus, mas não quando, onde e por quem foi infectada.

Que estratégia deve ser adoptada na aplicação desses testes, para que eles possam ser representativos?

Sabe-se que em cada 100 pessoas infectadas com SARS-Cov-2, menos de 20 desenvolvem sintomas e apenas 2 a 3 são hospitalizadas. Os serviços de saúde apenas vêem uma pequena proporção das pessoas infectadas e as entrevistas não ajudam a determinar quantos já tiveram contacto com o vírus. Para calcular indicadores significativos, o número de pessoas infectadas deve ser conhecido. Para o efeito, não é possível recolher amostras de sangue em todos os habitantes, mas deve ser escolhida uma amostra representativa, na qual todos os habitantes têm a mesma oportunidade de ser examinados.

A teoria da amostragem é complexa e só posso recomendar a inclusão no grupo de estudo de um estatístico experiente em epidemiologia, antes de serem determinados os objectivos, o método, as hipóteses a serem testadas e o orçamento.

REABERTURA

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A maioria dos países adoptou a estratégia do confinamento e começa agora a reabrir a economia. É expectável um aumento do número de contágios?

O sucesso das regras de confinamento depende da implementação imediata, da aceitação pela população, da exequibilidade para a população urbana mais pobre e com elevada densidade residencial, do controlo e fiscalização e da tomada de medidas sociais e de segurança de rendimentos que garantam acesso universal aos serviços sociais e de saúde e a rendimentos de emergência, sem discriminação para os sem-abrigo, trabalhadores migrantes indocumentados, trabalhadores do sexo, toxicodependentes e alcoólicos.

A retirada das regras do confinamento deve ser racional, planeada e seguir resultados epidemiológicos fiáveis, possivelmente, combinando a abertura de algumas áreas da vida social com novas regras para outras áreas.

A investigação epidemiológica de acompanhamento está a tornar-se cada vez mais importante. Por exemplo, ainda não se sabe de que forma as escolas e os jardins-de-infância influenciarão a ocorrência de novas infecções, se serão eficazes as proibições de visitas às praias, que contributo as máscaras faciais caseiras oferecem na prática diária e muito, muito mais.

Que medidas devem ser adoptadas para mitigar a probabilidade de contágio?

Foram inventadas muitas regras de distanciamento e confinamento, fixados números máximos de participantes em reuniões e regras de desinfecção. Essas regras variam de país para país e estão baseadas em hipóteses, não em estudos sérios. Isto deverá mudar rapidamente. Há que pôr fim a regras que pouco ou nada contribuem, enquanto as que têm eficácia comprovada devem ser reforçadas e melhor controladas. Não devemos esquecer que, numa epidemia com baixo risco de mortalidade para os grupos etários produtivos, saudáveis e desportistas, os ‘puxadores do vagão’, a aceitação pode rapidamente converter-se em rejeição. Quanto mais as medidas são convincentes e baseadas em evidências, mais provável é que os cidadãos e os políticos, aqueles que respeitam os factos, as sigam.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 963 de 13 de Maio de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,17 mai 2020 10:43

Editado pormaria Fortes  em  11 ago 2020 23:21

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