Desconfinar : “A culpa é sempre do outro”

PorNuno Andrade Ferreira,30 mai 2020 7:27

Do “fascismo social” ao desafio da sobrevivência, o Cabo Verde que emerge da pandemia, no olhar do sociólogo Redy Lima.

A actual crise sanitária global, com repercussões sociais e económicas ainda por medir, empurrou-nos para casa e levou-nos a mudar hábitos e comportamentos. À boleia de expressões como “guerra” ou “inimigo invisível”, tornamo-nos ‘polícias’ de nós mesmos e dos outros.

As redes sociais estão repletas de fotografias e publicações em tom indignado, denunciando quem não cumpre as recomendações de distanciamento social feitas pelas autoridades.

Para o sociólogo Redy Wilson Lima, o actual contexto tornou evidente a existência de uma sociedade controladora, revelando aquilo que define como “fascismo social”.

“Temos que arranjar um inimigo e a culpa é sempre do outro, o ‘eu’ contra o ‘outro’. Somos uma sociedade muito controladora. Hoje há um fascismo social no mundo, mas a sociedade cabo-verdiana, particularmente, é uma sociedade fascista do ponto de vista social, onde as redes sociais pioram tudo”, refere.

Um dos pioneiros no uso da expressão “fascismo social”, o professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, refere a existência de novas formas de exploração nas sociedades contemporâneas, a dominação explícita de um grupo por outro.

“Como dizem os rappers, é uma sociedade de ‘chibos’”, comenta Redy Lima.

Confinamento

Cumpridos dois meses de confinamento, e perante o fim do estado de emergência na Praia, faz-se o balanço das medidas tomadas pelas autoridades, como forma de conter a propagação da covid-19, doença causada pelo SARS-CoV-2, o ‘novo coronavírus’.

Avaliando de forma globalmente positiva o cumprimento dessas medidas, Redy Lima recorda, contudo, que o país tem realidades distintas, dividindo-se entre uma minoria que pode ficar em casa, porque tem o rendimento minimamente salvaguardado, e a maioria, que vive do dia-a-dia.

“As pessoas vão tentando cumprir como podem. Temos esta realidade da informalidade e do agregado familiar alargado, muitas vezes em casa pequenas”, observa.

“Numa cidade como a Praia, o dinheiro funciona bem, está sempre a movimentar-se, mas quando paras, aí complica. Estamos naquela lógica do desenrascanço”, acrescenta.

Solidariedade

A pandemia e as medidas restritivas impostas para a sua contenção levaram ao surgimento de vários movimentos de solidariedade, em grupos mais ou menos espontâneos.

O sociólogo destaca que as últimas semanas tornaram explícita, para muitos, a existência de uma sociedade cada vez mais desigual.

“O que acontece é que parece que as pessoas não querem ver o que é evidente. A cidade da Praia, creio que o Mindelo é um pouco diferente, é uma cidade esquizofrénica, porque está lá, é só abrir a janela”

Emprego

Consequência da pandemia, o Governo estima que o Produto Interno Produto recue a níveis de há dois anos, com uma recessão superior a 5%. No melhor cenário, o ministro das Finanças fala na duplicação do desemprego, fixando a população activa sem trabalho na casa dos 20%.

Redy Wilson Lima antecipa dificuldades acrescidas, mas recorda a capacidade de resiliência e adaptação dos cabo-verdianos, perspectivando novas dinâmicas informais.

“Vamos ter um grande problema para resolver, que é o problema do emprego, o problema da sobrevivência. Não estou à espera que o Estado resolva. Se não há emprego no turismo, não há dinheiro a circular. Vai ser um momento muito complicado, mas a sociedade cabo-verdiana desenrasca-se. Esta sociedade sobreviveu 500 anos. As pessoas vão sobrevivendo, continuando a fazer o que sempre fizeram e acho que o bom disso é que vão começar a surgir dinâmicas interessantes, informais”, estima.

Com hotéis fechados no Sal e Boa Vista, sem perspectivas de retoma aos níveis pré-covid, antecipam-se movimentos migratórios internos dessas ilhas rumo aos principais centros urbanos.

À procura de respostas e de novos caminhos para o desenvolvimento, o sociólogo espera que Cabo Verde possa fazer “o seu próprio caminho”.

“Cabo Verde é, como alguém disse, usando um termo muito popular, undi ki da ki panha. Se o mundo mudar, os políticos cabo-verdianos mudam. [O país] deve fazer o seu próprio caminho, fazer a sua nova agenda, com uma orientação local, pensando nas potencialidades, ser um outro país e pensar nessa outra normalidade”, vaticina. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 965 de 27 de Maio de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,30 mai 2020 7:27

Editado porFretson Rocha  em  2 ago 2020 23:21

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