A visão da Saúde : Escola, crianças e covid

PorSara Almeida,7 nov 2020 13:06

A retoma das actividades escolares presenciais tem sido alvo de incertezas em todo o mundo e Cabo Verde não é excepção. Há um mês, as escolas abriram em todo o país com excepção do Tarrafal e da Praia, que se juntam desde segunda-feira, ao resto dos concelhos. As reticências persistem, mas de uma coisa os responsáveis da saúde estão certos: neste momento as vantagens do regresso às salas de aula superam os riscos. Por um lado, porque o perigo de contágio já está minimizado por regras e orientações e, por outro, porque a saúde das crianças vai além da ausência de infecção e não se pode comprometer o desenvolvimento e bem-estar de toda uma geração.

Os impactos concretos a longo prazo da ausência de aulas presenciais e confinamento nas crianças são ainda uma incógnita. Mas já se sabe que os haverá. É por isso que vários países onde novas medidas de confinamento estão a ser aplicadas, optam por manter as suas escolas abertas. Por isso, e porque hoje, à luz dos estudos sobre a infecção por SARS-CoV-2 em meio escolar, a reabertura não parece ser o descalabro de contágios que inicialmente se temeu.

“Segundo os estudos feitos até agora, a retoma das actividades escolares não tem um impacto muito grande no aumento de casos de covid-19”, aponta o diretor dos Serviços de Prevenção e Controlo de Doenças, Jorge Noel Barreto, citando estudos feitos na Europa, entre outros. Contudo, salvaguarda, “estes estudos foram feitos no início da retoma das actividades escolares”. Isto quer dizer que pelo pouco tempo decorrido e eventual insuficiência de experiências observadas é talvez um pouco prematuro dizer, com toda a certeza, que a reabertura das escolas não tem esse impacto.

Mas, por outro lado, está comprovado que se as medidas de prevenção forem tomadas “o risco é reduzido”. A solução é, pois, ter escolas e a comunidade escolar preparadas... e cumprir as regras, que já todos conhecem.

Aulas, sim!

Os professores e também os pais têm-se mostrado apreensivos com o regresso às salas de aula e sindicatos têm vindo a pedir o (re)encerramento de escolas, sejam as que já tiveram casos positivos, seja todas as dos concelhos onde a situação epidemiológica é mais problemática.

A delegada de saúde da Praia, Ulardina Furtado, diz compreender a preocupação, mas relembra que embora as aulas virtuais sejam uma ferramenta importante, “o espaço da criança também é na escola e não há melhor método de ensino e de aprendizado do que estar na presença do seu professor”.

Também Elísio Silva, delegado de saúde de São Vicente, considera que já não “faz sentido o Medo porque, neste momento, medo não resolve nada.”

“O que faz sentido é as pessoas cumprirem as regras sanitárias. Cumprindo as regras sanitárias e tendo os equipamentos necessários, não é preciso ter medo”.

Há riscos? Há. Por mais antevisões que se façam, por mais preparação que haja, “é óbvio que nenhuma escola vai estar preparada 100%. Há sempre um risco porque vai haver um movimento nas escolas, movimentação das pessoas e é isso que vai fazer a diferença”, como refere Jorge Barreto.

Mas pesando riscos e benefícios, da parte da saúde, existe um consenso de que as escolas devem ser sim abertas e tudo se deve fazer para que se possam manter assim.

“Eu, particularmente sou a favor da retoma”, advoga o infecciologista. “A retoma das actividades escolares é algo prioritário, porque a saúde não se resume apenas à parte física [à ausência de doença]. Temos também a parte mental e a parte social. As crianças sentem falta do convívio, embora agora este deva ser feito com distanciamento, e sentem falta do ambiente escolar”.

Desde finais de Março que são limitadas a actividades virtuais, “e portanto, estão saturadas”. O virtual não basta na formação do indivíduo.

“Geraçao covid”, apelida, por seu turno, Elísio Silva. Uma geração de crianças que não vai à escola, não pode brincar num parque, fica confinada em casa, geralmente ligada a ecrãs electrónicos para se entreter. Durante muito tempo as crianças viveram assim – e ainda continuam de certo modo – e os problemas que isso pode trazer são vários.

Sedentarismo, obesidade, problemas de relacionamento inter-pessoal, problemas emocionais e psicológicos... todo um conjunto de problemas que inclusive podem degenerar em vários outros, que é preciso evitar.

Até agora, nos diferentes centros de saúde de São Vicente ainda se sentiu grande impacto da covid sobre as crianças. Pelo menos nada que requeira cuidados médicos, mas os impactos existem e é preciso minimizar.

Ulardina Furtado também frisa a preocupação da saúde com as crianças em ambiente de pandemia, que inclui o afastamento das escolas.

“Isto reflecte-se muito a nível psicológico da criança. Faz parte do desenvolvimento da criança e do adolescente estar em contacto com outros da sua idade, com os seus pares, e portanto pesando os riscos e os desafios, podemos estar a ganhar por um lado [ao não abrir as escolas] mas estamos a perder muito por outro, porque o desenvolvimento da criança depende do estar dentro da comunidade educativa”, aponta.

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Do lado das autoridades de saúde há pois, aqui duas preocupações: garantir a segurança sanitária e garantir a saúde integral da criança. E ambas as garantias têm de ser dadas dentro do possível.

O bom e o ideal

Apesar do regresso às aulas, sobre a necessidade do qual já não parece haver dúvidas, o mesmo ainda está longe do desejável devido aos vários procedimentos preventivos tomados.

Falta uma parte essencial da forma como as aulas (ainda) estão desenhadas e que é o recreio. O horário da tarde ou da manhã já foi reduzido para evitar que as crianças estejam tanto tempo na sala e há um pequeno intervalo entre actividades, mas dentro da sala, que deve servir para movimentar um pouco as mãos, pernas, corpo… mais não é possível.

“Infelizmente é o que se pode fazer por enquanto, enquanto a situação epidemiológica não melhorar e o número de casos reduzir de forma a que o risco de propagação também esteja consideravelmente reduzido”, considera Jorge Barreto.

Crianças não activas são mais vulneráveis às (outras) doenças, mas o director dos Serviços de Prevenção e Controlo de Doenças, acredita que, em ambiente doméstico ou mesmo nas ruas, as crianças estão a “movimentar-se e a fazer actividades físicas da forma como é possível”.

“É uma situação bastante complicada que não nos dá muita margem para manobra”, sublinha. “Estamos numa situação especial e as pessoas devem entender isso”.

Para Elísio Silva, também, haver aulas já “ajuda um pouco” a aliviar a carga e impactos da covid nas crianças. Adaptação é, entretanto necessária, porque “nós vamos viver muito tempo com covid”, vaticina.

Encerramentos

Entretanto, desde que as aulas presenciais foram retomadas em Cabo Verde, em Outubro, pelo menos oito escolas encerraram, após serem diagnosticados casos. Algumas fecharam logo após o aparecimento de um só caso, outras de dois, e outras escolas, por seu lado, continuaram a funcionar suspendendo apenas as aulas nas turmas onde se deu um ou mais diagnósticos positivos.

Para o delegado de Saúde de São Vicente, Elísio Silva, terá havido, em alguns casos incumprimento da lei. “As escolas que encerraram com somente um caso positivo não cumpriram a lei, que é muito clara: uma sala de aula, para fechar, tem que ter duas pessoas positivas”, aponta.

Em São Vicente já apareceram casos de alunos infectados em várias escolas,mas estas não encerraram. O delegado acredita, aliás, que, mesmo com casos, o mais correcto é fazer o teste PCR aqueles que na sala se sentam mais próximo do aluno infectado: à frente, atrás e aos lados.

Esta testagem, inclusive, já foi incluída na lei. Na semana passada, motivado pela discrepância de procedimentos das escolas até então, o governo reforçou e clarificou regras. Às directivas para o encerramento seja da sala de aula, seja da escola completa, juntou-se as regras da aplicação de testes, quando surjam casos.

Assim, resumindo, no que toca a encerramento, fecham as salas de aula onde haja dois ou mais casos de alunos infectados – o que já estava previsto desde a primeira resolução –, e, no caso de haver três ou mais salas distintas com casos, então sim, fechará a escola.

As normas estão pois estabelecidas, desde as medidas de prevenção, constantes nos planos de contingência das escolas, aos procedimentos de reacção aos casos positivos, mas como refere Jorge Barreto é no decorrer das actividades lectivas presencias que se irá realmente ver se “aquilo que foi previsto como orientação para gerir uma determinada situação se vai aplicar bem, ou se se adequa bem”.

“A escola é mais segura do que as comunidades”

Mas há alunos cabo-verdianos que já se contagiaram no espaço-escola? A resposta não é fácil.

Mas neste momento, pode “ser precipitado” fazer essas afirmações, como considera Jorge Barreto. Seria necessário ter em conta, por exemplo, uma investigação sofisticada. Apesar da ponderação em refutar os contágios, pela dificuldade em traçar origens, separando a comunidade educativa da social, Jorge Barreto avança que a maioria dos contactos com casos identificados em ambiente escolar têm sido negativos.

Isto ”leva-nos a pensar que as pessoas poderão estar a adquirir a infecção na comunidade e não maioritariamente nas escolas”, aponta.

Elísio Silva afirma com mais convicção que, durante primeiro mês de aulas presenciais em São Vicente, nenhum caso apontou para um contágio dentro da escola. “As situações vêm da comunidade, e só encontramos pessoas positivas - em relação ao caso de um aluno da escola - na sua comunidade”, explica.

As aulas na Praia, por seu turno só agora arrancaram e não há dados. Mas a abertura foi precedida, como nos outros concelhos, por um “intenso” trabalho conjunto da educação e saúde “para que haja um regresso o mais seguro possível”, num momento em que a capital ainda enfrenta uma grande transmissão comunitária.

O regresso seguro passa não só por equipar as escolas e capacitar os profissionais da educação, mas também por informar e levar à aquisição de novos hábitos por parte dos alunos e pais, sublinha delegada de saúde da capital.

Ulardina Furtado avalia, entretanto, que de qualquer modo, “as ocorrências que estão a acontecer nas outras ilhas não são nada fora do normal neste contexto”.

“É uma questão de sabermos lidar com a situação para que cortemos a cadeia o mais rápido possível”. E isso está a ser preparado, garante.

Assim, também neste ponto os profissionais de saúde concordam: “Você está melhor na escola do que na comunidade”, como colocou Elísio Silva. Com as regras que as escolas têm, estas são mais seguras.

E o que se afere em Cabo Verde não é diferente do que dizem os experts em todo o mundo: Bares e outros locais fechados de confraternização entre adultos é que parecem ser os locais mais perigosos para os contágios. Não as escolas.

Posto isto, e apesar do regresso (presencial) à escola poder não ser totalmente isento de risco, com as medidas apropriadas a taxa de transmissão nas escolas é relativamente baixa. Por todo o mundo, os estudos têm mostrado que o uso de máscara, o distanciamento social e uma boa ventilação, são medidas bastante efectivas.

“Vamos aprendendo porque a situação da pandemia da covid não vai melhorar, e a não retoma das aulas poderá trazer outras consequências para a vida das pessoas, das crianças, dos estudantes e dos seus pais e seus encarregados de educação”, resume Jorge Barreto.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 988 de 4 de Novembro de 2020. 

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Autoria:Sara Almeida,7 nov 2020 13:06

Editado porSheilla Ribeiro  em  26 nov 2020 20:19

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