EUCLIDES SILVA: Os jovens não se sentem representados pelos políticos

PorJorge Montezinho,17 nov 2019 10:18

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Mestre em Antropologia Social e Cultural, Euclides Silva está à frente da Juventude para a Democracia desde 2017. Nesta conversa com o Expresso das Ilhas, sobre os desafios actuais aos jovens cabo-verdianos, o líder da JPD destaca a qualificação e o desemprego como os problemas mais prioritários. Já sobre política pura e dura, o responsável lamenta a falta de renovação política, uma das causas que aponta para o afastamento dos jovens em relação aos partidos.

Na sua opinião quais são os desafios actuais da juventude cabo-verdiana? 

Passam, primeiro, pela qualificação, porque o país porecisa de jovens altamente qualificados, capazes de singrar no mercado, não só a nível interno, mas para competir com o mundo. O outro desafio é o emprego. Hoje em dia o mercado de trabalho está em constante mudança, por isso, há que encontrar novas formas de ocupar os jovens, que passa pelo reforço do empreendedorismo. Há medidas interessantes que o governo tem estado a adoptar, mas os jovens também têm de preparar-se para agarrar essas oportunidades. 

Estamos numa fase em que se fala muito, discute-se muito, estuda-se muito, escreve-se muito, mas faz-se pouco. O que está a falhar? 

Os resultados não acontecem tão rápido quanto desejaríamos. É necessário fazer estudos, é necessário promover debates, mas os resultados já começaram a surgir. Hoje há mais facilidade no acesso ao financiamento para o empreendedorismo, há a Pró-Empresa, através da qual os bancos já estão a dar mais créditos, com a garantia do Estado. Mais de uma centena de jovens, inclusive, já tiveram acesso a estes financiamentos. 

Como analisa o papel do governo na questão da juventude? 

O papel do governo é fundamental para resolver os problemas da juventude. Penso que o governo tem feito um trabalho extraordinário, incansável, sobretudo na qualificação. Hoje há cada vez mais jovens à procura das formações profissionais e boa parte dessas formações são financiadas pelo governo. Agora, quando se fala da juventude temos de ver um ângulo muito mais abrangente. Neste momento, por exemplo, a isenção das propinas para os estudantes até ao 10º ano já é uma realidade, no próximo ano vai ser alargada até ao 12º, tudo isso para que nenhum jovem fique de fora por razões financeiras, mas também para enfrentar os desafios do mundo actual. 

Já voltamos à questão da educação, até porque o Banco Mundial mostrou vários dados interessantes. Mas há pouco, falou também das responsabilidades dos próprios jovens. Entre a responsabilidade do Estado e a responsabilidade pessoal do próprio cidadão – do jovem – acha que há um equilíbrio ou ainda se espera muito do Estado? 

Em Cabo Verde ainda temos uma sociedade que espera muito do Estado e que acha que o Estado tem de resolver tudo. Se calhar, é uma ideia que o próprio Estado passou ao longo dos anos. a realidade não é bem assim, Cabo Verde é um país que sempre teve homens e mulheres empreendedores, que fizeram um óptimo trabalho tanto no país como fora, e é necessário fazer um ajuste de mentalidades porque a responsabilidade pessoal é também importante. As pessoas têm que ter isso em mente, para resolvermos qualquer problema temos de ser nós a dar o primeiro passo. O Estado ajuda quem tem ideias e iniciativas, mas essa ideia tem de partir das pessoas. No fundo, a responsabilidade individual é importante, a começar na escola, onde o jovem tem a responsabilidade de estudar e ser bom aluno, até ao seu papel na sociedade, que deve ser digno. 

De um passado, como referiu, de cabo-verdianos empreendedores, passamos para um presente onde todos olham para o Estado à espera de alguma coisa. Ou seja, um tempo anterior de assistencialismo, como é referido por variadíssimos analistas, torna mais complicado criar esse ambiente empreendedor?

Sim. Ao longo de muitos anos, o Estado assumiu um papel omnipresente, em que fazia tudo, onde o assistencialismo foi fomentado. Veja, se alguém abre uma pequena empresa no interior, a comunicação social não cobre, mas se for uma doação toda a gente vai atrás. Esta foi a promoção da cultura assistencialista. Mas, como disse, é preciso mudar de paradigma. Hoje é preciso resgatar a bravura dos cabo-verdianos do passado para criarmos outra cultura. O Estado já não dá emprego, o trabalho para a vida toda já não existe e a nossa geração tem de estar preparada para se adaptar aos novos cenários. 

Mas um dos cenários actuais é de facto o do desemprego juvenil elevado, jovens em risco de exclusão social que pode gerar comportamentos antissociais. Enquanto jovem líder partidário, está preocupado ou acha que pode haver uma solução a curto/médio prazo? 

Enquanto houver um jovem no desemprego, ou um jovem que não pode estudar, acho que qualquer dirigente partidário e qualquer cabo-verdiano fica preocupado. O desemprego jovem é ainda elevado, mas tem estado a reduzir de ano para ano. Acredito que com as medidas que estão a ser tomadas pelo governo, o número de desempregados desça ainda mais. 

Voltando à educação. Os números do Banco Mundial mostram que o aumento do acesso ao ensino não se traduziu na qualidade nem na relevância da formação. A taxa de abandono escolar continua alta. Há uma prioridade para as ciências sociais e não se conseguem formar cientistas, matemáticos, engenheiros, informáticos. No fundo, preparar jovens para o mercado global não vai ser fácil nem vai ser rápido.

Certo. Em Cabo Verde, é verdade que formamos muito para as ciências sociais, esse é um problema que não vem de agora, mas as reformas curriculares que estão em curso, com a aposta nas línguas e nas tecnologias, a curto prazo vão reverter a situação. As nossas universidades também têm de se preparar para dar a formação científica necessária. 

Em relação aos jovens e à política. Acha que há esse falado afastamento entre os jovens e a política? 

Há esse discurso do afastamento dos jovens em relação à política, mas eu acho que esse distanciamento não é assim tão grande. Provavelmente, os jovens estão é a afastar-se dos partidos políticos, porque os próprios não se conseguem reformar para serem mais atractivos. Penso que os jovens são politicamente muito activos, aliás, basta ir às redes sociais para ver a quantidade de opiniões que os jovens têm diariamente sobre a política, se calhar dão mais opiniões num dia do que a geração anterior dava num mês. O que devem fazer os partidos? Dar espaço aos jovens. Se olharmos para a média de idades do nosso Parlamento ou de algumas câmaras municipais não temos quase jovens com menos de 30 anos, no fundo a maior franja da nossa sociedade. Ou seja, os jovens não estão a sentir-se representados pelos políticos que temos. É preciso ter coragem e trazer caras novas para a política. Temos uma geração altamente qualificada, com convicções, que quer dar o seu contributo, mas é preciso que tenham espaço. Não podemos esquecer também que muitas vezes quando um jovem aparece na política é apelidado de chico-esperto, ou de outros nomes, que é uma forma de amedrontar os jovens e deixar a política para os que se julgam donos da política. 

Então, mais do que um afastamento da política, acha que há uma descrença nos políticos? 

Exactamente. É aí que temos de trabalhar, apostar na credibilidade dos políticos, se houver casos suspeitos, a justiça deve agir, com celeridade, punindo os infractores, tudo isso contribui para a moralização da política. Depois, tem de haver renovação. Os jovens não podem ser vistos como mão-de-obra barata para as campanhas eleitorais. Há jovens que não querem estar na política, mas há outros que querem e por mais ideias brilhantes que tenham, se não tiverem um palco para as apresentarem essas ideias não conseguem influenciar o país. 

Mas, com jovens, na sua análise, tão participativos e ao mesmo tempo tão descrentes, isso não poderá abrir o caminho para o aparecimento de movimentos populistas? 

É uma tendência mundial. Em Cabo Verde as novidades chegam tarde, mas chegam. Mais tarde poderemos ter mais partidos e alguns deles, sim, podem ter esse cariz mais populista. Depois cabe ao povo decidir. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 937 de 13 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Jorge Montezinho,17 nov 2019 10:18

Editado porJorge Montezinho  em  8 dez 2019 19:19

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