Autárquicas 2020 : Mulheres que desafiam ‘liga de cavalheiros’ das Autárquicas

PorSara Almeida,29 ago 2020 11:08

Com o aproximar das eleições Autárquicas, marcadas para dia 25 de Outubro, começam a ficar fixadas as candidaturas que serão formalmente fechadas em Setembro, aquando da sua apresentação aos tribunais do círculo eleitoral. Até lá, ainda poderá haver mexidas, mas uma coisa sobressaí em todos os concelhos por todo o país. Tal como vem sendo habitual, os candidatos à presidência das Câmaras Municipais são praticamente só... homens. Mas há, pelo menos, duas mulheres que decidiram romper esta exclusividade de género e “furar”, sem medo, a liga de cavalheiros das Autárquicas.

Neida Rompão, candidata da UCID em Santa Catarina

Os dois maiores partidos de Cabo Verde, o MpD e PAICV, apresentaram os seus candidatos à liderança dos municípios do país. Todos homens, nenhuma mulher. Numa tentativa de equilibrar os géneros fazem agora contas e buscas para trazer candidatas para comandar as Assembleias Municipais, já que as cadeiras presidenciais dos paços dos concelhos serão essencialmente masculinas.

A única candidata à presidência das Câmaras Municipais com apoio partidário é Neida Semedo Rompão, da UCID, que concorre em Santa Catarina (Santiago). Não deixa de ser algo irónico que o único partido que no parlamento votou contra a Lei da Paridade (em discordância com o artigo 6, porque a lei “rejeita” que os partidos que não tenham capacidade de apresentar uma lista na proporção 40/60 possam ver essa lista aprovada) seja o único que, na prática, quebra a Liga de cavalheiros das autárquicas.

Mas então quem é Neida Rompão? É filha de Figueira das Naus, tem 32 anos e é enfermeira. Centro de Saúde Reprodutiva de Assomada. É também presidente regional da UCID em Santiago Norte e entrou na política quando percebeu que esta é, ou pode ser, social – a área que, na verdade, sempre lhe interessou.

“Eu via política como algo diferente da área social, mas agora o meu entendimento é que a política é social, porque a política trabalha a promoção social, trabalha a justiça social, trabalha a igualdade social”, explicita.

Da primeira vez que foi convidada para integrar a UCID, após participar num evento do partido a convite de um simpatizante, recusou.

Nesse evento, “intervi, apresentei as minhas preocupações enquanto jovem estudante, na altura, e questionei sobre a política da UCID para a juventude. Questionei ainda sobre, sendo a UCID um partido sedeado em São Vicente, os objetivos que tinham para Santiago Norte”. Depois da intervenção, veio o convite do presidente, António Monteiro. “Não aceitei porque achava que não me interessava por política”.

Isso aconteceu em 2013. Nesse mesmo ano, foi também convidada para um congresso do partido, em São Vicente. Participou, mas ainda como simpatizante. Em 2017, um novo convite para integrar o partido, desta vez aceite e um segundo congresso.

“Fui como delegada e membro da UCID e fui eleita como membro da comissão política da UCID e também presidente regional de Santiago Norte”. Estávamos em Novembro de 2017 e Neida terminava, assim, o namoro com o partido e entrava definitivamente na política activa.

“Não tem campo melhor, vendo a minha vontade de trabalhar pela sociedade, do que a política, onde posso, com dignidade, promover a área social e ter a oportunidade de servir as pessoas”, acrescenta, na linha do que antes referiu.

Daí a ser escolhida da UCID - que concorre às autárquicas 2020 em nove municípios - para encabeçar a lista para Santa Catarina de Santiago foi um passo óbvio. Desafio aceite.

“É a minha oportunidade de exercer o meu desejo de trabalhar para o desenvolvimento e servir a população” e, ademais, fazê-lo “de forma que as pessoas se sintam representadas na política”, explica.

Prioridades

Santa Catarina é um concelho grande, pejado de pequenas localidades dispersas que compõem a grande manta de retalhos “cheia de potencialidades” que é este município.

Assim, o olhar da candidata de Figueira das Naus, que concorre sob o lema “igualdades, oportunidades, inclusão”, vai para o lado ainda ‘escondido’ do município.

“Acho que Santa Catarina precisa de se desenvolver mais, porque Santa Catarina não é a Cidade da Assomada. É um município grande, com dispersas localidades, com especificidades diferentes e devemos focalizar-nos nas zonas que têm potencialidades a nível da agricultura, pecuária, pescas e turismo rural e de montanha. Essas áreas não têm estado a ser valorizadas aqui”, avalia.

Educação é outro pilar que quer ver desenvolvido, e que certamente terá um grande destaque no seu programa eleitoral. Educação, mas com foco na qualidade e de forma contextualizada – tendo em conta os vários quadros que o município já tem. E a estes pontos-chave, alia-se sempre a inclusão social, a justiça social e a promoção social.

A candidata avança, entretanto, algumas ideias para as áreas de intervenção escolhidas. Por exemplo, a nível da agricultura, pretende-se valorizar e capacitar os agricultores, olhando o sector não apenas como “um meio de sobrevivência da família”, mas um sector com várias vertentes. Assim, mais do que a agricultura de subsistência, a ideia é promover iniciativas como a agricultura cooperativa, onde vários agricultores possam ser sócios e trabalhar em conjunto. A nível da capacitação, pretende-se promover o conhecimento sobre o escoamento e procura dos produtos, para melhor gestão da safra, valorização desses produtos, mas também a sua conservação.

“Muitas das vezes os agricultores têm uma safra grande, muitos produtos, mas que não conservam porque não têm uma formação na área da conserva. Então, o produto tem de ser vendido a um preço baixo para não estragar. Vamos trabalhar nesse âmbito, capacitar para evacuar produtos e conservar”.

A nível do Turismo, uma ideia concreta é a criação de mapas com todas as informações sobre pontos turísticos do município.

E outras ideias e projectos integrarão o programa eleitoral, a apresentar oportunamente, da única mulher (pré-) candidata com apoio partidário.

Ana Rita Reis, candidata da sociedade civil à CM da Praia

Ana Rita Reis ou Anny Reis vai concorrer à presidência da Câmara da Praia, numa candidatura com duas diferenças das demais: o género – é a única mulher que até agora encabeça uma lista para a capital – e o facto de ser uma candidatura que, não sendo “independente” no sentido estrito do termo, é da sociedade civil e não tem, portanto, vínculo partidário.

É a primeira vez que se “mete” numa aventura destas, mas desafios superados não lhe falta principalmente na área da educação. O currículo de Anny é extenso. Natural de São Lourenço dos Órgãos, tal como os seus sete irmãos (todos homens), Anny veio para a Praia aos 10 anos para poder prosseguir os estudos e nunca mais deixou de estudar. Formou-se em Literaturas e Culturas Cabo-verdiana e Portuguesa na Uni-CV, tem também formação em Jornalismo, marketing e outras em empreendedorismo, género... a lista é imensa e foi sendo cultivada de acordo com os seus alargados interesses e projectos. “Gosto muito de estudar”, admite.

É Mestre em Tecnologia de Informação pelo Instituto da Educação da Universidade de Lisboa, fez várias especializações, inclusive a nível internacional (EUA, França, Brasil) em áreas como Liderança e Desenvolvimento Pessoal e Gestão de Projectos....

E, tal como vários membros da sua família, é professora. Há 22 anos. “Quando terminei o 7.º ano comecei logo a leccionar, era professora de Língua Portuguesa”, recorda.

Aliás, professora acima de tudo, é como se define, sendo também, actualmente, directora e promotora da Escola Profissional das Tecnologias e Artes, na Cidade da Praia.

Uma escola criada em 2017 que é, como apresenta, “um projecto sócio-profissional”, que face aos “cerca de 80 mil jovens desempregados que não estudam”, tem como intuito colmatar “alguma necessidade existente”.

Assim, não é de admirar que a aposta na Educação encabece a lista de objectivos propostos por esta candidatura. Educação como o instrumento para melhorar todos os outros sectores da sociedade.

“O nosso foco será sobretudo na parte da educação/ formação, para gerar emprego, empreendedorismo social, mas também para congregar a nível social. Temos uma situação grave na Praia, que é a questão da violência, e só se combate a violência através da educação”, defende.

Educação e acompanhamento das crianças e jovens. Com a saída dos pais para a labuta diária, “muitos ficam na rua. Cabe às autarquias criar programas específicos para não ter nenhuma criança e jovem na rua, programas alternativos para que eles se sintam engajados onde quer que estejam”, aponta a (ainda pré-) candidata.

Aliás, esta é uma preocupação que está na génese da própria Liga da Sociedade Civil, plataforma que lançou a sua candidatura e que “surgiu maioritariamente das comunidades, das associações, dos grupos que têm estado a fazer actividade no terreno”.

As propostas para o programa eleitoral não estão fechadas, conta Anny, a Liga continua a trabalhar nas mesmas, e “cada bairro tem um representante e mostra a real necessidade [do bairro] que é para juntos conseguirmos construir esse sonho de uma Praia melhor e mais inclusiva, onde todos têm voz e vez”.

Mudar o Status Quo

Esta não é, pois, uma candidatura de génese política, embora o embate das autárquicas seja um acto político.

Mais uma vez - e este é um ponto muito comum nas mulheres que fazem política activa – há um entrecruzar com o activismo social. A vontade é fazer algo pela sociedade e a política um recurso para tal.

E foi pelo activismo então que Anny entrou na política.

“À semelhança de quase toda a gente em Cabo Verde, sempre disse: ‘política não é para mim’. Mas desde muito nova, desde os 12 ou 13 anos que sou activista social”, conta.

Trabalhava na comunidade, organizava actividades, fazia palestras.

Em 2012, no âmbito desse trabalho é convidada pelo então presidente do PAICV, José Maria Neves, para “ entrar na liderança de juventude para a Praia”.

“Mas eu não era militante, nem não sou. Entrei como sociedade civil, porque acharam que eu era útil ali”.

Saiu em 2015 e abandonou todas as actividades ligadas à “política”.

Agora, depois de muita reflexão neste período de pandemia que “veio pôr a nu as nossas fragilidades” decidiu entrar na corrida autárquica, no “sentido de dar uma contribuição” efectiva para melhorar a Praia, lá onde pode fazer as coisas acontecerem, mas também “para que as cartas se baralhem um pouco e não se fique nessa dualidade MpD-PAICV”.

Aliás, a própria sociedade está cansada do bipartidarismo, considera, justificando que “segundo um estudo, em 2016 mais de 50% dos eleitores não foram às urnas porque não acreditam ou não têm interesse na política”. Esse terá sido mesmo, conforme diz, o momento em que o grupo a que pertence – a liga da sociedade civil – começou a trabalhar para mudar o status quo.

Tudo isso, “fez-me pensar que eventualmente temos de ter alguma coragem porque se não somos nós a mudar as coisas, quem será?”

Um outro motivo que lhe deu força para esta candidatura, enquanto activista de género, foi a ausência de mulheres dos maiores partidos na corrida.

“Fiquei francamente muito decepcionada. Tantos discursos ...” e depois nenhuma mulher. Mais um motivo para mudar o status quo. E o projecto da sociedade civil ganhar força.

“O projecto é muito bonito porque o objectivo acima de tudo é lutar pelos mais desfavorecidos, que não conseguem alcançar os seus objectivos. A Praia é de todos nós, então todos deveriam ter igualdade de oportunidades”.

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Cabo Verde precisa de mais mulheres nas autarquias

Até hoje, apenas houve três mulheres no comando das autarquias: a pioneira Isaura Gomes, em São Vicente e depois, em Santo Antão, Vera Almeida no Paúl e Rosa Rocha em Porto Novo. Essas, apenas. Nas Autárquicas de 2016 nenhuma... Um deserto feminino que parece quer manter-se.

“Cabo Verde até tem mulheres na política activa, mas precisa de mais, principalmente nas autarquias”, considera Neida Rompão da UCID.

A candidata confessa que ficou desiludida com as outras listas, embora se escuse a pronunciar sobre as escolhas dos restantes partidos. “Esperava ter mais mulheres, porque ter mais mulheres significa que estamos a lutar, a lutar por vários motivos: pela igualdade de que tanto se fala, pelo incentivo à formação das mulheres, promovendo que estas busquem o lugar delas - porque o nosso lugar é onde nós queremos. É quebrar o estigma de que a mulher tem algumas ‘limitações’”, diz.

Na verdade, Neida espera que a sua candidatura sirva para sensibilizar mais mulheres a participarem na política. Isto, mesmo estando ciente da dureza das campanhas, principalmente a nível das autárquicas que acaba por ser mais pessoal e focada no cabeça de lista.

“Requer cautela, muita capacidade, sabedoria e acima de tudo determinação e garra”. Mas Neida está pronta. Sabe que vai ser cansativo, mas acredita que a campanha, que vai decorrer de 8 a 23 de Outubro, irá correr bem.

E se não é fácil ser mulher candidata, em candidaturas não partidárias, que “não têm toda aquela máquina” e apoio financeiro para suportar a mesma, mais difícil ainda, observa, por seu turno, Anny Reis.

Além disso, numa sociedade tão bipartidarizada há o receio de represálias futuras. Mas acima disso, destaca a candidata da sociedade civil, um grande problema em matéria de participação é que “em Cabo Verde, infelizmente, muitas vezes faz-se politiquice e não política”. As mulheres retraem-se com medo de insultos e outros ataques pessoais. “Porque quando não conseguem atingir a pessoa, porque é inteligente, é esperta, trabalha arduamente, vão para o campo pessoal”.

A própria Anny foi aconselhada por pessoas próximas a não avançar por temor dessas atitudes tão frequentes em campanha. Mas a professora não desistiu, pelo contrário defende que essa “má-língua” contra as mulheres é algo que se tem de ser combatido, não só na política como em todas as situações sociais.

“Há que ter coragem, alguém tem de ir lá mesmo ... dar a cara”, reitera.

Apesar de encabeçada por uma mulher, a candidatura da Sociedade Civil é paritária. “Chega de discurso feminista ou machista, nós temos de trabalhar em conjunto”. E assim, a lista será o mais próxima possível do 50/50, e o candidato à presidência da mesa da Assembleia é um homem.

De qualquer forma, acredita, a própria vontade da sociedade, de ver uma mulher a liderar, está a fazer-se sentir. Um pouco também pela vontade de mudança de status quo e ver como as coisas poderiam ser diferentes. Foi isso que o grupo que começou o projecto que se materializou nesta candidatura pensou. E avançou.

Assim, até ao momento, há estas duas candidatas a Presidente da Câmara nas eleições Autárquicas de 2020, mas outras se lhes poderão juntar até à formalização das candidaturas que decorre de 5 a 15 de Setembro. Outros nomes têm sido avançados para as Câmaras de Ribeira Grande de Santiago, São Domingos e Santa Cruz, no âmbito das candidaturas da sociedade civil, mas até ao fecho de edição nada estava confirmado. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 978 de 26 de Agosto de 2020.

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Autoria:Sara Almeida,29 ago 2020 11:08

Editado porJorge Montezinho  em  25 nov 2020 23:21

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