“África deve assumir-se como um continente, não só do futuro, mas do presente”

PorAndre Amaral,30 mai 2021 8:32

O Dia de África, que se comemora a 25 de Maio, foi a motivação para esta conversa com Rui Figueiredo Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros recentemente empossado e que acumula a pasta com a da Integração Regional. As relações políticas e comerciais de Cabo Verde com África, com a Europa e o resto do mundo e a situação política no continente são alguns dos temas desta entrevista.

No comunicado sobre o Dia de África disse que dois dos objectivos iniciais da OUA foram a libertação de África do colonialismo e do neo-colonialismo. Esses objectivos foram alcançados?

Pensamos que os objectivos fundamentais que tinham que ver com a libertação da África foram alcançados com a independência durante o século passado. Estes foram os objectivos imediatos, aqueles que estão mais visíveis, mas sabemos que a África continua a enfrentar grandes desafios a que a União Africana, agora, deve responder. A África deve posicionar-se de uma forma adulta. Depois das independências dos seus países deve assumir a sua riqueza, a sua diversidade e, sobretudo a África deve assumir-se como um continente, não só do futuro, mas do presente. Com o enorme mercado que a África representa e, aqui na nossa região da CEDEAO, com um gigante como é a Nigéria temos tudo para ter as condições para que o continente, conhecendo dias de paz, estabilidade, prosperidade, seja um parceiro incontornável na arena internacional. Isto vai depender do empenho que os líderes africanos puderem colocar neste desafio que é agravado agora pelo contexto da pandemia da COVID-19.

Mas a Europa, enquanto antiga potência colonizadora, continua a ter um peso muito grande tanto nas decisões que se tomam em África.

As relações internacionais desenvolvem-se com os seus mecanismos próprios. Nós sabemos que não será possível cortar definitivamente o cordão umbilical, assim como os filhos não os cortam definitivamente com os pais. Relativamente a África as suas relações com a Europa são muito especiais e o discurso de hoje do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que tem a presidência do Conselho da União Europeia, é uma mensagem de um relacionamento entre iguais. É certo que os discursos são uma coisa e a realidade é outra. Pela nossa prática estabelecemos muito mais relações comerciais com a Europa e com o continente americano do que com países aqui vizinhos de África. São relações que levam tempo a moldar, mas parece-me que, definitivamente, voltamos a página. A África está a assumir-se como um continente que tem potencialidades enormes, precisa ainda de resolver questões difíceis porque temos ainda elevados níveis de pobreza extrema em África, de instabilidade, temos desafios e ameaças graves em várias regiões de África. Mas pensamos que serão questões resolvidas a médio prazo e que aí estaremos em condições de falar de igual para igual. A questão do alívio da dívida externa foi objecto de uma reunião em Paris, convocada pelo Presidente Emmanuel Macron, e vários presidentes de países africanos estiveram presentes juntamente com os países mais desenvolvidos do mundo a traçar aquilo que será um objectivo comum. E esta ideia de que temos de ultrapassar aquilo que é a nossa história, esta ideia tem sido sublinhada pela própria crise da COVID-19. Aqui não haverá vencedores, não haverá nações, ou grupos ou continentes que saiam vencedores desta crise e outros que saiam derrotados. Ou vamos conseguir este objectivo todos juntos ou as coisas irão complicar-se certamente.

A nível do comércio externo o que pode significar para Cabo Verde este espaço de comércio livre que foi criado há pouco tempo pelos países da União Africana?

É um passo importantíssimo. Cabo Verde deu um sinal na sua adesão. É um passo importante para se construir aquilo que pretendemos que seja a África do futuro. Para que a África consiga negociar em bloco as suas posições neste mundo do comércio que sabemos que é um mundo difícil. Aliás, este mundo está reflectido na guerra comercial que temos pelas vacinas, por exemplo, para a COVID-19. É um passo muito importante, é claro que a declaração de intenções não resolve os problemas todos. Haverá outros passos importantes a serem dados ao nível dos países. Mas pensamos que sem esta macro-estrutura os passos a serem dados pelos países seriam certamente mais pequenos e menos eficazes.

O que é que Cabo Verde, ainda no que respeita às relações económicas, pode oferecer a África que África já não tenha? Fala-se muito em pescas e turismo, mas isso são sectores que estão tão ou mais desenvolvidos no continente do que em Cabo Verde.

Acho que a diversidade é uma grande mais valia e Cabo Verde não deixa de ter algumas especificidades, alguns pontos que o diferenciam dos restantes países da África, mesmo que sejam pequenos Estados insulares como é o caso de São Tomé e Príncipe. São Tomé tem uma realidade completamente diferente de Cabo Verde. A nível do turismo termos aqui uma potencialidade enorme devido à grande variedade das nossas ilhas. É difícil encontrar-se um destino turístico em que se encontre tanta variedade por metro quadrado. Não diria variedade em absoluto, mas por metro quadrado, sobretudo se tivermos atenção aos metros quadrados habitados no nosso país. Eu fiz questão de levar duas ministras dos Negócios Estrangeiros, a da Guiné-Bissau ao Fogo e a do Senegal a São Vicente. E a variedade de paisagens, de pessoas, de microculturas é espantosa. Por conseguinte Cabo Verde terá esta mais-valia. Por outro lado, não podemos esquecer a nossa posição geoestratégica relativamente ao continente que significa uma mais-valia. Além disso, no aspecto político a estabilidade, o Estado de Direito Democrático, a realização de eleições livres e transparentes e esta paz acabam por ser outras mais-valias no continente africano.

Como é que o governo está a acompanhar a situação do golpe de Estado no Mali?

Nós acompanhamos com muita atenção desejando que com a intervenção da CEDEAO e das Nações Unidas se consiga encontrar uma saída, o mais depressa possível, para que o povo do Mali possa conhecer dias de paz, tranquilidade e prosperidade.

A experiência de paz pode ser um trunfo para a participação do país em missões e negociações de paz?

Cabo Verde tem-se mostrado sempre disponível e ultimamente deu vários passos nesse sentido. Pensamos que o nosso clima de paz e estabilidade serão sempre trunfos que devem ser melhor aproveitadas tanto na nossa região como na própria África.

Quem vai ser o embaixador de Cabo Verde na Nigéria e porque está o processo a demorar tanto tempo?

O nome do embaixador não posso revelar. Isto tem a ver com as relações entre os Estados, pedimos o agreement e não podemos revelar o nome da pessoa para quem foi feito esse pedido de agreement porque poderíamos estar a pôr os Estados numa situação difícil. O processo, na Nigéria, está a ser acompanhado por nós. A chancelaria está pronta para o embaixador se instalar. Tenho falado com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, um grande amigo de Cabo Verde, e ele tem-me assegurado que isto tem a ver com processos e procedimentos internos de cada um dos países. Nós em Cabo Verde somos mais rápidos a conceder o agreement, a Nigéria é um gigante e nós temos de nos pôr ao passo do gigante. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1017 de 26 de Maio de 2021.

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Autoria:Andre Amaral,30 mai 2021 8:32

Editado porAndre Amaral  em  16 jun 2021 23:21

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