A UCID quer afirmar-se como uma alternativa política focada nas soluções e não na disputa entre os dois maiores partidos. É essa a posição que o partido diz que assumirá durante o debate do Estado da Nação, recusando transformar a sessão parlamentar num confronto entre o MpD, que deixou recentemente o Governo, e o PAICV, que iniciou um novo ciclo governativo.
A preocupação da UCID não passa por determinar quem vence o debate político, mas por avaliar quem apresenta respostas para os problemas que continuam a afectar os cabo-verdianos. Por isso, garante que o partido manterá a linha de actuação que diz ter seguido ao longo dos últimos anos: analisar a situação do país com objectividade, reconhecer os progressos alcançados, denunciar as insuficiências existentes e apresentar propostas para as ultrapassar.
Na leitura da UCID, Cabo Verde é hoje um país que registou avanços significativos em várias áreas, mas que continua sem conseguir transformar esses progressos em prosperidade partilhada por toda a população. A UCID destaca a consolidação da democracia, a estabilidade política e institucional, a credibilidade internacional do país e o crescimento do turismo como aspectos positivos que devem ser reconhecidos. A UCID considera igualmente que esse contexto permitiu atrair investimento e contribuir para a criação de emprego.
Contudo, a UCID entende que esses indicadores não reflectem a realidade vivida por muitos cabo-verdianos. Na perspectiva do partido, continuam por resolver problemas estruturais que condicionam a qualidade de vida da população, como das dificuldades no acesso à habitação, o elevado custo de vida, a escassez de oportunidades para os jovens e a forte dependência da economia de um número reduzido de sectores de actividade.
O partido acrescenta que o modelo de desenvolvimento permanece excessivamente centralizado, o que limita uma distribuição mais equilibrada das oportunidades entre as diferentes ilhas. A UCID defende igualmente que Cabo Verde deve reforçar a sua autonomia estratégica, garantindo que as parcerias internacionais respondam prioritariamente aos interesses nacionais.
Além do PIB
Para a UCID, o verdadeiro Estado da Nação não pode ser medido apenas através do crescimento do Produto Interno Bruto ou dos recordes alcançados pelo turismo. Na visão do partido, a avaliação do desenvolvimento deve centrar-se sobretudo na capacidade de cada cabo-verdiano viver com dignidade, criar oportunidades para a sua família e acreditar num futuro melhor.
Ao fazer o balanço dos anos de governação do MpD, a UCID procura manter aquilo que define como uma posição equilibrada considerando que seria injusto ignorar os resultados alcançados durante esse período, salientando a consolidação da estabilidade democrática, o reforço da confiança internacional, a recuperação económica após a pandemia e o crescimento do sector turístico.
Ainda assim, a UCID entende que esses resultados não significam que Cabo Verde tenha resolvido os seus principais problemas estruturais. O partido considera que o país continua excessivamente dependente de poucos sectores económicos, mantém fortes assimetrias entre as ilhas, enfrenta dificuldades persistentes no acesso à habitação e apresenta salários que, segundo afirma, continuam sem acompanhar o aumento do custo de vida. A estas dificuldades junta ainda a insuficiência de oportunidades para uma parte significativa da juventude.
Na perspectiva da UCID, estas limitações revelam que o actual modelo de desenvolvimento está a dar sinais de esgotamento. O partido entende que o desafio deixou de ser apenas governar melhor o modelo existente, defendendo antes a necessidade de o transformar através de um novo ciclo de reformas estruturais.
Reformas
Entre essas reformas, a UCID aponta a diversificação da economia, o aumento da produtividade, a modernização do Estado, a descentralização administrativa e uma maior aposta na digitalização. O objectivo, defende o partido, passa por criar riqueza em todas as ilhas e garantir que o crescimento económico seja mais inclusivo.
É também com esta visão que a UCID encara o início de funções do novo Governo. O partido espera que o executivo tenha coragem política para concretizar reformas que considera terem sido sucessivamente adiadas ao longo de várias legislaturas. Segundo a UCID, diferentes governos reconheceram a necessidade de diversificar a economia, descentralizar a Administração Pública, reformar o Estado, melhorar as condições para o sector privado e criar mais oportunidades para os jovens, mas muitas dessas mudanças acabaram por não avançar.
Oposição sem preconceitos
Apesar das críticas, a UCID garante que não fará uma oposição baseada em preconceitos nem assumirá uma atitude de rejeição sistemática das iniciativas governamentais. O partido diz que avaliará o executivo pelos resultados, apoiando todas as medidas que considere úteis para o interesse nacional e exercendo uma fiscalização rigorosa sempre que entender que o país está a perder oportunidades ou a adiar reformas indispensáveis.
Para a UCID, Cabo Verde entrou numa fase em que já não basta gerir o quotidiano. O partido considera que o país precisa de visão estratégica e capacidade de execução, defendendo que terminou o tempo das reformas anunciadas e começou o tempo das reformas concretizadas.
Crescimento económico
Questionado sobre o crescimento económico registado pelo país e a desigual distribuição dos seus benefícios, a UCID afirma que o verdadeiro desafio não consiste apenas em repartir melhor a riqueza produzida, mas em permitir que um número cada vez maior de cabo-verdianos participe na sua criação.
Nesse sentido, o partido defende uma economia mais diversificada, assente no reforço das micro, pequenas e médias empresas, no investimento na inovação, na economia digital, na economia azul e na transformação local dos recursos nacionais. Além disso, a UCID considera igualmente essencial descentralizar as oportunidades de investimento e desenvolvimento, evitando que o crescimento continue concentrado em poucos territórios.
A qualificação das pessoas surge igualmente entre as prioridades identificadas pelo partido. Para a UCID, é necessário aumentar a produtividade e criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo, permitindo que mais empresas cresçam, gerem empregos qualificados e paguem melhores salários. Só assim, defende a UCID, será possível fazer circular a riqueza por toda a economia em vez de construir um modelo em que poucos produzem riqueza e o Estado se limita a redistribuí-la. O partido prefere um país onde milhares de cabo-verdianos tenham condições para inovar, empreender, criar riqueza e prosperar.
Relativamente aos resultados das eleições legislativas de 17 de Maio, nas quais a UCID perdeu dois deputados, a UCID reconhece que esperava consolidar a sua representação parlamentar. Ainda assim, afirma que a prioridade passa por retirar ensinamentos da votação e interpretar a mensagem dos eleitores com humildade.
17 de Maio
Na sua leitura, os resultados não colocam em causa os princípios nem os valores da UCID, mas reforçam a necessidade de renovar o partido, melhorar a comunicação política e aproximar-se ainda mais dos cidadãos.
Uma das principais conclusões das eleições, para a UCID, é a existência de um espaço de confiança que precisa de ser reconquistado. Para isso, o partido entende que deve reforçar a ligação permanente à sociedade, compreender melhor as preocupações da população e transformá-las em propostas concretas.
Ao mesmo tempo, a UCID acredita que Cabo Verde está a entrar numa nova fase política e que os desafios actuais exigem respostas diferentes. A UCID entende que continua a ter um papel relevante na construção de uma alternativa política capaz de responder aos problemas que, na sua opinião, o actual modelo de desenvolvimento já não consegue resolver.
Durante os próximos cinco anos, o partido pretende assumir-se como uma força política responsável, independente e comprometida com o interesse nacional. No Parlamento promete exercer uma fiscalização rigorosa da acção governativa, apresentar propostas e contribuir para a procura de soluções, ao mesmo tempo que aposta no reforço da sua organização interna e na renovação do partido.
Outro dos temas abordados foi o impasse registado na escolha dos titulares dos cargos externos à Assembleia Nacional. A UCID entende que esta situação resulta sobretudo das dificuldades de entendimento entre os dois maiores partidos e da tendência para fazer prevalecer a lógica partidária sobre a lógica institucional.
A UCID defende que os órgãos de fiscalização, regulação e garantia democrática devem ser preenchidos por pessoas escolhidas em função da competência, independência e sentido de Estado. O partido manifesta esperança de que, nesta legislatura, seja possível ultrapassar os bloqueios e alcançar consensos que reforcem a credibilidade das instituições.
Orçamento rectificativo
Quanto à possibilidade de apoiar um eventual Orçamento Rectificativo, a UCID deixa claro que a posição do partido dependerá exclusivamente do conteúdo da proposta apresentada pelo Governo. A UCID recorda que o partido votou contra o Programa do Governo por considerar que o documento não apresentava metas suficientemente claras, prioridades bem definidas nem mecanismos que permitissem avaliar a execução das medidas.
Assim, a UCID garante que um eventual orçamento será analisado pelos mesmos critérios. A UCID pretende avaliar quais são as prioridades definidas, que problemas procura resolver, que recursos serão mobilizados e quais os resultados esperados.
Se a proposta responder efectivamente às necessidades do país e servir o interesse nacional, a UCID admite analisá-la com abertura. Caso contrário, o partido manterá uma posição crítica.
A concluir, a UCID reafirma que o partido não pretende ser uma oposição de bloqueio nem uma oposição de conveniência, assumindo antes o compromisso de avaliar cada decisão política pelo seu mérito e pelo contributo que possa dar para responder aos problemas do país e promover o bem comum.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1287 de 29 de Julho de 2026.
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