Cultura entre incertezas e reinvenção

PorDulcina Mendes,1 ago 2020 15:13

A cultura é uma das áreas mais prejudicadas com a pandemia do novo coronavírus. No âmbito do debate sobre o Estado da Nação, que acontece na sexta-feira, 31, na segunda sessão plenária da Assembleia Nacional deste mês, o Expresso das Ilhas foi saber que leitura os artistas e agentes culturais fazem do Estado da Nação na Cultura no cenário da pandemia da COVID-19, que está a assolar o país e o mundo.

Muitos dos artistas e produtores musicais estão sem trabalho desde o mês de Março por causa desta doença. E não se sabe quando é que as coisas vão voltar à normalidade já que todos os dias estão a surgir no país novos casos.

Depois do fim do estado de emergência, alguns espaços culturais reabriram as portas, mas as festas e os festivais, segundo as medidas de desconfinamento apresentadas pelo Governo, só devem iniciar no mês de Outubro. Mas dado o aumento dos casos no país, o futuro parece muito incerto, não só nesta área, como em várias outras.

Com esta pandemia nada será como dantes pelo que se está perante um Estado da Nação diferente de todos os anteriores. Quisemos saber o que mudou na área da cultura com a pandemia, que cultura se vai ter nos próximos tempos e que lições se pode tirar do contexto que estamos a viver.

Mudança

Segundo o músico e compositor Tibau Tavares na área da cultura, mais concretamente, na área da música, tudo mudou. Não há concertos ao vivo, apenas virtuais, através de livestreams, que não são rentáveis e não se sente o calor do público.

Na mesma linha, o produtor musical, Augusto (Gugas) Veiga explica que mudou tudo, porque até agora não estão autorizados a exercer a profissão e, sobretudo, existe o impacto negativo de não haver rendimento para a área.

Para a cantora Cremilda Medina, a pandemia que nos assola há já alguns meses veio dar-nos um recado de que nada deve ser tido como certo e eterno na nossa vida e que se tem de procurar constantemente novas formas e novos meios de fazer passar a mensagem, não podendo ficar sentados à espera que tudo ou todos venham ter connosco.

“Com a inibição de concertos ao vivo e de todas as mostras culturais ao público em geral, a pandemia veio fazer com que muitos agentes culturais adoptassem outras formas de fazer passar as suas mensagens, uma nova forma de fazer concertos, por exemplo, através de concertos online”, acrescenta a cantora.

Paulo Lobo Linhares, da editora e produtora Insulada, assegura que a pandemia mudou a velocidade dos acontecimentos, onde a internet e o digital se afirmam como forte complemento da acção cultural e não só. “Assistimos claramente ao diluir de um ‘normal’ para o aparecimento de um novo tempo, que creio e espero ser com muito mais humanismo, esse humanismo que fomos perdendo de forma feroz, ao longo dos últimos anos”.

A cantora Solange Cesarovna é da opinião que muita coisa mudou, a começar pela dinâmica do sector cultural e de todos os que integram o sector artístico nas suas diferentes expressões, que deu um giro de 360 graus, com a paralização de todos os eventos.

“As fragilidades que o sector cultural enfrenta, pelas especificidades próprias, em que a grande maioria dos trabalhadores são freelancers, ou trabalhadores do regime informal, que evidenciou a necessidade urgente da reorganização do sector, bem como do reforço da consciência nacional, que o sector cultural é um sector vital para o país, o oxigénio, a água e o alimento da alma dos cabo-verdianos”, considera Cesarovna.

Cultura nos próximos tempos

Augusto Veiga é da opinião que ainda é imprevisível saber como é que vai ser a cultura nos próximos tempos, mas o sector já está a se reinventar, à procura de outros caminhos, “mas sem dúvida que todos os actores do sector vão ter que trabalhar mais juntos e recorrer mais à área digital”.

Solange Cesarovna espera que a cultura nos próximos tempos seja uma forte componente criativa e de originalidade, proporcionadas pela resiliência da comunidade cultural cabo-verdiana “que nunca parou de sonhar e de criar, durante esta fase de crise sem precedentes. Uma cultura que deve ser mais proteccionista para salvaguardar todos os seus fazedores e potencializar o que é feito nacionalmente, dando oportunidade aos grandes talentos e à classe criativa cabo-verdiana”.

O músico maiense Tibau acredita que o futuro ainda é incerto, “tendo em conta que não se sabe quando é que tudo isso vai acabar e quando é que vamos voltar à normalidade, mas penso que nada será como dantes”.

Cremilda Medina afiança que vamos ter uma cultura retraída, sem grandes ajuntamentos, uma cultura com menor interação com o público. “Acredito que vamos continuar a ter uma cultura mais virada para o online, para transmissões via internet, aquela que pode ajudar nesta fase muito particular, mas que tem um outro sentimento, pois priva-nos da interacção com o público, com aqueles que dia após dia nos dão o seu carinho e apoio”.

A intérprete de “Raio de Sol” espera que esta fase dure o menos tempo possível, mas sublinha que para isso acontecer cada um de nós tem que fazer a sua parte. “Espero também que a cultura não caia no esquecimento e que lhe seja dado o devido valor assim como àqueles que nesta altura estão a contratar músicos e intérpretes em Cabo Verde não os explorem, que lhes seja pago o devido valor pelos seus serviços”.

Conforme Paulo Linhares, ainda ninguém, nem mesmo a ciência sabe como vai ser os próximos tempos. “Sabemos, sim, que terá de ter uma forte vertente de reinvenção assente no digital como complemento do físico, físico esse que não poderá desaparecer, particularmente em Cabo Verde, onde a classe artística e cultural mostrou estar claramente fragilizada. A cultura, enquanto arte, nos próximos tempos deverá ser regida pelo aumento das políticas públicas da classe cultural. Contamos ainda com a simplificação dos processos organizacionais e institucionais”.

Lições da pandemia

Para Tibau Tavares, com tudo isso, aprendemos que não podemos viver sozinhos pelo que devemos ser humildes e colaborar com os outros. “Neste momento, todos precisam de todos para ultrapassar esta fase”.

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Linhares, por seu lado, sublinha que há que apostar muito mais na cultura. “Vimos a maneira como a economia foi baleada, enquanto a cultura continuou de pé, aumentando ainda mais a sua presença nas nossas vidas. Precisamos da cultura/arte como bem essencial. Verificou-se o poder e a utilidade do que o artista Mário Lúcio Sousa chamou de ‘contracultura silenciosa’, todo o movimento que surgiu com maior incisão na Internet, de contestação, constante e consciente. Devemos estar atentos e tirar daí ensinamentos e o modus operandi”, aponta.

Cremilda Medina considera que, em primeiro lugar, tem-se que pensar que existe um longo caminho a percorrer no que toca aos direitos e deveres dos agentes culturais em Cabo Verde. “Os agentes culturais, músicos, intérpretes, artesãos, pintores, dançarinos, entre muitos outros, têm de perceber que não têm só direitos, também têm deveres para o seu próprio bem pessoal, pois só podemos exigir de quem de direito se fizermos também a nossa parte”.

“Infelizmente, tenho conhecimento de que muita gente tem passado por dificuldades diárias devido a esta pandemia. Por isso, eu sempre disse e continuo a dizer para todos se inscreverem no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), para fazerem os descontos legais, para se inscreverem nas sociedades de direitos de autor existentes em Cabo Verde, pois só assim se pode construir uma melhor cultura de modo a podermos usufruir dos nossos direitos quando precisarmos. Acima de tudo, uma lição de vida que espero esteja a servir de exemplo para o bem de todos”, sugere.

Solange Cesarovna acredita que só se consegue vencer, recuperar e reinventar o sector cultural em acção colectiva, em união de vozes e causas. “Ficou transparente a necessidade urgente da aprovação do Estatuto do Autor e do Artista, de um instrumento que regula o sector dos espectáculos no país, entre outros instrumentos legais, para a garantia da dignidade do trabalho, do colaborador do sector cultural, no sentido de regulamentar os direitos e as obrigações do trabalhador do sector cultural”.

Para Gugas Veiga as lições são muitas, sobretudo se pensarmos que nada é certo e que devemos sempre precaver-nos para o futuro, “sendo que a cultura deve organizar-se para defender os seus interesses pois temos muita força, mas não a temos usado de forma conveniente para o nosso sector ter mais importância e força nas decisões sobre a nossa área”.

Quando aos concertos online realizados durante esta pandemia, o produtor musical avançou que o que se conseguiu ganhar com concertos online ainda é muito residual e será um caminho que vão ter de aperfeiçoar e de procurar formas para que esses concertos sirvam para dar rendimentos futuros aos artistas que os fazem. “A nível tecnológico, já estamos a procurar caminhos e vamos ter de mudar a mentalidades para que o público adira com a sua contribuição e as empresas e instituições vejam essa área como atraente para a promoção das suas actividades e produtos. Está provado que a música e a cultura têm sido um factor promocional da publicidade diferenciador pela positiva”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 974 de 29 de Julho de 2020.

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Autoria:Dulcina Mendes,1 ago 2020 15:13

Editado porDulcina Mendes  em  9 ago 2020 19:19

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