Jorge Spencer Lima, Presidente da Câmara de Comércio do Sotavento : “As medidas são boas, mas têm de ser postas em prática”

PorJorge Montezinho,4 abr 2020 17:03

A pandemia de coronavírus está a mergulhar a economia no desconhecido. Com a previsão de recessão na Europa, economistas e historiadores vêem mais semelhanças com o choque do petróleo dos anos setenta e com o ‘crash’ de 1929 do que com a crise de 2008. Os especialistas dizem que estamos muito perto de uma recessão global de consequências inesperadas e Cabo Verde não ficará imune. Para analisar as medidas do governo para a economia, o Expresso das Ilhas falou com o presidente da Câmara de Comércio do Sotavento, Jorge Spencer Lima.

Provavelmente, enquanto empresário, nunca deve ter imaginado um pesadelo económico desta dimensão.

Absolutamente, nunca me passou pela cabeça. Não estávamos preparados para isto e agora vamos ter de estar, de modo que todos possamos agir como um só para combater esta crise.

Que impacto podemos antecipar na economia cabo-verdiana?

O impacto é enorme. O primeiro é no turismo, que corresponde a mais de 20% do PIB nacional, e irá retomar lá pelo fim do ano, mas não vai parar. O país está todo paralisado, portanto todos os sectores vão sofrer. Vai haver o impacto nas receitas do Estado, portanto, podemos contar com um buraco grande na economia nacional. Além disso, vamos ter os privados, a indústria, o comércio, os serviços, tirando a indústria alimentar que vai continuar a trabalhar para abastecer o mercado, o resto pára.

De qualquer forma, o governo já pôs em movimento uma série de medidas.

O governo tomou algumas medidas, no sentido de ajudar as empresas e ajudar os trabalhadores, mas essas medidas ainda têm de ser clarificadas. Como é que vamos pôr essas medidas em prática? Neste momento, conhecemos as decisões saídas do conselho de concertação social, mas ainda ninguém sabe como fazer. Anunciaram-se uma série de linhas de crédito, mas ninguém sabe como ter acesso a essas linhas de crédito. Os próprios bancos ainda não foram informados sobre o que têm de fazer para pôr em prática essa decisão do governo. Em resumo, actualmente temos medidas anunciadas, algumas já postas em prática, como a questão dos trabalhadores que forem para casa – as empresas pagam 35% e o INPS paga os outros 35% – mas no que diz respeito à linha de crédito de um milhão de contos para o sector do turismo, o sector não sabe como ter acesso. A linha de crédito de um milhão de contos às empresas também ninguém sabe como ter acesso. A outra linha de crédito de um milhão de contos para o financiamento da liquidez para as empresas, ninguém sabe como ter acesso. Os bancos também ainda não sabem como vão operacionalizar. Portanto, há uma necessidade urgente de clarificar os procedimentos e informar as empresas.

Têm sido contactados pelas empresas nesse sentido?

Está tudo a perguntar como se faz e ninguém respondeu o como. Se não se passar à prática, só teremos medidas vazias. O princípio está bem, a forma como foi feita está bem, agora é preciso saber como, que é a parte mais importante disto tudo. Há que fazer um road show, ter encontros com os bancos, explicar-lhes como tudo funciona. Precisamos de saber as regras de acesso a essas linhas de crédito, como, quando e o que se tem de fazer. Isto é muito importante porque as empresas já começam a sentir a falta, a câmara do comércio tem sido contactada recorrentemente por empresas a pedir informações, algumas temos, mas há outras que não temos. Está convocada uma reunião do comité de crise para analisar a questão da parte económica, mas há que tomar medidas rápidas e eficazes de informação, é uma necessidade urgente. Não é só anunciar, é anunciar e explicar. Por outro lado, em termos de impostos, anunciou-se a suspensão do pagamento e no dia seguinte o ministério das finanças mandou uma circular a todas as empresas a dizer que têm de pagar impostos até ao dia 30 [de Março]. Pagar impostos como? É um pouco contraditório. Ainda por cima está a ser pedido o pagamento de impostos sobre as contas de 2020 que ainda ninguém sabe como vai ser, baseado nas contas de 2019. 2020 vai ser um ano terrível para as empresas, para o Estado, para todos. Estamos a cobrar impostos sobre 2020 quando raramente teremos empresas a dar lucro? Há muita coisa que precisa de ser vista, analisada e discutida para que encontremos as soluções. O governo está atento, quer fazer as coisas como deve ser, mas é preciso bom senso permanente para que, todos juntos, possamos encontrar o caminho certo e seguro para nos ajudarmos uns aos outros a enfrentar a crise. A crise é global, mas a responsabilidade é partilhada, pelo governo, pelas empresas, pelos cidadãos, por todos. Não podemos lavar as mãos e esperar que o governo também resolva tudo, todos temos de fazer a nossa parte e isso tem de ser feito de forma correcta, coordenada e disciplinada. É um problema nacional, por isso, todos os cabo-verdianos somos responsáveis para o resolver, para que possamos sair o mais incólumes possível do que enfrentamos neste momento.

De qualquer maneira, nem todas as empresas poderão ser salvas, nem todos os empregos poderão ser mantidos. É importante dizer também esta verdade?

Absolutamente, estou de acordo. O esforço que está a ser feito é para salvar o maior número de empresas possível e para manter o maior número de empregos. Não é possível fazer tudo, mas é possível esforçarmos-nos para o tentar e tirar o melhor de todos. Com a crise iremos ter um crescimento de zero, para uma previsão que era de 5%.

Por outro lado, acha que a união demonstrada depois da concertação social serviu, pelo menos, para mostrar que não vai ser um salve-se quem puder?

Absolutamente, é extremamente perigoso transformar esta epidemia num salve-se quem puder. Temos de dar as mãos, é uma responsabilidade partilhada por todos para podermos sair desta crise com menos pancada possível.

Tem sido um dos temas mais falados, a nível global, que as coisas nunca mais serão iguais. Enquanto empresário, acha que o capitalismo como o conhecemos, e o funcionamento do mercado como existe, chegaram ao fim?

Não me parece. O mercado e o capitalismo vieram para ficar. O que poderá haver serão pequenos reajustes. O ser humano tem tendência para esquecer rapidamente, dissemos que não pode ser um salve-se quem puder, mas quando as coisas normalizarem vai voltar tudo ao mesmo, vai voltar a corrida ao lucro, à especulação, cada um ganhar mais de forma gananciosa, vai voltar tudo outra vez. Poderá haver um pouco mais de solidariedade? Pode, mas não será muita. O sistema vai voltar para o que estava. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 957 de 1 de Abril de 2020. 

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Autoria:Jorge Montezinho,4 abr 2020 17:03

Editado porSheilla Ribeiro  em  11 jan 2021 23:20

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