Projectos turísticos para São Vicente : Do optimismo em Janeiro para a grande incógnita em Abril

Parece que foi há mais tempo, mas foi apenas a meio de Janeiro que o Expresso das Ilhas escrevia sobre os cinco novos empreendimentos hoteleiros entre a Marginal e a Lajinha, que estavam em construção ou em vias de iniciar os trabalhos. De lá para cá, aconteceu a crise turística associada ao coronavírus. E agora existe todo um mar de incertezas.

“Temos pela frente um buraco negro de desconhecimento”, diz ao Expresso das Ilhas Alexandre Novais, um dos promotores dos projectos turísticos planeados para o Mindelo, o quatro estrelas superior Golden Tulip Hotel, que deveria integrar a cadeia internacional Louvre Hotels. Numa primeira fase, a unidade teria 169 quartos, com possibilidade de expansão até 214. Mobilizava um investimento total de 30 milhões de euros (mais de 3 milhões de contos), as máquinas deviam começar a trabalhar nos próximos meses e poderia abrir portas até final de 2021.

“Neste momento é a incógnita total para todos”, diz Alexandre Novais. “Não que estejamos a pensar que as coisas terminam aqui, nada disso, pelo contrário, o foco e a motivação estão intactas, a maior incógnita é não saber como é que as coisas vão-se passar, qual será a profundidade, por quanto tempo”.

Para já mantém-se o contacto com o banco com o qual foi assinado o financiamento, mas o que mais preocupa o promotor, neste momento, é o lado do grupo hoteleiro com quem tem o contrato de gestão assinado. Até porque em França, origem do Louvre Hotels, a crise provocada pelo Covid-19 não dá mostras de abrandar.

“Estes tipos de investimentos só funcionam com marcas de topo mundial e a permanência dessa marca é obviamente uma condição obrigatória”, sublinha Novais. “Com eles ainda não tive contacto, eles tinham uma estratégia muito forte e objectiva centrada num desenvolvimento em África, e dentro dessa visão, Cabo Verde, e Mindelo em particular, era uma peça mestre. Inclusive, depois de cá estarem no Carnaval do ano passado, reconfigurou-se o contrato inicial, que era para um hotel de 4 estrelas, para 4 estrelas superior. Viram que havia um potencial claro neste destino. A França está a atravessar um momento complicado, o turismo está a ser particularmente afectado, estou a deixar passar algum tempo para tentar perceber como as coisas vão evoluir”.

“Nós sabemos que o turismo será dos sectores mais afectados, já foi com o fecho mundial e será aquele onde a retoma, parece-me, será a mais longa, porque implica a reconstrução de uma série de factores. Portanto, é complicado. Estavam coisas a ser iniciadas, coisas assinadas, estávamos numa verdadeira rampa de lançamento. Mas mantenho o meu optimismo, seja qual for a adversidade”.

Em relação às medidas anunciadas pelo governo, para tentar salvar empresas e empregos, Alexandre Novais, que também é membro da câmara de comércio do Barlavento, refere que tudo o que é ajuda é bem vinda. “O governo agiu atempadamente, mas para surtir efeito tem de ser já. Não digo que tem de ser amanhã, tem de ser ontem. Mas há também a questão da informalidade. Nós sabemos qual é a percentagem de informalidade que tem a nossa economia, e não falo dos vendedores ambulantes, falo da verdadeira informalidade, de gente que labuta dia a dia para ganhar o seu pão. É muita gente e eu tenho muita apreensão em relação a essa parte da população”.

Mais avançado, prestes a entrar na fase de acabamentos, estava o Hotel Maria do Carmo, investimento de 300 mil contos, realizado pela Spencer Construções e Imobiliária. De quatro estrelas e com 120 camas, o empreendimento deverias ficar concluído em Agosto deste ano.

“O nosso Maria do Carmo está com algum atraso”, diz ao Expresso das Ilhas João Spencer, “mas vamos ter de abrir este ano e estamos a contar que as coisas venham a normalizar. Os trabalhos ficaram agora parados porque a Spencer Construções, apesar de ter mais de 200 trabalhadores fixos, mais outros 300 a 400 contratados, teve de suspender todas as actividades, só mantendo um ou outro trabalho a nível de manutenção de estradas. O resto está tudo parado durante estas duas semanas”.

Os outros empreendimentos do grupo estão igualmente fechados, dois hotéis em Santo Antão, alguns restaurantes também estão encerrados e não há uma ideia clara de quando será retomado o normal funcionamento. “Estamos a contar que o período venha a esticar provavelmente até Junho, sendo optimista. Dantes dizia Maio, agora já estou a pensar em Junho. Até ter aqui os clientes novamente não será nunca antes de Julho/Agosto e com um bocadinho de sorte”.

“Cabo Verde é um país pobre, se o que está prometido foi efectivado já, nomeadamente os empréstimos, que é do que vamos precisar para cobrir os próximos três meses, se o INPS apoiar em 35% do salário e nós outros 35%, se as taxas de juro não subirem, e considero razoável não mais de 4%/5% e se houver dinheiro suficiente para cobrir, pelo menos, as despesas mensais nos próximos 3 meses, conseguimos aguentar. Se a crise for mais profunda, temos um problema grave”, avisa João Spencer.

No conjunto, os investimentos significariam um aumento considerável da oferta hoteleira, um dos ‘calcanhares de Aquiles’ do turismo em São Vicente, em mais de mil novas camas. Agora, são mais as interrogações que as certezas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 957 de 1 de Abril de 2020.  

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Autoria:Jorge Montezinho, Nuno Andrade Ferreira, Fretson Rocha,4 abr 2020 7:55

Editado porSheilla Ribeiro  em  1 jul 2020 23:21

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