Negócios do confinamento : Mercado mudou com  Covid-19, mas não parou

PorSheilla Ribeiro,19 jul 2020 11:14

Abrir um negócio em casa já era uma opção atractiva para muitos empreendedores antes mesmo do confinamento. Em Cabo Verde, por todo o bairro, cutelo e ladeira, sempre houve quem conseguisse ganhar algum com este tipo de actividade. Mas com as mudanças de comportamento e de consumo decorrentes da pandemia, alguns nichos chegam a ter demanda maior do que antes. Tudo isto tem sido bem aproveitado por quem tem veias empreendedoras. Afinal, o novo coronavírus está mudando o mercado, mas não o parou.

Há quem diga que o sector de alimentação é o mais atractivo neste momento. Isso porque quem atende por Delivery tem a chance de contemplar uma demanda maior por comida para consumir em casa. E é aí que está Edna Carvalho, dona da página Edelícias, no Instagram, que vende bolos no pote, durante a semana, assim como cuscuz e cachupa nos finais de semana.

“Foi durante o confinamento que tive esta ideia. Comecei a experimentar várias receitas durante e aí pensei: por que não? Fiz para a casa e a família elogiou, então pensei em fazer para vender. Experimentei, deu certo e avançamos”, conta a técnica administrativa, formada em gestão, completando que esta foi uma solução para um rendimento extra no período de confinamento.

Segundo Edna, a divulgação que fizeram nas redes sociais Facebook e Instragram fez com que mais pessoas conhecessem os produtos. Enfim, a aposta nestas plataformas digitais contribuiu para que conseguissem chegar a mais pessoas, vários bairros na Cidade da Praia e mesmo no interior da ilha de Santiago.

“Foi assim que começamos a expandir um pouco. Começamos a vender no dia 22 de Maio e até agora tem corrido muito bem. Eu não penso em parar com este negócio. Saímos do confinamento, mas como adquirimos clientes fixos não pretendo parar mesmo com o regresso ao trabalho, faço um esforço e vou tentando conseguir as duas coisas. Eu e o meu marido”, prossegue.

Pedidos para todos os bolsos

Esta “empreendedora do confinamento” revela que durante a semana recebem muitos pedidos de bolos e que, durante os fins-de-semana, as pessoas pedem muito o menu “Combo” que é um composto dos três produtos que oferece: cachupa, bolo e cuscuz, num valor de 500 escudos.

“Por semana, de segunda a sexta, o número de encomendas varia. Por vezes tenho 30, e por vezes mais do que 30 encomendas. Isto porque há tamanhos variados de produtos. Há de 100 ml, 250 e tamanho família que surgiu a pedido dos clientes. Há semanas que sai 3 de tamanho família, 30 do tamanho 250, depende... Não há uma quantidade certa. Os preços variam em função do tamanho. Os de 100 ml custam 120 escudos, os de 250 ml, 250 escudos, e tamanho família, 2 mil escudos”, explica.

Conforme afirma Edna, o confinamento acabou por trazer algumas vantagens, pelo que afirma ter ficado triste pelo facto de ter a ideia de apostar no empreendedorismo só no final do período de confinamento, mas, mesmo assim diz que foi gratificante. Pois, revela, que há cada vez mais clientes e que a maioria dos produtos é encomendada, facto que contribui para que consiga dar conta do recado.

“As pessoas podem fazer a encomenda através do Instagram ou através de mensagens no meu Facebook privado ou através do meu número”, informa.

O primeiro passo

Questionada sobre o que é preciso para começar, Edna responde com confiança que tudo é uma questão de conseguir fazer o mais difícil que, no seu ponto de vista, é dar o primeiro passo. Completando, afirma que, a partir do momento em que a pessoa dá a primeira largada, tudo começa a fluir.

“Digo por experiência própria. Nunca pensei no assunto, quando tive a ideia, avancei logo e até agora tem dado certo. Se eu consegui é porque outras pessoas que podem estar a passar por alguma dificuldade podem também conseguir. E isto não exige muito financeiramente. Começa-se com pouco e a pessoa vai avançado”, relata.

Tudo está indo tão bem que, se tudo continuar no mesmo ritmo, Edna pensa contratar mais alguém. Por enquanto, garante, ela e o marido estão a conseguir dar conta do recado. “Eu faço e ele ajuda na entrega e quando ele não consegue eu mesma faço a entrega”, revela.

“O meu horário de serviço é do meio-dia às 20 horas, então durante o período de manhã, eu estou livre. À noite faço todos os preparativos, faço a montagem e a entrega de manhã. Se tiver alguma entrega que foi pedido para o período da tarde, deixo tudo pronto e o meu marido entrega”, completa.

Apostando no diferencial: Thieboudienne (tchepi)

Mesmo trabalhando em casa, muitos continuam com o hábito de pedir comida. A demanda inclui desde refeições para o dia-a-dia, como marmitas, até bolos, doces e salgados para ocasiões diferentes. Luidine Carvalho Rodrigues conta que, falando num grupo de família no Facebook, constituído por ela, suas cinco irmãs e sua mãe, a irmã mais velha contou que uma vizinha vende Thieboudienne (que significa “arroz com peixe”), ou tchepi como tem sido baptizado este prato senegalês em Cabo Verde.

“Logo pensei, porque não fazer Tchepi e vender? Porque na quarentena muita gente passou a produzir em casa e a vender bolos, gelados, mas logo pensei que Tchepi não era um prato tanto produzido para vendas. Vende-se no mercado de Sucupira, no bairro da Achadinha, mas não é algo que se faz, tipo um bolo por exemplo. Então, comecei a vender”, resume.

Logo após saber da existência da vizinha de sua irmã, Luidine foi no dia seguinte falar com a senhora que faz o prato, propondo-lhe uma sociedade, após provar a comida e comprovar a sua qualidade.

“Ela é uma jovem senegalesa de 27 anos e aceitou fazer uma parceria. Ela produz e eu faço a publicidade nas redes sociais para as pessoas conhecerem e fazerem a encomenda. É ela quem cozinha porque Thieboudienne é um prato típico do Senegal”, relata esta empreendedora, dando conta que após acertar os detalhes desta parceria foram comprar os recipientes descartáveis e começaram as vendas.

Luidine relembra que fizeram a sociedade numa quarta-feira e começaram a vender no sábado seguinte. A expectativa desta jovem, conforme conta, era que iriam conseguir vender, no primeiro dia, no máximo 10 pratos, isto porque não tiveram muito tempo para publicitar o serviço. Mas, para o seu espanto, logo no arranque venderam nada mais, nada menos que 27 pratos, com apenas dois dias de publicidade. “Agora, semanalmente vendemos cerca de 120 pratos e trabalhamos de terça a domingo. Antes era apenas eu e a minha sócia, mas depois que tive o meu filho tivemos de contratar outra pessoa para ajudar no empacotamento dos alimentos. Justamente porque o negócio surgiu durante o confinamento e era suposto todos ficarem em casa, temos, por enquanto, apenas o serviço take away. Futuramente vamos pensar em abrir um espaço e ao mesmo tempo fornecer o serviço de entregas”, acrescenta.

As entregas

Para fazer as entregas, Luidine e a sócia trabalham com uma empresa de delivery, a RB Delivery. Mas, como ainda é uma empresa nova e tem apenas um “motoboy”, conta, em dias em que as entregas são muitas e em bairros dispersos, acabam por recorrer ao serviço de Táxi.

“O dinheiro do delivery não sai no custo do Tchepi, as pessoas pagam por ele. Porque cobramos 150 escudos para a entrega e aquele dinheiro é da empresa do delivery, vai directamente para lá. Há dias que eu tenho a ajuda do meu marido que sempre que pode faz as entregas”, acrescenta.

Cada prato custa 290 escudos, um preço que já inclui o custo dos recipientes descartáveis. A única variável do preço é que quando a pessoa leva o próprio recipiente o prato fica por 250 escudos.

“Desde que iniciamos as vendas conseguimos bastantes clientes fixos e sempre recebemos feedback positivo de todos os clientes, graças a Deus. Ainda não criamos uma página para publicitar os nossos pratos porque ainda não temos um nome para o negócio. Começamos a fazer a divulgação através das histórias nas redes sociais, pedi aos meus amigos que fizessem o mesmo, comecei a publicar também nos grupos de vendas no Facebook. Aliás, diariamente publico nos grupos de vendas e isso ajuda bastante. Actualmente, a venda dos Tchepi é a minha única fonte de rendimento”, frisa.

Ainda nas suas declarações, esta jovem afirma que há pessoas que motivam o negócio, dando os parabéns, desejando sucesso, enquanto há aqueles que reclamam do preço sem conhecer o produto. Para esta empreendedora, além de seguir boas práticas de segurança e higiene, quem apostar no segmento deve também investir num conjunto de medidas que devem ser tomadas nesta época da pandemia.

Variando...

Outra forma de empreender em casa envolve a venda de produtos de outras empresas e marcas. Joyce “Jó” Duarte, 18 anos, transitou para o 12º ano de escolaridade. Durante o confinamento, depois de muito pensar decidiu criar os “Mimos capilares da Jó”, um pequeno empreendimento de produtos capilares naturais.

“O foco são as pessoas com cabelo crespo e cacheado, uma vez que agora há cada vez mais pessoas que optam por manter o cabelo natural. Então resolvi fazer produtos e vender porque penso que posso ajudar muitas pessoas, uma vez que são produtos que eu já usei e que me ajudaram bastante”, narra.

Embora todo o planeamento tenha sido feito durante o estado de emergência, Jó começou a vender depois, quando as coisas voltaram ao “normal”, porque não podia sair de casa para realizar as entregas.

“Tenho produtos como óleo de gengibre, tónico bomba, tónico de alho, champô bomba para o crescimento, tónico de hibisco (bissap), mel de cenoura e babosa, óleo de hibisco e óleo de cenoura. Eu é que faço esses produtos em casa, por enquanto não tenho quem me ajude a produzi-los”, revela.

Jó informa que o namorado a ajuda a fazer as contas e a encher os frascos. Segundo faz saber, aprendeu a fazer esses produtos com as blogueiras brasileiras e o público, até agora, tem gostado. Esta jovem empreendedora diz que tem recebido relatos de que o cabelo das clientes adquiriu um outro “comportamento”, por exemplo, que está mais maleável e com mais brilho.

“Por semana recebo, em média, cerca de 20 encomendas e os preços variam entre os 250 e os 600 escudos. Mas, há kits que variam entre 1.000 e 2.500 escudos. São produtos que prometem crescimento, brilho, força maciez e volume, além do tratamento para caspa”, explica.

Jó diz que não pensa em parar de produzir. Com a retoma das aulas, afirma que apenas pensa mudar na rotina. “Vou passar a produzir nos finais de semana e no meio da semana penso fazer entregas nas minhas folgas. Até agora tem sido um negócio rentável mesmo comprando os produtos para depois produzir”, finaliza. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 972 de 15 de Julho de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,19 jul 2020 11:14

Editado porSheilla Ribeiro  em  6 ago 2020 20:19

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